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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Miopia

 


Governo federal zera tarifas de revólveres e pistolas - para importação - em meio a uma pandemia. Isso por si só já constitui um crime, quando a preocupação maior seria o plano de aprovação e distribuição da vacina para que o comércio volte a funcionar normalmente e para dar estabilidade à economia. Essa é mais uma cortina de fumaça que 'ele' coloca em discussão pedindo também a deliberação de publicidade de armas em TV's e na Internet.
É uma medida que, de forma alguma beneficia o povo. Os pobres em sua grande maioria não tem dinheiro sequer para comer. É a inflação que dita as regras nesse momento. As pessoas de baixa renda estão lutando a qualquer custo para alimentar suas famílias. Não estão preocupadas com armas.
Quais são as classes beneficiadas? Os ricos, facções criminosas e milicianos. Porquê? Por que tem dinheiro em espécie para comprar. Os milhões de brasileiros que recebem bolsa família, ou, receberam auxílio emergencial não tem condições de aprovar um cadastro para comprar armas parceladas em uma loja especializada.
O Brasil tem outras prioridades urgentes que a miopia do governo não consegue enxergar, ou finge não ver.
Carlos Holanda

domingo, 31 de maio de 2020

Cangaceiros 50


–– Tenho uma casa ao lado da minha que está desocupada. Eles poderão ficar lá por uns tempos ou enquanto tu quiseres.
–– Calango! Orienta aí quem vai com meu compadre e diz para ficarem atentos e sem bebedeira ou arruaça.
–– Sim! Capitão! É para já!

Gerônimo cumprimenta o vereador com um aperto de mão, despede-se e entra na Igreja com o Padre, que agradece a carona e acena com a mão direita na despedida.

–– Padre é o seguinte: de lá para cá estive pensando e decidi que irei contigo para a capital comprar essas armas e trocar o ouro por dinheiro.
–– Sábia decisão, porém, terás que te aperfilar como homem da cidade. Vestir outras roupas, aparar a barba e usar uma loção. Como somos quase da mesma altura, tenho roupas que te servem.
–– Só não deixo o revólver e a faca.
–– Poderás levar, mas tens que ser discreto. Deixar escondido para não chamar a atenção do povo.
–– Certo! Então quero dizer mais, que Lúcia não pode ir porque ainda está de resguardo e amamentando e não posso deixar que ela se arrisque tanto numa tarefa tão perigosa.
–– Tens razão! É melhor que ela fique com a criança. Ah, vamos tomar a água e um café.
–– Vamos!
–– Quando a Júlia passou por aqui, antes de viajar, ela deixou uma carta. Está lembrado que falamos sobre isso?
–– Sim! Não é aquela que quase peita em mim no corredor dessa Igreja?
–– Sim! Sim! A filha do Coronel.
–– O que tem ela?
–– Ela me disse que o pai tem uma propriedade há poucos quilômetros daqui e lá estão uns quarenta cavalos.
–– E daí?
–– Daí que tem também cinco homens que os tratam e vigiam. Eles cuidam dos animais para mais tarde, na eleição, o Coronel ameaçar o povo com os jagunços armados forçando-os a votar no candidato dele.
–– Padre, o que tu queres dizer com isso?
–– Que tu fez um pacto com os índios e se tu levar esses animais para o acampamento e der a metade para o grande chefe ele ficará muito agradecido. Além do mais, já tiraste uma parte de suprimento quando confiscou o gado, por assim dizer. Agora é hora de tirar uma parte das montarias.
–– Isso é roubo Padre, mas, o deixaria mais pensativo, além da recompensa.
–– Sim! É claro! Outra coisa! Vais tu mesmo lá na bodega do Arilson e oferece essa recompensa pessoalmente! Tem coragem para isso?
–– Padre eu só tenho medo dos castigos de Deus. Por outro lado confio em mim e em duas coisas que carrego comigo até dormindo – com essa frase Gerônimo saca o revólver com uma mão e acaricia a peixeira com a outra.
–– Pois a decisão é tua!
–– Tem onde a gente pernoitar por aqui hoje?
–– Quartos para onze homens não tem. Nem lugar para os cavalos. Mas cabem todos na Igreja.
–– A gente nem precisa dormir direito, se ajeita no pé da parede. Hoje tu ficarás bem vigiado. Ficaremos revezando.
–– Então fiquem à vontade! Vou mandar preparar a comida e reservar um pouco de vinho de caju. Se quiseres fazer uma oração, estás no lugar certo.
–– Obrigado Padre! Reze por mim! Só falo com Deus em pensamentos. Ah, podemos pegar água para os cavalos?
–– Muitas vezes precisamos dobrar os joelhos e orar. Faz bem ao coração. A leveza da alma e do espirito está na fé de cada um. E sim, é claro! O poço é lá no final da casa Paroquial. O Sacristão te ajudará com isso.
–– Padre! Quer saber? Mudei de ideia! Só ficaremos aqui se realmente tu quiseres. Ainda não é nem meio dia, então o que tu achas de pegarmos esses cavalos para adiantar as coisas?
–– Eu acho ótimo! Não precisas te preocupar comigo. Deus me enviará seus anjos com um manto de proteção.

