quarta-feira, 19 de junho de 2019

Cangaceiros 10

                                                      Foto ilustrativa da web


A criada avisa que a mesa está servida, que sua esposa o espera e ele responde que em instantes irá jantar. Depois que falar com o filho.

Nesta noite, o prefeito faz visita à Dona Maroca - que não tem dinheiro sequer para comprar as velas - mãe da moça encontrada morta e ao pai do rapaz também na mesma situação, Manoel Espicha Couro e promete uma pensão com fundo criado recentemente. Não é bem um salário, mas é um bom adjuntório e enquanto prefeito ele for e como bom político, aproveita e pede votos para a eleição que se aproxima. Também não esquece de dar uns trocados para as vela ao sair. Cumprimenta novamente os poucos que estão no velório aperta a mão de cada um, abraça, dá tapinhas nas costas, se despede e sai.

Do outro lado da montanha, bem distante da cidade, onde há geografia de caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, predominam cactos de várias espécies e diversificada biodiversidade. Dificilmente será encontrada em algum outro lugar do planeta. Território inóspito no meio do nada abriga um bando de cangaceiros que ao contrário de muitos não saqueiam as cidades e assim como índios da região, estão em paz, vivendo a duras penas da agricultura precária, da caça e da pesca mais distante ainda, principalmente quando São Pedro não abre as portas do céu para banhar a terra e encher os rios.

Gerônimo, homem alto, forte, de pele queimada pelo clima árido e muitas cicatrizes deixadas pelas lutas que já travou, pela hierarquia e a idade é o chefe do bando que tem entre homens e mulheres aproximadamente cento e cinquenta membros. Um cabra de palavra e sobretudo respeitado;  quando diz que pau é pedra nem que não seja, é bom concordar.

Hoje, mais do que nunca, Gerônimo está sorrindo, feliz da vida, o que é uma raridade, acabou de nascer seu filho. É um bebê robusto, apesar de tudo; a companheira do chefe e mãe da criança passa bem, graças aos serviços delicados da parteira que vive ali.

É uma noite de festa sem muitas pompas, fogueiras são acesas e as garrafas de cachaça serrana guardadas para esse dia foram liberadas. O resultado da caçada foi positivo e as carnes de veados, cutias, preás e capivaras chiam na brasa. A farinha branca de mandioca, queijo assado e pimenta também faz parte do cardápio.

Gerônimo tem no Pároco da cidade, o Padre Lauro, um forte aliado e esse de forma generosa ajuda com parte da verba que recebe mensal da prefeitura, além de ser irmão da mulher negra que vive com o cangaceiro. E por ter laços familiares, a amizade torna-se mais sólida a cada dia. O Padre uma vez por mês tem encontro em lugares diferentes com o chefe do bando, para entregar o dinheiro, fruto da doação. Em outra ocasião, no passado, o Padre Lauro passou algum tempo com o bando, pregando a palavra de Deus e ensinou Gerônimo no tempo livre, a ler e escrever;  deixou essa pequena herança de aprendizagem a cargo da irmã, para  alfabetizar o bando, dando inclusive alguns livros.

Arilson chegou cedo na bodega, abriu as portas, varreu tudo com uma vassoura de piaçava, ajeitou as mesas, passou espanador de penas na sinuca, ajeitou as garrafas de cachaça serrana na prateleira, acendeu um cigarro pau-ronca feito das cordas de fumo Arapiraca que ele vende no rolo ou cortado em retalhos, sentou-se num tamborete de couro de bode curtido e pôs os pés em cima do outro e ficou com as costas encostadas na parede.
–– Bom dia Arilson! – cumprimenta a mulher raquítica que o ajuda na bodega e faz a comida.
–– Bom dia Maricota! Acenda o fogareiro que o dia hoje promete.
–– Como é que o Senhor sabe disso?
–– Minha filha, depois daquele furdunço de ontem, aqui vai chover de gente para fofocar. Se prepare!
–– E o que boto no fogo para cozinhar?
–– Faz panelada, buchada, feijão tropeiro, arroz, macaxeira assada, jerimum e farofa.
–– O Senhor tá bem otimista!
–– Estou!
–– Bom dia! – cumprimenta um caboclo enquanto amarra o burro.
–– Bom dia!
Pouco tempo depois Benedito decide parar na bodega.
–– Bom dia!
–– Bom dia Benedito!
–– Hoje ficarei por aqui até mais tarde. Jogar umas partidas de sinuca.
–– Pois seja bem vindo, amigo!
E assim, em pouco mais de uma hora o local está apinhado de gente como previu Arilson.
(...)

