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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Cangaceiros 24


–– Continue vereador - diz a mulher.
–– Bem, a palavra "Cangaceiro" era uma expressão pejorativa, ou seja, uma pessoa que não podia adaptar-se ao estilo de vida costeira. A essa altura naquela região, havia dois principais grupos de bandidos armados e organizados: os jagunços , mercenários que trabalhavam para quem pagasse o seu preço, geralmente proprietários de terras que queriam proteger ou expandir seus limites territoriais e também lidar com os trabalhadores rurais.
–– Pois taí, esses são enquadrados no bando do Coronel Messias que querem o poder na marra.
–– É por aí, mas tinha os cangaceiros, "bandidos sociais", que tinham algum nível de apoio da população mais pobre: os bandidos sustentando alguns comportamentos benéficos, como atos de caridade, a compra de bens por preços mais altos e dando às partes livres "Bailes", e a população fornecia abrigo e as informações que os ajudava a escapar das forças policiais, conhecidos como volantes , enviados pelo governo para detê-los.
–– Estou achando que essa história se repete atualmente. Somos conhecidos por muitos como cangaceiros, mesmo que estejamos distantes dessa realidade.
–– É. Mas pelo visto, pelo que entendo, travaremos uma batalha. Só não sei é quando. Esse Coronel não irá deixar barato não.
–– Vereador, se tivermos armas boas. Nós os enfrentaremos em campo.
–– Acredito que não iremos ter como evitar isso. O Cangaço pode ser dividido em três subgrupos: os que prestavam serviços caracterizados para os latifundiários; os "satisfatórios", expressão de poder dos grandes fazendeiros; e os cangaceiros independentes, com características de banditismo. Os cangaceiros conheciam bem a Caatinga, e por isso, era tão fácil fugir das autoridades. Estavam sempre preparados para enfrentar todo o tipo de situação. Conheciam as plantas medicinais, as fontes de água, locais com alimento, rotas de fuga e lugares de difícil acesso.
–– Tudo isso aí que tu disseste a gente sabe – concorda Gerônimo. E tu sabes essas datas tudo de cabeça. Não é fácil não, viu?
–– Eu já contei essa história em várias escolas e até na câmara. Pois bem, o primeiro bando de cangaceiros que se tem conhecimento foi o de Jesuíno Alves de Melo Calado, "Jesuíno Brilhante", que agiu por volta de 1870 nas proximidades da cidade de Patu e entre a divisa dos estados do Rio Grande do Norte e a Paraíba, embora alguns historiadores atribuam a Lucas Evangelista o feito de ser o primeiro a agregar um grupo característico de cangaço, nos arredores de Feira de Santana em 1828, sendo ele preso junto com a sua quadrilha em Janeiro de 1848 por provocar durante vinte anos assaltos contra a população de Feira. O último grupo cangaceiro famoso, porém, foi o de "Corisco" (Cristino Gomes da Silva Cleto), que foi assassinado em 25 de maio de 1940.

A essa altura já estava formado um círculo de homens e mulheres para ouvir a história do presidente da Câmara de Olho D’Água, alguns sentados em banquetes, outros de cócoras e a grande maioria em pé, porém atentos às palavras do homem que mais parecia um sacerdote e com isso ganhava a confiança de cada um pela simpatia.
A palavra, o conhecimento e a arte da retórica são as armas mais eficientes que a humanidade pode ter.