Assim que os animais terminam de beber Gerônimo e o pequeno bando atiçam as esporas nos vazios dos cavalos e partem rumo a propriedade de Messias.

–– Então t
enha um bom dia Padre! Homens! Vamos embora!
(...)

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Cangaceiros 43


–– Sim meu Capitão! Venha Grande Chefe! Vamos separar o que ele prometeu!
–– Estamos indo! Vamos embora homens!

O vereador sai dali fortalecido politicamente desse impasse e promete legalizar todos se eles votarem nele. Prometeu moradia em terras do município com vida digna, doando os títulos de terras com o aval do prefeito.

O bando de Gerônimo chega à cabana onde está a rural, ponto de encontro combinado.

–– Gerônimo eu estava pensando e conclui que é melhor a Lúcia não ir à capital conosco – diz o Padre.
–– Por quê?
–– Ela está de resguardo. Precisa descansar e ainda está amamentando. É melhor ela ficar contigo no acampamento.
–– Vendo por esse lado, tu tens razão.
–– Eu tenho um amigo de longas datas que é conhecedor de armas, aliás, a família toda sabe atirar.
–– E quem é?
–– Joaquim da Silva. Vou convidá-lo para ir comigo.
–– O Joaquim não é aquele que tem sete filhos e mora lá perto de Jatobá? – indaga o vereador.
–– Sim. É claro!
–– Quero convidá-lo para trabalhar comigo! Diz para ele Padre! – diz o vereador.
–– Então aproveita e trás eles para nosso lado – afirma Gerônimo.
–– É o que irei tentar fazer. Mesmo sabendo que ele é um homem sério e honesto que não gosta de confusão.
–– Padre todos nós somos sérios e honestos. Faça como achar melhor desde que traga as armas, munição, pólvora e dinamite – diz Gerônimo.
–– Em cinco dias me organizo e partirei para a capital. Então? O que estamos esperando? Tenho uma Paróquia para cuidar.
–– E eu uma família desesperada para saber se ainda estou vivo. Vamos embora – afirma o vereador.
–– Em cinco dias estarei de volta à Igreja para te dar apoio até sair da cidade.
–– Está certo. Vamos?
–– Vamos!

Segundo dia do evento de comes e bebes e diversão na bodega do Arilson, no povoado Jatobá. Hoje é dia de brigas - Lutas físicas e sem armas, cordelista e cantadores com violas. Também tem a corrida do saco e o pau de sebo que ninguém conseguiu subir para retirar o prêmio no dia anterior.

O lavrador humilde passa de barraca em barraca oferecendo goma e beiju. A carga no lombo do jumento é produzida na farinhada distante dali. Nessa mesma ocasião outro homem amarra o burro na porta da bodega com uma carga de rapadura proveniente de moagem mais próxima e acredita que Arilson é o comprador e por isso, como de costume oferece.

Esse é o tipo de movimento que começa cedo no interior. Alguns caboclos ainda estão de ressaca. Viraram a noite no forró pé-de-serra e agora querem tomar caldo de carne apimentado, comer mão de vaca ou simplesmente tomar café com cuscuz lambuzado com manteiga da terra e ovos.

Arilson acabou de anunciar as atrações do dia e promete muita diversão aos presentes. Depois volta para detrás do balcão para atender seus clientes.

Manoel Espicha Couro é o homem designado por Gerônimo para dar a notícia do prêmio pela cabeça do coronel. Está definido dez mil contos e ele acaba de chegar, desapeia do cavalo, amarra-o na cerca ao lado da bodega, retira o rifle da sela, apoia no ombro direito e dirige-se à bodega. Carrega consigo na cintura um revólver cano longo, calibre 22 e uma peixeira fina bem amolada.