domingo, 16 de junho de 2019

CANGACEIROS 9




–– Pois é. O que vamos fazer?
–– O Jaime prendeu os homens?
–– Prendeu.
–– Pois vamos ter que dar cabo deles antes que deem com a língua nos dentes.
–– E as famílias deles?
–– Depois a gente vê isso. Primeiro temos que apagar essas provas e você vai resolver pessoalmente. É o menos suspeito.
–– Como?
–– Você vai convencer o Delegado Jaime a deixar os presos  saírem e faça parecer que eles fugiram com a ajuda de alguém. Arrebente as grades, sei lá. Depois atirem neles mais longe e levem os corpos para a beira do rio. Vão pensar que foi vingança. Mas tem que ser de hoje para amanhã. Ah, leve esse dinheiro para ele e diga-lhe para ficar de boca fechada – ordena o Coronel.
–– Certo.
–– O prefeito já sabe?
–– Acho que não. Ainda é muito cedo para dizer.
–– O diabo desse prefeito é querido pelo povo e está bem cotado para reeleição. Temos que virar esse jogo. Amanhã vou à câmara tentar uma conversa com os vereadores.
–– Posso falar?
–– Pode!
–– Não é melhor o Senhor chama-los aqui na fazenda, dar um jantar?
–– Não. Isso chama a atenção do povo.
–– Então mande um recado e convide de dois em dois para uma conversa aqui ou na casa de cada um, afinal são só nove vereadores.
–– É. Mas tem três que são fidelíssimos ao prefeito e mais dois que o apoiam em tudo.
–– Pois comece a conversar com os dois mais insatisfeitos da oposição. Eles podem atiçar a ambição dos outros.
–– Por isso que gosto de lhe ouvir, Lucas. Em uma semana quero todos na palma da minha mão. Tenho recursos para isso.
–– Pois vá por aí que é o certo.
–– Conversarei com o Elesbão, nosso candidato sobre isso. Agora vá.
–– Sim chefe! Ah, tem mais uma coisa. O Arilson tá planejando um grande evento de lutas, arrasta-pé, comes e bebes e o diabo a quatro.
–– E quando vai ser isso?
–– Tão dizendo que é daqui a um mês a abertura.
–– Tá preparando terreno para a porra do candidato dele. Ele sempre apoiou o prefeito.
–– É. O Senhor sabe que nessas coisas o povo comparece em peso.
–– Pois vamos nos preparar para dar o troco. A gente fala disso mais tarde. Primeiro resolva essa porcaria que está aí.
–– Certo chefe!
Antes que Lucas saia da sala, outro capanga entra com notícia não muito agradável.
–– Coronel! Temos mais dois corpos!
–– Puta que pariu! Hoje é o dia dos mortos, é? Foram os dois que estavam no tronco?
–– Não Senhor. Esses estão vivos. Foi lá no canavial. Os dois já são de idade mais avançada.
––Pois não quero nem ver. Enterra lá para as bandas de riba do canavial. Fora da plantação, bem distante. Cuide disso.
–– Está bem, Coronel.
–– Ah, solta os dois que estão no tronco, manda alguém cuidar deles para ver se dá para trabalharem amanhã.
–– Coronel...
–– Faça o que estou mandando, cabra!
–– Sim, Senhor!
–– Tá vendo Lucas? Quatro a menos! Onde é que vamos parar? Vai, vai tua viagem.
–– Sim Senhor, Coronel!
Lucas abre a porta do escritório, cumprimenta Júlia apenas com um gesto pegando na aba do chapéu e se apressa para cumprir a missão enquanto ela entra.
–– Pai, com sua licença!
–– Claro, filha!
–– Quero lhe pedir para ir à missa de Domingo!
–– Sim! Permissão concedida! Se você quiser, eu a levo!
–– Não precisa! O Senhor de certo estará muito ocupado. Basta autorizar o Jeep ou a rural e o Damião irá comigo.
–– Seu irmão quer ir para a missa também?
–– Não sei, mas falo com ele para a gente ir. Está bem para o Senhor?
–– Sim, claro! E sua mãe?
–– Não sei ainda. Então está bem, pai! Muito agradecida, viu? – Júlia aproxima-se do pai e o beija na face.
–– Diga para seu irmão vir aqui, querida!
–– Sim, Senhor.
(...)

sábado, 15 de junho de 2019

CANGACEIROS 8

                                               Imagem meramente ilustrativa da web


–– Seu Manoel, vou trazer uma rede para o Senhor também levar seu filho para casa – o homem apenas balança a cabeça confirmando, sem dar uma palavra.

Diante da tristeza, da dor da perda, da morte, as pessoas têm reações diferentes. Algumas choram muito, gritam, silenciam e até sorriem, porém, o sentimento é o mesmo: amor. É como se perdesse um pedaço de si, quando alguém parte para outro plano.

O Jeep e uma rural abrem caminho em meio a multidão ao entardecer. O delegado, o cabo e um soldado descem das viaturas oficiais para apurar o caso.