–– Só uma pergunta: Posso continuar? Se vocês não estiverem gostando dessa conversa eu paro.
–– Eu tô achando é bom por demais da conta. Ah, tome uma caneca de vinho para molhar a garganta, presidente – atiça Gerônimo.
–– Não gosto de misturar não. Mas me dê.
–– Tome – Calango que se faz de garçom entrega a caneca com o vinho.
–– Continuando. O cangaceiro mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, que também era denominado o "Senhor do Sertão" e "O Rei do Cangaço". Atuou durante as décadas de 20 e 30 em praticamente todos os estados do nordeste. Por parte das autoridades, Lampião simbolizava a brutalidade, o mal, uma doença que precisava ser cortada. Para uma parte da população do sertão, ele encarnou valores como a bravura, o heroísmo e o senso da honra. O cangaço teve seu fim a partir da decisão do então Presidente da República, Getúlio Vargas, de eliminar todo e qualquer foco de desordem sobre o território nacional. O regime denominado Estado Novo incluiu Lampião e seus cangaceiros na categoria de extremistas. A sentença passou a ser matar todos os cangaceiros que não se rendessem. No dia 28 de julho de 1938, na localidade de Angico, no estado de Sergipe, Lampião finalmente foi apanhado em uma emboscada das autoridades, onde foi morto junto com sua companheira, Maria Bonita, e mais nove cangaceiros.
Os cangaceiros foram degolados e suas cabeças colocadas em aguardente e cal, para conservá-las. Foram expostas por todo o Nordeste e por onde eram levadas atraiam multidões.
Este acontecimento veio marcar o final do cangaço, pois, a partir da repercussão da morte de Virgulino, os chefes dos outros bandos existentes no Nordeste vieram a se entregar às autoridades policiais para não serem mortos.
Lampião, o único que é frequentemente associado com toda a história do cangaço, ele podia disparar tão rapidamente que era possível iluminar o lugar. Ele começou sua vida criminosa ainda jovem, alegando uma vingança que nunca aconteceu.
Vagando Santa Brígida, no estado da Bahia , ele conheceu Maria Alia da Silva, também conhecida como Maria de Déia, esposa do sapateiro Zé de Nenê. Mais tarde, ela seria mais conhecida como Maria Bonita.
Lampião foi morto pela polícia em 1938, em uma região entre os limites do estado de Sergipe e Alagoas, quando o informante, Pedro de Cândida, deu a sua localização à polícia. A ofensiva maciça levou ao derramamento de sangue no qual onze dos integrantes do bando foram mortos: Lampião, Maria Bonita, Luís Pedro, Mergulhão, Enedina, Elétrico, Quinta-Feira, Moeda, Alecrim, Colchete e Macela. Pronto vou finalizar por aqui e deixar vocês falarem alguma coisa. Já falei demais e o vinho misturado com as primeiras doses já estão me dando sono. Estou ficando zonzo.
–– Tudo bem! Foi uma baita duma história. Arme uma rede para o vereador na sala – Gerônimo fala para um de seus comandados.
–– Desculpem-me, é que não sou muito de beber.
–– Mas se tu comeres mais um pedaço de carne e beber água, mau não faz.
–– Não, obrigado. Só quero um caneco de água. Agora quero perguntar só uma coisa: vocês entenderam o que eu quis dizer depois dessa história e a proposta que fiz, de transformar todos em cidadãos perante a lei?
–– É deu para entender.
–– Quero mais uma vez agradecer por tudo e desejar uma boa noite a todos.
–– Boa noite vereador! – retribui Gerônimo.
(...)

domingo, 10 de maio de 2020

Cangaceiros 20


Os cangaceiros apontam as armas e levam o presidente da câmara até o acampamento.

Gerônimo encontra-se nesse momento sentado à sombra da casa de taipa, segurando seu filho ao lado da companheira, fazendo um dengo em momento raro. Os homens estão no topo da montanha mantendo vigilância enquanto outros se aproximam do chefe para avisá-lo de que a tropa está trazendo alguém.

–– Gerônimo, os homens estão chegando com um prisioneiro.
–– Hum! Deixa vir.

A mulher franzina de Cancão, um dos homens da maior confiança de Gerônimo, entrega-lhe uma cuia de farinha e por cima uns dez pequis cozidos. Com a outra mão entrega também um caneco com um punhado de sal.