Do lado direito do peitoril estão Benedito Silva e o irmão Xavier, contratados por Arilson para fazer a segurança e nem precisa dizer que estão bem armados também. Do lado esquerdo, outros dois homens observam todo e qualquer movimento e também fazem parte da segurança. No meio da varanda, a sinuca, as mesas de baralho e dominó com jogadores assíduos. Entre uma conversa e outra, o vai e vem de clientes que bebem, comem e outros que compram secos e molhados.

Os fiéis escudeiros de Arilson, Chico Preto e Gaguinho também chegaram cedo para pegar no batente, enquanto Maria com um vestido de chita e um pano amarrado na cabeça, cuida da cozinha preparando as comidas, e uma vez ou outra, mete a colher na panela de panelada ou de caldo, põe um pouco na palma da mão e passa a língua para provar se está bom de sal ou se o tempero está a gosto. Arilson observa tudo. É um olho no peixe e outro no gato e, como um camaleão, olha com satisfação todos os pontos do evento, inclusive a gaveta que promete um bom apurado.
(...)

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Cangaceiros 25


De manhã cedo, Gerônimo já está de pé, juntos aos seus homens, conversando e dando instruções.

–– Estranho! O Manoel Espicha Couro ainda não ter aparecido – diz Gerônimo preocupado. 
–– Deve ter acontecido algum imprevisto – responde Calango.
–– Ah, espera aí, os homens estão chegando – observa Cancão.
–– O que aconteceu? Cadê o Manoel?
–– Capitão, ele foi entregar uns cavalos para uma corrida, deve vir para cá amanhã cedinho. A mulher dele foi avisada.
–– Ah, bom! Então vejam como está o nosso prisioneiro. Dá água e comida para ele. E mantenha-o bem para quando o Manoel chegar resolver essa pendenga. Quero ir à cidade mais tarde, trazer o Padre Lauro para o batismo de meu filho. Quatro de vocês irão comigo.
–– Certo Capitão!
–– E cuidem do vereador também. No bom sentido, no bom sentido visse?
–– Sim capitão.
–– Gerônimo mande os homens buscar o Padre. Fique mais um pouco com nosso filho – sugere a companheira. 
–– Eu preciso conversar com ele.
–– Converse aqui homem, quando ele vier.
–– Já decidi que vou. Depois iremos passar muito tempo com ele. Não se aperrei não viu?
–– Já que decidiu assim, vá.
–– Vou pernoitar por lá e amanhã estaremos de volta.
–– Tome cuidado visse? As armadilhas do destino são muitas!
–– Vixe! Nossa Senhora! Se apoquente não mulher. A gente escapando das cobras e de outros animais que rastejam, o resto a gente dá um jeito.
–– Vai com Deus!
–– Amém! Vamos embora!

Gerônimo e seus quatro homens com chapéus de couro típicos daquela época, armados com espingardas e facas partem a cavalo rumo à cidade. Cavalgam algumas léguas e param no meio do caminho.

–– O que foi Capitão? Porque paramos?
–– Acolá veem três cavaleiros. Não é comum por essas bandas, nesse caminho. Entrem dois no mato e fiquem de tocaia. Esperaremos eles passarem.
–– Certo Capitão.
––  Ôaaaa! Olá! – cumprimenta um dos homens freando o cavalo entre os três cangaceiros.
–– Olá! Para onde vão nessa pressa toda?
–– Não estamos com pressa. Quem caça não tem pressa, tem paciência.
–– Cancão, esse cabra é desaforado!
–– É sim Capitão.
–– E tu és capitão é?
–– O que vocês querem por essas bandas? Aqui não tem caça para vocês.
–– Ah, tem sim Senhor. Algum de vocês conhece um homem chamado Gerônimo?

Os dois cangaceiros e Gerônimo engatilham as espingardas e apontam para os homens. E Cancão responde:
–– Sou eu.

O outro cangaceiro também diz que é ele.