–– Boa tarde, Senhores e Senhoras! O que realmente aconteceu aqui? – Pergunta o Delegado.
–– Aqueles dois homens amarrados ali são os responsáveis pelo carro de boi – afirma Arilson.
–– Cabo, prenda-os e algeme-os, coloque-os no Jeep e leve-os para delegacia, para interrogatório. Vai e volta para me pegar que vou ter uma conversa de pé de orelha por aqui.
–– Sim, Senhor!
–– E quanto aos corpos? - Indaga Arilson.
–– Vou disponibilizar a rural para leva-los para suas casas. Como não temos necrotério, cada família se responsabilizará para fazer o funeral.
–– E agora o que você vai fazer? – pergunta outra pessoa.
–– Que pergunta mais idiota! Acabei de explicar. Aqui não tem mais o que fazer. Vou prender os homens, interroga-los e mandar os corpos para casa.
–– E quanto ao carro de bois? – indaga Arilson.
–– Bem. Não há como consertar agora. Tirem-no dali e coloquem no pé da cerca que depois mando buscar.
–– Quando?
–– Amanhã. Estamos entendidos?
–– Éguati! Esse foi o processo mais ligeiro que já vi. Ô delegadin véi ligeiro da porra, siô! – diz um dos caboclos para o outro, em voz baixa      com a mão na boca para disfarçar.
–– Óia, tu deixa de muganga, porque se o homem ouvir isso quem vai preso é tu.
–– Delegado, o Arilson deu duas redes para levar os corpos – acentua Benedito.
–– Pois ajudem a colocar nas redes e na rural que vamos tudo duma vez quando o cabo vier. E na delegacia esses cabras vão falar tudo, tim, tim por tim, tim, nem que seja na base da pêa.

Enquanto o Delegado Jaime interroga os transeuntes e caboclos sobre o acontecido, Lucas estaciona o Jeep na propriedade de Coronel Messias, desce do carro apressado e corre para avisar o chefe sobre o incidente lá nas bandas de “Jatobá”, povoado desenvolvido mais próximo da cidade de Olho d’água.

–– Coronel! Coronel! Preciso falar com o Senhor urgente!

O Coronel que estava numa mesa farta a tomar café com bolo, queijo e outras iguarias no final da tarde, levanta-se e o convida para irem ao escritório.
–– Vamos ali para a sala de escritório. Tu tá amarelo que só flor de algodão. Fala homem.
–– Coronel, o tiro saiu pela culatra. A moça e o rapaz que o senhor mandou enterrar lá no sítio do Zé Pezão foram descobertos.
–– Como? Quem descobriu?
–– Não foi ninguém não. Segundo os relatos do povo que foi dar queixa lá na delegacia, quando eu estava lá, exatamente na hora do pagamento, disseram que a roda do carro de boi quebrou, caiu e os defuntos apareceram.
–– E quem viu isso acontecer?
–– Todo mundo que estava no bar do Arilson.
–– Tinha que ser na porta desse merda! Que diabo homem! Bem agora que estamos preparando a campanha de nosso candidato.
(...)

sexta-feira, 14 de junho de 2019

CANGACEIROS 7




–– Na, na bó, bó, bodega do-do Ari-arilson.
–– Senhor Delegado o caso é sério! – confirma a história Chico Preto – um homem e uma mulher foram encontrados mortos dentro do carro de bois, em frente à bodega do Arilson.
–– Agora entendi tudinho. Quem matou quem?
–– Ai que está o problema, Senhor delegado.
–– A ro-roda, a roda...
–– Gaguinho deixa só o Chico Preto falar.
–– T-tá bom.
–– Delegado o Gaguinho estava lá na hora do acidente.
–– Do crime?
–– Não. Ele viu quando a roda quebrou e caiu. Aí os corpos apareceram. Estavam escondidos entre as canas.
–– Esperem lá fora ou podem ir embora se quiserem. Vou tomar as providências.
–– Certo! Senhor. Vamos voltar, mas o Senhor precisa ir lá ligeiro bala.
–– Agora vão. Lucas, diga-me uma coisa, foi por isso que recebi esse dinheiro hoje?
–– Não era para ser assim. Coisa ruim acontece, mas o que você vai fazer agora?
–– É complicado! Pelo visto, muita gente já sabe disso.
–– Dê seus pulos, Delegado. Resolva o caso.
–– Olha como fala comigo, Lucas. Ah, e diga ao Coronel que qualquer coisa, estamos às ordens.
–– Pois resolva. Estou de saída. E é melhor que seja rápido. O patrão não vai gostar se algo der errado, principalmente que esse ano tem eleição.
–– É. Eu sei. Não precisa me lembrar. Quer dar uma passada por lá?
–– Quero nada. Até mais ver!
–– Até!

Depois de algumas horas, Dona Maroca chega ao local, na garupa do cavalo de um amigo. A mulher já vem se desmanchando em prantos. O marido também se encontrava em casa e agora chega montado em riba dum jumento cardão com jeito de burro; no lombo a cangalha de madeira e palha de carnaúba forrada com uma esteira confeccionada artesanalmente com o mesmo material do coqueiro.

–– Minha filha! Oh meu Deus! O que fizeram com você? O que esses malditos fizeram com você? Me ajudem! Me ajudem a tirar minha filha desse sofrimento, pelo amor de Deus! – chora e grita dona Maroca abraçada com o corpo da filha.
–– Se acalme Dona Maroca! Deus é maior! – Diz uma Senhora tentando consolar a mulher.
–– Mulher, como eu posso ter calma num momento desses? Oh, meu Deus! Meu Cristo! Ela não merecia uma morte dessas! O que eu vou fazer sem você? Deve ter sido apanhada, surrada. É muito sofrimento para uma pessoa só.
–– Dona Maroca, trouxe uma rede tapuerana para a Senhora levar o corpo de sua filha para casa. Os homens vão ajuda-la – decide Arilson sensibilizado.
–– Tá bom, meu filho. Depois eu pago, quando puder.
–– A Senhora não precisa me pagar essa rede. Esse é o meu adjuntório.
–– Oh, meu Jesus! Deus te pague em dobro, filho!
–– Ei, não tira os corpos agora, não! Deixa a polícia chegar – fala Benedito.