–– Eita Cancão! Não tem coisa melhor do que roer uns caroços de pequi depois do almoço. Isso é que dá sustança a homem. E além do mais, serve pra curar muitos males do corpo. Obrigado, viu, Maria?
–– De nada chefe.
–– Maria, aproveita e traz uns pedaços de rapadura, pro Gerônimo tirar o gosto de sal da boca – ordena Cancão.
–– Ah, isso não. Deixe que eu mesma trago a rapadura e a cabaça de água – finaliza a companheira de Gerônimo.
O bebê começa a chorar e a mãe o pega nos braços, conforta-o e o leva para dentro de casa. Os homens já são avistados bem perto e Gerônimo levanta-se para recebê-los.
–– Olha aí chefe. Encontramos esse homem numa cabana, amarrado, com fome e sede.
–– Quem és tu, cabra? – indaga Gerônimo.
–– Eu sou o presidente da Câmara de Olho D’Água.
–– Sei. E como tu foste parar nessas brenhas?
–– Eu fui sequestrado pelos homens do Coronel Messias dos Reis.
–– Cancão vem cá. Esse tal de Coronel Messias não é o pai daquele infeliz que eu cortei a orelha dele?
–– Deve ser.
–– Então, porque tu foste levado para a cabana?
–– É o seguinte: eu acho que a princípio era para me matarem. Depois o sujeito chamado Lucas, o braço direito do Coronel revelou que era para atrapalhar a eleição, pelo fato de eu ser o mais votado depois do prefeito.
–– E porque ele não te matou?
–– Ele é o carrasco perverso do Coronel, mas também é ganancioso. Fez uma proposta para mim.
–– Que proposta?
–– O trato era um golpe que ele iria aplicar no Coronel.
–– Como é que é? Desembucha, vai.
–– Para me manter vivo, eu teria que dar a ele todos os meus bens de papel passado e tudo e ele iria trazer comida e água todos os dias, me manteria em cativeiro, depois da eleição eu teria que ir embora para sempre da cidade, mas o Coronel não poderia saber de nada, concordei e então, ele mandou os jagunços para esperar lá distante, no carro, deu dois tiros no chão para parecer que eu havia morrido e foi embora.
–– E quando ele voltará para te ver na cabana?
–– Amanhã de manhã, muito provavelmente.
–– Tem mais coisa. Foi ele quem matou a filha de Maroca e o filho de um tal de Manoel Espicha Couro. Ele é um assassino sanguinário. O Senhor soube dessa história?
–– Soube. Mas quero ter certeza de que tu estás falando a verdade, por que se for assim mesmo, do jeito que tu conta, agora essa briga é nossa.
–– Ele é quem elimina as pessoas a mando do Coronel. Quando o Senhor for à cidade faça uma visita ao Padre Lauro. Ele sabe mais das coisas do que eu.
–– Tu és amigo do Padre Lauro?
–– Claro! Ele é um dos nossos maiores aliados. Apoia e orienta o prefeito em tudo, além de ser o conselheiro dele. Se o Padre Lauro contar a metade do que ele sabe, o Senhor irá ficar abismado.
–– O Padre Lauro virá aqui em três dias para batizar meu filho. E aí tu confirmarás tudo que disseste.
–– Confirmo sim, Senhor.
–– Cancão, amanhã tu irás montar uma tocaia para trazer aqui esse vagabundo do Lucas. Quando ele chegar à cabana, pegue o homem e traga-o para mim.
–– Sim Senhor.
–– Calango!
–– Sim Capitão!
–– Chame dois homens e vão à casa do Manoel Espicha Couro agora. Diga-lhe para ele vir para cá urgente. Mas não diga do que se trata, apenas que é importante. Pegue os cavalos no curral e vá homem, avexado.
–– Sim Senhor.
–– Presidente tu já foi eleito quantas vezes?
–– Estou no terceiro mandato. E na próxima eleição serei candidato a prefeito.
–– É. Tu pareces que é benquisto pelo povo. O problema é que agora nosso acampamento está comprometido.
–– Por quê?
–– Porque antes ninguém ou quase ninguém sabia onde nos encontrar, a não ser o Padre Lauro.
–– Mas eu não tenho intenção de ti prejudicar.
–– Eu sei. Mas a gente fica sempre com a mosca atrás da orelha.
–– Posso te fazer uma proposta?
–– Sim. Pode.
–– Se tu quiseres me ajudar e ajudar teu povo, a gente pode somar forças.
–– Oxente! E como é isso, homem de Deus?
–– Na cidade tem escolas, hospital, água encanada, saneamento básico e...
–– Tem o que rapaz? Fale de modo que eu entenda. Sou um homem do mato. Não sou tão letrado assim.
–– Quero dizer que, eu na condição de homem público, e presidente da Câmara, posso garantir a sua cidadania, ou seja, tirar seus documentos, dar moradia digna e até emprego. Tenho até um terreno mais afastado com muitos hectares de terra onde vocês poderão plantar milho, feijão e mandioca. Mas só se vocês quiserem sair dessa caatinga.
–– Eu não tenho muita leitura não e nem meu povo. O pouco que aprendemos aqui foi com a ajuda do Padre Lauro, que é irmão da minha mulher e dispendeu um pouco de seu tempo e muitos livros.
–– Ah, então ele é seu cunhado.
–– Sim, sim. Mas presidente, em troca de que tu farias isso para nós?
–– Primeiro que já tenho uma dívida com vocês por terem salvo minha vida e eu estou muito agradecido. Segundo que, como político, preciso de votos de confiança.
–– Entendi. Presidente, meu povo não sabe votar. Não conhece essa política de vocês e não sabe receber ordens que não sejam as minhas.
–– Bem, tenho uma equipe que poderá alfabetizá-los, ensiná-los a ler e escrever e darei todo material necessário para isso.
–– Tô te lendo! Tu és esperto! E quanto vamos ficar devendo por essa bondade e favores?
–– Bondade sim, favor não. Todo cidadão tem direito à educação gratuita.
–– Mesmo assim ficaríamos em débito contigo.
–– Não, não, não. Eu sou quem estou em débito. Eu disponibilizo a equipe para ensiná-los a ler, escrever e votar e prometo que, dentro dos limites da cidade, construiremos uma vila só para vocês, além do mais, tu continuarás a tomares as decisões que quiseres.
–– Essa conversa tem rumo. Todo dia penso no futuro dessas crianças, mas, nem o Padre nunca propôs algo assim. É certo que ele ajuda com parte da comestiva e remédios.
–– Estamos no inicio do mês de junho e a eleição é em novembro. O que tu me diz? Ah, quero perguntar-te. São quantos homens e mulheres aqui?
–– Noventa homens e sessenta mulheres e mais as crianças.
–– Então o que teríamos aqui seriam cento e cinquenta eleitores, digo cento e cinquenta cidadãos de bem. O que acha da minha proposta? Se quiseres mando redigir um documento registrado em cartório com a minha e a sua assinatura. Um contrato de gaveta.
–– Homem não carece disso não. Minha palavra vale mais que papel de cartório. Além do mais, se eu aceitar tua proposta, e tu não a cumprir, tu não terá lugar onde se esconder. Vou te buscar debaixo da saia de tua mãe e mato tu e ela.
–– E depende de que então?
–– Tenho que reunir meu povo para saber. E outra, tenho que ouvir o Padre Lauro. Ele será o avalista caso todos estejam de acordo.
–– É bom tomarmos decisões rápidas, porque o tempo urge.
–– Não me aperreie não. Tudo tem o tempo certo. Quer ver uma coisa?
–– Sim.
–– Te botaram no meu caminho e agora estamos falando do futuro, de leitura, de aprendizagem, meio de vida e coisa e tal.
–– É verdade. Há males que vem para o bem. Se eu não tivesse sido sequestrado, não estaria aqui e não teria te conhecido.
(...)