–– Na verdade Gerônimo sou eu. Por quê?
–– Afinal qual dos três é Gerônimo? Assim a gente poupa as outras vidas.
–– Sou eu e vou cortar tua orelha! – repete Gerônimo.
–– Tua cabeça vale 20 cabeças de gado, morto. E se te levarmos vivo, vale as vinte cabeças e uma boa quantia em dinheiro. Larguem as armas, só queremos aquele que tem o colar de orelhas no pescoço.
–– Vocês já olharam atrás de vocês? Tem carabinas apontadas para suas cabeças. Atirem! – ordena Gerônimo. 
(...)

domingo, 10 de maio de 2020

Cangaceiros 20


Os cangaceiros apontam as armas e levam o presidente da câmara até o acampamento.

Gerônimo encontra-se nesse momento sentado à sombra da casa de taipa, segurando seu filho ao lado da companheira, fazendo um dengo em momento raro. Os homens estão no topo da montanha mantendo vigilância enquanto outros se aproximam do chefe para avisá-lo de que a tropa está trazendo alguém.

–– Gerônimo, os homens estão chegando com um prisioneiro.
–– Hum! Deixa vir.

A mulher franzina de Cancão, um dos homens da maior confiança de Gerônimo, entrega-lhe uma cuia de farinha e por cima uns dez pequis cozidos. Com a outra mão entrega também um caneco com um punhado de sal.