E nesse momento o Manoel Espicha Couro, pai do rapaz que também está na carroça chega ao local com lágrimas nos olhos e uma tristeza profunda. Em silêncio desce da montaria e dirige-se ao encontro do filho. Abraça-o como se fosse o último dia de sua vida, demonstra seu amor e calado, olha nos olhos dos dois homens amarrados. Parece querer fulmina-los com o olhar carrancudo que penetra a alma, mas se contém como homem que é e permanece calado ao lado corpo.
(...)

CANGACEIROS 6




Um caboclo mais frio, arrasta duas ou três canas da carroça, desfolha-as, põe em cima do peitoril, e pega uma a uma e vai descascando, corta em cruz alguns gomos pequenos e mastiga – eita porra! Essa é das boas! Doce que só o mel!

Outro mais aproveitador, pega alguns fechos e leva-os para seus animais devorarem enquanto estão amarrados no pé da cerca e assim, seguindo o exemplo, outros fazem o mesmo, pegam os fechos para alimentar suas montarias, afinal, alguns jogadores viciados em baralho, sinuca e dama vem de longe montados em cavalos, burros e jumentos, todos arreados com boas selas, alguns mais pobres, usam cangalhas nas montarias. A concepção é de que a carga está perdida mesmo e o que importa naquele momento são os corpos, então, deixa os bichos comerem as canas.

Os bois estão babando de calor com o sol a pino, mas ninguém vê isso. Bem, quase ninguém. Benedito sugere tirar a canga da parelha de bois e decide dar uma parte das canas e água para os animais à sombra do grande pé de jatobá e enquanto isso acontece, pessoas da região aglomeram-se. O boato boca a boca se espalha rapidamente. Não há melhor publicidade do que fofoca no interior. Até parece que todos moram perto um do outro. Não se sabe por que as coisas ruins ganham mais repercussão do que as coisas boas.

Gaguinho chega à delegacia, amarra o cavalo num pé de oiti e adentra apressado.

–– O-olá! C-ca-cadê o De-dele-delegado? – pergunta ele a um recruta no balcão.
–– Está na sala dele. Aguarde aí. Ele tem uma visita importante. Vixe! Tá avexado assim por quê?
–– M-mas é, é um ca-caso de vi-vida ou mor-morte!
–– Tenha calma, gaguinho! Aguarde sua vez! Ôxe!!

A visita importante como o recruta falou, trata-se de um homem que certamente é o braço direito do Coronel Messias que veio trazer propina.

–– Pois muito bem Senhor Lucas. Quanto ele mandou dessa vez?
–– Está tudo aí nesse envelope, conforme o Senhor pediu. Agora ele disse que é para o Senhor fechar oszói, caso alguma coisa ruim venha a acontecer ou dar errado – diz o capanga de Coronel Messias.
–– Hum!! Ô cabra arretado de palavra!
–– Delegado, com sua licença, tem um gaguinho aperreado querendo falar com o Senhor. Ele tá realmente agoniado.
–– Terminamos aqui, Lucas, mas pode ficar enquanto atendo essa ocorrência. Mande-o entrar, cabo.

Gaguinho já está para botar os bofes pela boca, e nesse interim, chega Chico Preto ainda mais nervoso que o outro.

–– Quero falar com o Delegado. Ele está aí?
–– O que houve?
–– Tenho que avisar a ele do furdunço que aconteceu no bar do Arilson.
–– É o mesmo assunto do gaguinho?
–– É. Mas sei explicar melhor para a autoridade não perder tempo.
–– Pois emburaca, já que ele está lá dentro!
–– De-de-de...
–– Delegado! - Completa o policial.
–– N-não! De-de-defunto!
–– Defunto, onde?
–– O diabo quando não vem, manda o secretário.
–– Cala a boca Lucas – repreende o Delegado.
–– No, no car-carro de bó, boi.
–– Que carro gaguinho?
–– No bar.
–– Entendi. Defunto no carro de boi, no bar. Onde fica o bar?
(...)

quinta-feira, 13 de junho de 2019

CANGACEIROS 5




Arilson entra no recinto, pega a sua espingarda e dá voz de prisão aos homens como se fosse polícia.

–– Teje preso! Vocês vão ficar bem quietinhos aí, bando de cabras sem vergonha! Ei, vocês! Amarrem os dois até a polícia chegar.
–– Como é teu nome infeliz? Para quem tu trabalhas desgraçado? – pergunta um caboclo mais afoito com a peixeira na mão roçando a cara do homem.
–– Moço, pelo amor de Deus! Eu nem sabia de corpo nenhum aí.
–– Pois é. A gente foi pago só para entregar a carga no sítio do Zé Pezão.
–– E quem diabo é Zé Pezão? Moro aqui há vinte anos e não conheço esse nome – Indaga Arilson.
–– Rapaz, esse angu tem caroço – diz outro homem com um facão enorme na cintura.