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Vampiro 2 - Penanggalan - Malásia


     Penanggalan é uma vampira da cultura malaia. Segundo a lenda, durante o dia ela assume forme de uma mulher bonita e atraente, porém, quando a noite chega, ela se transforma em uma vampira. Do corpo da bela mulher surge um monstro. A cabeça da Penaggalan se separa do corpo e flutua pelas noites carregando o resto das entranhas de seu corpo.
    Há casos escritos em que a vampira manipula cada órgão seu como se fossem tentáculos, usando-os para atacar e matar suas vítimas. Quando ocorre a transformação o corpo da vampira começa a se decompor instantaneamente e para sobreviver ela precisa armazenar o corpo vazio em um pote com vinagre para ter sua aparência de mulher novamente pela manhã.
     Segundo a lenda, a criatura é criada através de mulheres que tentam adquirir beleza através de magia negra, pactos satânicos, rituais ou ações sobrenaturais e são amaldiçoadas. A Penanggalan se alimenta de sangue de recém nascidos e gestantes. Em casos mais extremos, após beber o sangue das vítimas ela também os devora.
    Para afastar a vampira os malaios amarravam cabeças de cebola e alho ao redor da casa. Mas isso servia apenas para afastá-la. A única forma de matá-la definitivamente é encontrando o pote com o corpo do monstro e derramar alho e cabeças de cebola lá dentro.
Fonte: fatosdesconhecidos.com.br

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

História de lobisomem 6 - A mulher lobo


                              Foto divulgação web

Se você achava que o terno "lobisomem" impossibilitava que alguma mulher viesse parar nessa lista está enganado. Claudia Gaillard foi torturada depois que uma testemunha afirmou ter visto ela assumir a forma de um lobo sem cauda em meio ao mato. Ela foi julgada por Henry Boguet e condenada por esse feito. Um registro feito sobre o caso afirma que ela não chegou a derramar uma única lágrima enquanto era torturada. Ela foi queimada na fogueira depois disso.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Cangaceiros 10

                                                      Foto ilustrativa da web


A criada avisa que a mesa está servida, que sua esposa o espera e ele responde que em instantes irá jantar. Depois que falar com o filho.