–– Eita Cancão! Não tem coisa melhor do que roer uns caroços de pequi depois do almoço. Isso é que dá sustança a homem. E além do mais, serve pra curar muitos males do corpo. Obrigado, viu, Maria?
–– De nada chefe.
–– Maria, aproveita e traz uns pedaços de rapadura, pro Gerônimo tirar o gosto de sal da boca – ordena Cancão.
–– Ah, isso não. Deixe que eu mesma trago a rapadura e a cabaça de água – finaliza a companheira de Gerônimo.
O bebê começa a chorar e a mãe o pega nos braços, conforta-o e o leva para dentro de casa. Os homens já são avistados bem perto e Gerônimo levanta-se para recebê-los.
–– Olha aí chefe. Encontramos esse homem numa cabana, amarrado, com fome e sede.
–– Quem és tu, cabra? – indaga Gerônimo.
–– Eu sou o presidente da Câmara de Olho D’Água.
–– Sei. E como tu foste parar nessas brenhas?
–– Eu fui sequestrado pelos homens do Coronel Messias dos Reis.
–– Cancão vem cá. Esse tal de Coronel Messias não é o pai daquele infeliz que eu cortei a orelha dele?
–– Deve ser.
–– Então, porque tu foste levado para a cabana?
–– É o seguinte: eu acho que a princípio era para me matarem. Depois o sujeito chamado Lucas, o braço direito do Coronel revelou que era para atrapalhar a eleição, pelo fato de eu ser o mais votado depois do prefeito.
–– E porque ele não te matou?
–– Ele é o carrasco perverso do Coronel, mas também é ganancioso. Fez uma proposta para mim.
–– Que proposta?
–– O trato era um golpe que ele iria aplicar no Coronel.
–– Como é que é? Desembucha, vai.
–– Para me manter vivo, eu teria que dar a ele todos os meus bens de papel passado e tudo e ele iria trazer comida e água todos os dias, me manteria em cativeiro, depois da eleição eu teria que ir embora para sempre da cidade, mas o Coronel não poderia saber de nada, concordei e então, ele mandou os jagunços para esperar lá distante, no carro, deu dois tiros no chão para parecer que eu havia morrido e foi embora.
–– E quando ele voltará para te ver na cabana?
–– Amanhã de manhã, muito provavelmente.
–– Tem mais coisa. Foi ele quem matou a filha de Maroca e o filho de um tal de Manoel Espicha Couro. Ele é um assassino sanguinário. O Senhor soube dessa história?
–– Soube. Mas quero ter certeza de que tu estás falando a verdade, por que se for assim mesmo, do jeito que tu conta, agora essa briga é nossa.
–– Ele é quem elimina as pessoas a mando do Coronel. Quando o Senhor for à cidade faça uma visita ao Padre Lauro. Ele sabe mais das coisas do que eu.
–– Tu és amigo do Padre Lauro?
–– Claro! Ele é um dos nossos maiores aliados. Apoia e orienta o prefeito em tudo, além de ser o conselheiro dele. Se o Padre Lauro contar a metade do que ele sabe, o Senhor irá ficar abismado.
–– O Padre Lauro virá aqui em três dias para batizar meu filho. E aí tu confirmarás tudo que disseste.
–– Confirmo sim, Senhor.
–– Cancão, amanhã tu irás montar uma tocaia para trazer aqui esse vagabundo do Lucas. Quando ele chegar à cabana, pegue o homem e traga-o para mim.
–– Sim Senhor.
–– Calango!
–– Sim Capitão!
–– Chame dois homens e vão à casa do Manoel Espicha Couro agora. Diga-lhe para ele vir para cá urgente. Mas não diga do que se trata, apenas que é importante. Pegue os cavalos no curral e vá homem, avexado.
–– Sim Senhor.
–– Presidente tu já foi eleito quantas vezes?
–– Estou no terceiro mandato. E na próxima eleição serei candidato a prefeito.
–– É. Tu pareces que é benquisto pelo povo. O problema é que agora nosso acampamento está comprometido.
–– Por quê?
–– Porque antes ninguém ou quase ninguém sabia onde nos encontrar, a não ser o Padre Lauro.
–– Mas eu não tenho intenção de ti prejudicar.
–– Eu sei. Mas a gente fica sempre com a mosca atrás da orelha.
–– Posso te fazer uma proposta?
–– Sim. Pode.
–– Se tu quiseres me ajudar e ajudar teu povo, a gente pode somar forças.
–– Oxente! E como é isso, homem de Deus?
–– Na cidade tem escolas, hospital, água encanada, saneamento básico e...
–– Tem o que rapaz? Fale de modo que eu entenda. Sou um homem do mato. Não sou tão letrado assim.
–– Quero dizer que, eu na condição de homem público, e presidente da Câmara, posso garantir a sua cidadania, ou seja, tirar seus documentos, dar moradia digna e até emprego. Tenho até um terreno mais afastado com muitos hectares de terra onde vocês poderão plantar milho, feijão e mandioca. Mas só se vocês quiserem sair dessa caatinga.
–– Eu não tenho muita leitura não e nem meu povo. O pouco que aprendemos aqui foi com a ajuda do Padre Lauro, que é irmão da minha mulher e dispendeu um pouco de seu tempo e muitos livros.
–– Ah, então ele é seu cunhado.
–– Sim, sim. Mas presidente, em troca de que tu farias isso para nós?
–– Primeiro que já tenho uma dívida com vocês por terem salvo minha vida e eu estou muito agradecido. Segundo que, como político, preciso de votos de confiança.
–– Entendi. Presidente, meu povo não sabe votar. Não conhece essa política de vocês e não sabe receber ordens que não sejam as minhas.
–– Bem, tenho uma equipe que poderá alfabetizá-los, ensiná-los a ler e escrever e darei todo material necessário para isso.
–– Tô te lendo! Tu és esperto! E quanto vamos ficar devendo por essa bondade e favores?
–– Bondade sim, favor não. Todo cidadão tem direito à educação gratuita.
–– Mesmo assim ficaríamos em débito contigo.
–– Não, não, não. Eu sou quem estou em débito. Eu disponibilizo a equipe para ensiná-los a ler, escrever e votar e prometo que, dentro dos limites da cidade, construiremos uma vila só para vocês, além do mais, tu continuarás a tomares as decisões que quiseres.
–– Essa conversa tem rumo. Todo dia penso no futuro dessas crianças, mas, nem o Padre nunca propôs algo assim. É certo que ele ajuda com parte da comestiva e remédios.
–– Estamos no inicio do mês de junho e a eleição é em novembro. O que tu me diz? Ah, quero perguntar-te. São quantos homens e mulheres aqui?
–– Noventa homens e sessenta mulheres e mais as crianças.
–– Então o que teríamos aqui seriam cento e cinquenta eleitores, digo cento e cinquenta cidadãos de bem. O que acha da minha proposta? Se quiseres mando redigir um documento registrado em cartório com a minha e a sua assinatura. Um contrato de gaveta.
–– Homem não carece disso não. Minha palavra vale mais que papel de cartório. Além do mais, se eu aceitar tua proposta, e tu não a cumprir, tu não terá lugar onde se esconder. Vou te buscar debaixo da saia de tua mãe e mato tu e ela.
–– E depende de que então?
–– Tenho que reunir meu povo para saber. E outra, tenho que ouvir o Padre Lauro. Ele será o avalista caso todos estejam de acordo.
–– É bom tomarmos decisões rápidas, porque o tempo urge.
–– Não me aperreie não. Tudo tem o tempo certo. Quer ver uma coisa?
–– Sim.
–– Te botaram no meu caminho e agora estamos falando do futuro, de leitura, de aprendizagem, meio de vida e coisa e tal.
–– É verdade. Há males que vem para o bem. Se eu não tivesse sido sequestrado, não estaria aqui e não teria te conhecido.
(...)