Nesse momento Benedito chega ao local montado no burro preto - voltou mais cedo da labuta na roça.

–– O que tá acontecendo aqui meu povo? Que confusão é essa?
–– Benedito esses homens conduziam o carro de bois, carregados de cana, a roda quebrou e apareceram dois defuntos enrolados em panos.
–– Que conversa é essa, siô? Vamos olhar os rostos para ver se a gente conhece. E é o que faz Benedito, empunhando a faca para cortar as cordas, enquanto é acompanhado por dezenas de curiosos.
–– Meu Deus do céu! É uma mulher!
–– Parece que é a filha da comadre Maroca, a parteira. Essa moça já está desaparecida faz um mês.
–– Porra! Ninguém foi chamar a polícia? - Indaga Arilson.
–– Foi. O gaguinho saiu voado num cavalo para a cidade.
–– Chico Preto, pega minha moto e vai lá avexado. O Gaguinho vai demorar um século para explicar.
–– Ói, Arilson, me respeite. Não gosto desse apelido, não.
–– Rapaz, não fui eu que botei o apelido, não. Foi teu pai. E tu é branco, é?
–– Não. Não sou, Mas meu nome é Francisco. E tu? Tu é branco?
–– Pois vai logo Chiquinho pretinho, vai. Deixa de frescura que o caso é sério. Parece que é abestado!
–– Tá bom. Mas isso é racismo, viu? Oramarrapá! Cadê a chave da moto?
–– Racismo é? Onde aprendeu isso? Tá aqui a chave. E vê se não arranha. Confio em ti abirobado.
–– Eu sei das coisas, véi. Deixe comigo.
–– Vai logo, abilolado! – Chico Preto sai resmungando com a cara fechada e em alta velocidade. Quanto mais ele acelera a moto mais a poeira cobre.

A porca ruiva atravessa o areal com a reca de bacorinhos correndo atrás, assustados com tanta confusão e os latidos dos cachorros. O gato preto parecendo uma pantera que estava em cima do peitoril, viu todo o reboliço e pulou rapidamente para dentro da bodega, e mesmo assim, apoiou-se nas patas traseiras, lá no canto e ficou observando, como se entendesse alguma coisa do que se passava – Sai para lá, praga! – de vez em quando gritava um, tangendo a cachorrada com um pedaço de pau na mão, mas eram muitos os cães, e eles estavam estranhando os defuntos e não os bois ou a carroça. O certo é que estava instalado o caos no local.

–– Virgem Nossa Senhora! Esse rapaz que o Benedito descobriu agora é do Edvaldo, filho do “Manoel Espicha Couro”. Ele mora perto do rio – diz um dos homens mais velho no recinto, do lado de fora e bem próximo da carroça.
–– Pois então, você que conhece esse “Manoel”, vá lá avisar hóme de Deus – ordena Benedito apoiado na lateral da carroça.
–– E eu vou mesmo. Tá com bem três meses que o rapaz saiu de casa para a cidade procurando emprego. Era uma pessoa de bem.
–– Pois vai logo – fala outro apreensivo.
–– Eu desconjuro, diabo! Isso é pavoroso! Quem poderia fazer uma desgraça dessas? – reage um caboclo com a faca na mão – eu vou é sangrar esses infelizes aqui – e se dirige aos homens amarrados na coluna do bar.
–– Não, não. Pelo amor de Deus, não deixem que ele faça isso. A gente não sabe como eles vieram parar aí na carroça.
–– Para com isso. Deixem a polícia chegar – ordena Benedito.
–– Polícia e bosta aqui é a mesma coisa. Vamos matar essas desgraças! – afirma outro caboclo que arrasta um facão da cintura, e nesse momento, Arilson engatilha a espingarda e atira para cima. O estampido do tiro faz recuar os mais afoitos.
–– Ninguém vai matar ninguém aqui hoje. Vamos deixar as autoridades tomarem de conta disso. Entenderam? O primeiro que tocar nesses homens, vai se ver comigo, ora porra! – fala grosso o dono da bodega.
(...)