Nesta noite, o prefeito faz visita à Dona Maroca - que não tem dinheiro sequer para comprar as velas - mãe da moça encontrada morta e ao pai do rapaz também na mesma situação, Manoel Espicha Couro e promete uma pensão com fundo criado recentemente. Não é bem um salário, mas é um bom adjuntório e enquanto prefeito ele for e como bom político, aproveita e pede votos para a eleição que se aproxima. Também não esquece de dar uns trocados para as vela ao sair. Cumprimenta novamente os poucos que estão no velório aperta a mão de cada um, abraça, dá tapinhas nas costas, se despede e sai.

Do outro lado da montanha, bem distante da cidade, onde há geografia de caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, predominam cactos de várias espécies e diversificada biodiversidade. Dificilmente será encontrada em algum outro lugar do planeta. Território inóspito no meio do nada abriga um bando de cangaceiros que ao contrário de muitos não saqueiam as cidades e assim como índios da região, estão em paz, vivendo a duras penas da agricultura precária, da caça e da pesca mais distante ainda, principalmente quando São Pedro não abre as portas do céu para banhar a terra e encher os rios.

Gerônimo, homem alto, forte, de pele queimada pelo clima árido e muitas cicatrizes deixadas pelas lutas que já travou, pela hierarquia e a idade é o chefe do bando que tem entre homens e mulheres aproximadamente cento e cinquenta membros. Um cabra de palavra e sobretudo respeitado;  quando diz que pau é pedra nem que não seja, é bom concordar.

Hoje, mais do que nunca, Gerônimo está sorrindo, feliz da vida, o que é uma raridade, acabou de nascer seu filho. É um bebê robusto, apesar de tudo; a companheira do chefe e mãe da criança passa bem, graças aos serviços delicados da parteira que vive ali.

É uma noite de festa sem muitas pompas, fogueiras são acesas e as garrafas de cachaça serrana guardadas para esse dia foram liberadas. O resultado da caçada foi positivo e as carnes de veados, cutias, preás e capivaras chiam na brasa. A farinha branca de mandioca, queijo assado e pimenta também faz parte do cardápio.

Gerônimo tem no Pároco da cidade, o Padre Lauro, um forte aliado e esse de forma generosa ajuda com parte da verba que recebe mensal da prefeitura, além de ser irmão da mulher negra que vive com o cangaceiro. E por ter laços familiares, a amizade torna-se mais sólida a cada dia. O Padre uma vez por mês tem encontro em lugares diferentes com o chefe do bando, para entregar o dinheiro, fruto da doação. Em outra ocasião, no passado, o Padre Lauro passou algum tempo com o bando, pregando a palavra de Deus e ensinou Gerônimo no tempo livre, a ler e escrever;  deixou essa pequena herança de aprendizagem a cargo da irmã, para  alfabetizar o bando, dando inclusive alguns livros.

Arilson chegou cedo na bodega, abriu as portas, varreu tudo com uma vassoura de piaçava, ajeitou as mesas, passou espanador de penas na sinuca, ajeitou as garrafas de cachaça serrana na prateleira, acendeu um cigarro pau-ronca feito das cordas de fumo Arapiraca que ele vende no rolo ou cortado em retalhos, sentou-se num tamborete de couro de bode curtido e pôs os pés em cima do outro e ficou com as costas encostadas na parede.
–– Bom dia Arilson! – cumprimenta a mulher raquítica que o ajuda na bodega e faz a comida.
–– Bom dia Maricota! Acenda o fogareiro que o dia hoje promete.
–– Como é que o Senhor sabe disso?
–– Minha filha, depois daquele furdunço de ontem, aqui vai chover de gente para fofocar. Se prepare!
–– E o que boto no fogo para cozinhar?
–– Faz panelada, buchada, feijão tropeiro, arroz, macaxeira assada, jerimum e farofa.
–– O Senhor tá bem otimista!
–– Estou!
–– Bom dia! – cumprimenta um caboclo enquanto amarra o burro.
–– Bom dia!
Pouco tempo depois Benedito decide parar na bodega.
–– Bom dia!
–– Bom dia Benedito!
–– Hoje ficarei por aqui até mais tarde. Jogar umas partidas de sinuca.
–– Pois seja bem vindo, amigo!
E assim, em pouco mais de uma hora o local está apinhado de gente como previu Arilson.
(...)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Palavras e expressões nordestinas - S