CANGACEIROS 4




–– Arilson, rapaz, tu tá querendo é se promover. Se amostrar. Tu não és candidato a vereador não, é? – pergunta um velho lá no canto.
–– Sou nada. Quero promover é a comunidade. Assunta bem! Com a realização desse arrasta pé, com as lutas e as parcerias, vai dar um bom movimento.
–– Tu sabes que esse teu plano pode gerar conflitos mais tarde. Avalie. Esses homens não gostam de humilhação e não sabem perder. Vão tudo ficar virado a peste – insiste o velho.
–– Macho véi, quem tem medo de cagar não come. É só espalhar a notícia como eu expliquei. Sem armas e sem rancor. É só um campeonato arretado.
–– Sei não, viu? Mas arrocha aí – finaliza o velho.
–– Pois libera a cachaça aí, Arilson, bicho parece que é alesado  – diz um dos cachaceiros que está com a goela seca.
–– Vou liberar e já vou avisando, amanhã não abrirei a bodega, para que vocês comecem a divulgar o negócio. Ah, outra coisa, quem quiser botar as banquinhas de café com bolo, de tapioca, milho verde, garapa, pirão, caldo de peixe e o escambau, pode, viu?
–– E de comida? – indaga uma velhinha que também gasta parte do dinheiro da aposentadoria no jogo e vive aboletada ali.
–– Pode também. Espetinhos, buchada, panelada, sarapatel, galinhada e mão de vaca são muito bons. Só não pode bebida. Aí é comigo.
––  Arilson, tem que ter uns foguetes para animar o negócio – sugere um mais moço.
–– Aí não. Meus cachorros ficam doidinhos com o barulho – afirma um dos homens no recinto.
–– Pois nos dias tu leva eles para longe.
–– Levar para onde filho duma ronca e fuça? Só se for para tua casa. Ora mais.
–– Tu me respeita, seu merda. Vai dar esse teu anel de couro. Minha peixeira faz tempo que não vê sangue. Fresque,  viu?
–– Ei vamos parar com isso no meu recinto, senão nenhum dos dois fica mais aqui. Se for para brigar e bater boca, vão lá para fora. Vamos focar na coisa, que todo mundo ganha.
–– Aí dento! Foi ele quem começou.
–– Tá bom, tá bom! Ôxe! Vão atentar o cão com reza noutro lugar! – finaliza Arilson.
–– Não me apoquente não, visse?
–– Já disse para parar. Ora porra!

Bodega do Arilson, Sexta-feira, sol a pino, pingo do meio dia. Dois homens conduzem o carro de bois carregados com cana-de-açúcar. Bem em frente ao estabelecimento comercial, os cachorros acuam os bois que, assustados, fazem movimentos bruscos e uma das rodas de madeira estala, quebra os pinos e cai. Os fechos de cana deslizam da carroceria e vira uma celeuma.

–– Menino tange esses vira-latas daí – grita Arilson – e ajudem os homens com a carroça.
Um dos jogadores de sinuca solta o taco e corre para dar auxílio. Os outros juntam dominós e cartas, põem no balcão e saem para acompanhar o ocorrido de perto. 
–– Espera, deixa-me te ajudar – e logo segura na roda.
–– Carece de ajuda não, moço. A gente se vira aqui.
Os cachorros continuam latindo e no aperreio, a carga de cana desce de uma vez, deixando ver o que parece ser um corpo embrulhado num lençol branco amarrado com cordas, que estava por debaixo canas.
–– Diabéisso? Parece um defunto! – indaga um caboclo com os olhos arregalados e as mãos na cintura, bem próximo dos “mói” de cana.
–– Vixe Maria! É um defunto mesmo! – fala outro curioso que se aproximou admirado.
Arilson deixa os afazeres e vai olhar também; os jogadores de baralho chegam mais perto e se forma o tumulto ao redor dos homens desconfiados sem bem saber o que fazer.
–– Que marmota é essa? – indaga outro que agora quer porque quer saber de quem é o corpo, mas ao puxar as canas de cima, percebe que existe outro corpo também embrulhado em “panos de estopa”.
–– Foi por isso que esse abestado não quis a minha ajuda – diz o primeiro homem que se prontificou a ajudar. 
–– Chamem a polícia! Isso é caso de polícia! Oramarrapá! – diz um dos parceiros do bar.
(...)

CANGACEIROS 3




–– Você sabe que é meu xodó. Vem cá, vem, deixa eu dar um xeiro no teu cangote, te fazer um cafuné.
–– Eita! Quando você fala assim, fico toda derretida que nem manteiga no cuscuz quente.
–– Pois vem meu cuscuz que quero te comer!
–– Essa é a melhor caridade que um homem faz a uma mulher. Ô bicho bom é amor.
–– Pois vou fazer bem devagarinho para o nosso filho nascer com paciência, compreensão e coragem para enfrentar esse mundão de meu Deus.
–– Deixa de falar! Só faz...
O amor é uma coisa assim inexplicável, acontece em qualquer lugar, quando menos se espera e não é por impulso.

Depois da boa noite de sono, no dia seguinte muito cedo, Benedito acorda primeiro, e como marido exemplar, põe a chaleira no fogão a lenha para passar o café e vai tirar o leite mugido da vaquinha leiteira que ele mantém no quintal, faz duas tapiocas, uma para ele e outra para a mulher e leva no quarto. Acorda a esposa carinhosamente, beija-a nas faces e sai para a roça montado em seu burro preto. Benedito não é lá esse homem de grandes posses, mas tem o cavalo que só é arreado para ocasiões especiais. Uma vez ou outra ele bota o animal para correr no prado, com apostas em dinheiro. O animal bem tratado nunca perdeu uma corrida.

Nessa manhã ensolarada, Arilson, o dono da bodega, começa a divulgar um plano para ele ganhar dinheiro fácil e promete um prêmio ao vencedor. Como ele é cabo eleitoral do atual prefeito, tem a promessa de um bom prêmio em dinheiro para o campeão nesse evento, desde que seja realizado dentro de um mês. O plano consiste em realizar luta livre sem armas e por eliminação àquele que primeiro fizer sangue no adversário ou nocautear. Há também o torneio da queda de braços com prêmios menores. Arilson já até articulou a vinda de autoridades na grande final.

–– Quero pedir a atenção de vocês por um instante – os jogadores de baralho, de sinuca e dama fazem ouvido de mercador – Vocês não me ouviram? Seus filhos da puta! – Arilson tira um litro vazio debaixo do balcão e pipoca na parede, estilhaçando cacos para todos os lados – agora tenho a atenção de vocês? Que maravilha! É o seguinte: Vou realizar um evento diferente de tudo que já viram por essas bandas. Vamos fazer um torneio de lutas e queda de braços daqui a um mês. E para fechar a noite do última dia do evento, teremos um forró pé de serra. Então, quem quiser participar tem que fazer a inscrição aqui, comigo, na minha caderneta.
–– E como funciona isso? – pergunta um.
–– É. E qual o valor do prêmio para o vencedor? – indaga outro.
–– Bem, teremos três lutas! E cada luta, um vencedor para o segundo dia, então, no terceiro dia os três vencedores lutarão e irão lutar entre si até sobrar um campeão. Isso valerá para as regras da queda de braços.
–– E o prêmio, quanto vai ser?
–– O prefeito já garantiu que virá com sua comitiva na final e dará o prêmio de R$ 1.000,00 ao lutador e R$ 500,00 para o da queda de braços.
–– E quem garante isso? Tu sabes que político não honra a palavra, só promete! – pergunta um dos homens mais afoito.
–– Eu garanto! – diz Arilson.
–– E quais as armas que vamos lutar? – pergunta um grandalhão.
–– Sem armas. A luta será dentro de um espaço limitado com cordas onde os lutadores usarão só as mãos e os pés. Aquele que fizer sangue primeiro no adversário, ou derruba-lo e deixa-lo fora dos sentidos, já será considerado vencedor.
–– E quem vai julgar esse negócio? – pergunta outro homem.
–– Não se preocupem com isso. Quero que espalhem a notícia nas redondezas e na feira da cidade. Quanto mais gente vier, melhor.
–– E o que vamos ganhar com isso?
–– A bebida e a comida para o dia do evento será por minha conta. Vou mandar matar um boi e uns bodes. Agora preciso que me ajudem a divulgar isso, afinal, essa é uma forma de termos as autoridades aqui. Como sou generoso, a cachaça de hoje é por minha conta também.

Em todo lugar sempre tem os do contra, os negativos e os reclamões, que acham que tudo é difícil ou impossível. Não fazem nada e nem querem deixar que os outros façam.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Cangaceiros 2




Benedito, o filho mais velho de Joaquim da Silva é o que mora mais distante da família. Tem uma casa de taipa bem feita, coberta de telhas, com portas e janelas de madeira onde vive com a mulher que está grávida com o bucho por acolá. Todo dia vai para a roça logo de manhã cedo no lombo do burro de cargas e na volta, no final do dia, sempre passa na venda do Arilson, uma espécie de bodega e bar que tem de um tudo, até chocalho para corno. Lá tem sinuca, dama e jogos de baralho, por outro lado, alguns chamam o local de um antro de perdição. Os visitantes ou os homens que não tem o que fazer quando não apostam ficam peruando e dando pitaco no jogo dos outros, entre um gole e outro de cachaça serrana. Os caboclos estão sempre armados de faca ou facões, bebendo pinga e contando anedotas depois do trabalho.

O bar da beira do caminho, coberto de telha, com um grande alpendre e peitoril fica situado num entroncamento de estradas de chão onde mais passam carroças, cavalos e jumentos do que automóveis. Quando há moagem nas redondezas, passam os carros de bois carregados com cana de açúcar tangidos por homens com chiqueiradores de couro tirados do gado. Uma vez ou outra, a rural aparece por ali, carro de fazendeiro. Mas isso é uma raridade. Só vai por aquelas bandas quem tem negócios, principalmente em período de campanha eleitoral. Esse início de ano promete na política, daqui a pouco começam a aparecer os cabos eleitorais de meia tigela pedindo votos para prefeito, vereadores e os candidatos a deputados da capital.

Já à boquinha da noite, Benedito chega, desce do burro preto, tira a sela, a esteira, os arreios e bota-os dentro de casa. Depois solta o animal no pequeno curral que fica atrás da residência. Pendura o chapéu de couro num prego da parede com a mão esquerda e exibe um cambo de peixes com a mão direita.

–– Espia mulher, comprei esses peixes na quitanda do Arilson. Ainda estão fresquinhos! – diz Benedito com os peixes na mão.
–– Isso é o que, Benedito? É traíra?
–– Não, Maria da Penha! É Piau! Pescado no Rio Parnaíba. Ôxe!
–– Tem muito espinho! Quero não, visse?
–– Bem, se você não quiser eu como. É bom danado com farinha, feijão, pimenta e sal.
         –– Você acha mesmo, que eu vou perder meu tempo catando espinho para comer uma nesguinha de nada desses piaus? Eu mesmo não.
–– Tá bom! Tá bom! Vixe! Tá mais nem aqui quem falou. Vou pendurar aqui e amanhã a gente vê isso. Vou me lavar ali e volto já.
–– Ei Benedito, leva a cuia. Tá bem aí perto das panelas no fogareiro.
–– Ah, achei. Cadê o sabão de coco?
–– Lá fora, em riba do giral tem um pedaço.
–– Ói Benedito, amanhã tem que comprar um “mercado” de querosene, para as lamparinas e para o lampião. Aqui tá bem pouquinho, visse?