Saco vazio não fica em pé.
Santo de casa não faz milagre.
Se a esmola é grande o santo desconfia
Se queres ser bom juiz, ouve o que cada um diz.
Sinal na perna mulher de taberna.
Sinal no braço mulher de desembaraço.
Sinal no peito mulher de respeito.
São mais as vozes que as nozes.
Só se lembram de St. Bárbara quando faz os trovões.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Provérbio - S

S
Saco vazio não fica em pé.
Santo de casa não faz milagre.
Se a esmola é grande o santo desconfia
Se queres ser bom juiz, ouve o que cada um diz.
Sinal na perna mulher de taberna.
Sinal no braço mulher de desembaraço.
Sinal no peito mulher de respeito.
São mais as vozes que as nozes.
Só se lembram de St. Bárbara quando faz os trovões.


Provérbios - N

N
Nada como um dia depois do outro.
Nem sempre galinha, nem sempre sardinha
Nem sempre o diabo é tão feio quanto o pintam.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
Nem todo dia se como pão quente.
Nem tudo o que balança cai.
Nem tudo o que luz é ouro
Nem tudo o que sobe cai
Nem tudo que reluz é ouro.
Ninguém diga: desta água não beberei
Ninguém fica para semente.
Ninguém se levanta sem primeiro cair
Ninguém toca flauta e chupa cana ao mesmo tempo.
No duro ninguém se atola, nem faz poeira no mole.
No fim é que se cantam as glórias.
No frigir dos ovos é que se vê a manteiga.


Nunca digas: desta água não beberei.
Não adianta gritar por São Bento, depois que a cobra mordeu.
Não censure dor alheia quem nunca dores sentiu.
Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
Não dá quem tem, dá quem quer bem
Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam.
Não há bem que sempre dure, nem mal que sempre se ature.
Não há domingo sem missa, nem segunda sem preguiça.
Não há duas sem três
Não há regra sem exceção, nem mulher sem senão.
Não há rosas sem espinhos.
Não se amarra cachorro com lingüiça.
Não te metas a comprar o que não podes pagar
Não é com palha que se apaga o fogo.
Não é o mel para a boca do asno.
Não é o sol que faz a sombra.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Provérbio - E

E
Em boca fechada não entra mosca.
Em briga de marido e mulher, não metas a colher.
Em casa de enforcado, não fales em corda.
Em casa de ferreiro, espeto de pau.
Em pé de pobre é que o sapato aperta.
Em tempo de guerra, mentira é como terra.
Em terra de cego, quem tem um olho é rei.
Em terra de cegos quem tem um olho é Rei
Enquanto há vento, molha-se a vela.
Enquanto o pau vai e vem folgam as costas.
Entrada de leão, saída de cão.


Entre marido e mulher não se mete a colher.
Errando é que se aprende.
Errar é humano.
Erudito sem obra é nuvem sem chuva.
Erva má, depressa cresce.
Escreveu não leu, o pau comeu.
É leve o fardo no ombro alheio.
É mais fácil prometer do que dar.
É melhor andar a pé do que montar em burro magro.
É melhor não soltar rojão antes do tempo.
É melhor prevenir do que remediar.
É na sela que o burro conhece o cavaleiro.
É nos tempos maus que se conhecem os bons amigos.
É preciso ver para crer.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Cotidiano: Briga de bar

Em briga de bar de marido e mulher não se mete a colher, porém, há aqueles com senso de justiça, que não aceitam e resolvem tomar uma atitude.


Um casal começa uma discussão, desentendimento causado por ciúmes e vão às vias de fato. É então que chega o irmão da mulher, que já está “apanhada”, e se atraca com o cunhado alcoolizado.

                                                                 Foto divulgação

A confusão é generalizada. A irmã avisa que seu marido está armado de faca.

Um homem não se contenta, e tenta apartar a briga, mesmo sabendo dos riscos.

O destino, às vezes é cruel. Numa investida rápida, o marido solta-se e desfecha um golpe fatal, no peito esquerdo do seu oponente que cai desfalecido. Pegou bem na artéria coronária. Uma única facada lhe ceifa a vida.

Ele não tinha nada a ver com essa confusão.

Normalmente, as coisas não acontecem como nos filmes, que tem final feliz.


Isso é ficção, mas, poderia ser real.

Carlos Holanda