A casa é como obra de conjunto do governo, não tem lá dentro nem lá fora, dá para ouvir tudo de qualquer cômodo.

–– Ôxe! Pensei que dava para semana inteira! Espera aí, deixa eu terminar que a gente tem um dedinho de prosa.
O homem se esfrega com o sabão, economizando água, termina o banho e entra ainda molhado só com uma ceroula meio encardida.
–– Meu véi, hoje você vai dormir na rede. A outra não enxugou direito. Está molhadinha da Silva. Eu durmo nessa cama pequena da peste.
–– Tudo bem. Um dia compro uma cama de casal para nós. Quero lhe mostrar um par de botas que comprei. Tá no meu alforje. Veja!
–– Ah, mas nem é nova! Você devia de ter comprado era um par de alpercatas pra mim. Essas devem ter sido de algum defunto.
–– Não, não é nova, mas é de couro legítimo e dá para o gasto. Dá pra usar direitinho. Lá na bodega tem um menino engraxate que pode deixar elas novinhas. Tem uma graxa que ele compra na cidade e passa nos calçados, fica brilhando e aí eu posso até ir para a missa de domingo. Depois compro umas alpercatas bem bonitas para você. Sim, o que vamos comer no jantar?
–– Fiz umas tapiocas. Tem farofa com carne seca desfiada, café e leite. Agora, se você quiser acender o fogareiro para esquentar, tem que pegar os paus de lenha lá fora.
–– É. Vou pegar. Café e mulher, só prestam quentes.
–– Ôxe! Mas você é enxerido! Vai pegar a lenha. Eu vou me aquietar um pouco. Já esqueceu que estou grávida?
–– Fique quietinha aí que faço o resto e ainda lavo os trens.
–– Muito bem. Eu e o bebê agradecemos.
(...)

CANGACEIROS - 1


         Por Carlos Holanda


        Joaquim da Silva, nordestino das brenhas do Piauí, é um homem forte, alto, de pele queimada pelo sol e mãos calejadas da labuta no cabo da enxada; caboclo de palavra, trabalhador, de personalidade forte, desses que só anda com a peixeira na cintura e é capaz de lavar a alma com sangue caso seja ofendido, pois não leva desaforo para casa. Mesmo que não esteja aboiando, carrega sempre o chapéu de couro no quengo, mas quando vai campear o gado usa o gibão e as calças de couro como se fosse uma farda para proteção contra espinhos e galhos.

         Joaquim da Silva casou-se muito cedo de papel passado no cartório e na igreja com Maria dos Anjos, e desse matrimônio nasceram sete filhos, seis homens e a penúltima é uma menina. Os dois filhos homens, os mais velhos, também se casaram com mulheres das redondezas e um amancebou-se com uma moça de vida livre; os três casais moram mais distantes. Os outros quatro, mais moços, residem sob o mesmo teto dos pais.

A família não pode dizer que tem uma fazenda, mas a propriedade é um sítio bem cuidado, com muitos hectares de terras, onde cultivam o plantio de milho, feijão, mandioca e árvores frutíferas. Um poço cavado há muitos anos abastece o lugar e até dá para compartilhar com vizinhos que trazem jumentos com ancoretas para abastecer; duas cisternas foram construídas com sacrifício e algumas economias para prevenir o período de seca.

No interior, cada um cuida da sua vida na labuta diária, seja alimentando os porcos, as galinhas ou cuidando dos apriscos e do gado; capinando mato, colhendo os grãos de época ou simplesmente debulhando feijão e milho à noite, no claro de lamparinas e lampiões de querosene. E claro, no intervalo, saboreiam o cuscuz de milho ralado com manteiga da terra e café torrado e moído na hora; quando não é assim, é carne assada e desfiada, feita uma paçoca com farinha branca temperada com sal, cheiro verde, cebolinha verde, coentro e pimenta de cheiro. A rapadura cortada miúda nunca falta. Faz parte da mesa nordestina. Isso não implica dizer que todas as famílias vivam bem, outras, sem recursos, passam fome.

O respeito e a moral são praticados diuturnamente até quando os filhos vão dormir e tomam a bênção ao pai e a mãe.

Distante de tudo e de todos, sem sinal de internet não há conexão com o mundo exterior. Assim é o sertão das capembas rachadas. Livra-se aqui e ali a casa que tem o rádio a pilha ou onde mais próximo da cidade tem energia elétrica e dá para ver a televisão em poucas casas, comprada nas lojas em até doze parcelas pagas no carnê, isso quando alguns, bem poucos, sacrificam-se para adquirir o bem.
(...)