terça-feira, 2 de julho de 2019

CANGACEIROS 22




–– Marrapá! Quando começo isso? É moleza!
–– Não é tão mole assim não. O Jaime é osso duro de roer.
–– Me aponte um macho que eu tenha medo.
–– Não quis dizer isso. Ele tem que ser pego de surpresa. Temos que começar a eliminar os peões desse tabuleiro numa ação conjunta.
–– E o vice-prefeito?
–– Esse eu faço questão de desmascarar e tu vai ter que estar lá na hora.
–– Pode preparar a papelada. Agora, hoje, vamos comemorar essa nova amizade e as mudanças que poderão vir.
–– Vamos sim.
––Tenho umas cachaças e vinhos, guardados. Ah, tem carne seca de veado e carne de bode no varal. Vou mandar acender uma fogueira e nós vamos beber e comer.
–– Não sou muito de beber, mas vou comer, já estou mesmo com fome.
–– Tem que beber nem que seja só umas duas doses de serrana ou um caneco de vinho, afinal tu serás o padrinho do meu filho.
–– Eu?
–– Pois é. Eu ia escolher um homem do bando, mas agora seremos compadres. Eu te protejo e tu o protegerá.
–– Serei padrinho do filho do homem que salvou minha vida com o maior prazer.
–– Tens esposa?
–– Tenho claro!
–– Pois ela, sem nem mesmo que eu a conheça será a madrinha. Quando o Padre chegar, mandarei busca-la. De acordo?
–– De acordo.
–– Ah, pois! Cancão manda trazer a bebida e as carnes pra assar no fogo. E não deixe ninguém sair da vigília. Bota dois homens na entrada da estrada, visse?
–– Sim Senhor Capitão.
–– Sabe, Capitão, minha cabeça não para de pensar, então, a gente vai arranjar umas vagas para as mulheres fazerem algumas coisas.
–– Rapaz presidente deixa para falar nisso depois.
–– Não, não. Eu quero empregar pessoas nas escolas para fazer limpeza, servir a merenda escolar, fazer outros serviços. O prefeito tem uma série de obras para inaugurar antes da eleição. E nós agora somos compadres. Tenho que sair daqui com tudo planejado e tu só tens que garantir os votos. Com o tempo, todos estarão numa sociedade mais justa.
–– Entendo. Já foi muita promessa por hoje. Vamos beber e comer.
–– Preciso de um lápis e papel para anotar tudo que eu disse aqui.

Sentados em tamboretes de madeira e tampos cobertos com couro de bode, os dois homens conversam enquanto o vereador vai fazendo suas anotações. Cancão  trás a cachaça e o vinho e outro acende a fogueira para assar carne.

–– Gerônimo, tu sabes o significado do teu nome?
–– Taí que nunca pensei nisso.
–– Todo nome tem significado.
–– Tu és letrado mesmo. Tu és doutor?
–– Sou formado em direito. Sofri muito. Era um homem pobre. Dei duro na vida.
–– Tens filhos?
–– Tenho um garoto com doze anos.
–– Casou novo não é?
–– Casei.
–– Sim, e qual é o significado do meu nome?
–– Bem, Jerônimo significa nome sagrado.
–– Viu, Cancão? O homem sabe das coisas.
–– Tô vendo aí chefe.
–– Tem origem no nome grego Hierónymus, composto pela união dos elementos “hiéros”, que significa “sagrado” e onyma onoma que quer dizer “nome”. Foi utilizado em homenagem a São Jerônimo desde a idade média, sobretudo na Itália e na França, e é usado na Inglaterra desde o século XII. Em Portugal, foi encontrado em documentos datados da primeira metade do século XVI. Também tem San Jerônimo no México e São Jerônimo no Brasil. É um nome forte.
–– Como é que tu sabes tanto sobre meu nome, vereador?
–– Coincidência ou não, pesquisei sobre nomes de pessoas antes de meu filho nascer, e esse é também o nome dele.
–– Estou impressionado! Só pode ser coisa do destino.
–– Pois é. Coisas boas acontecem em nossas vidas. E se tu me deres permissão, posso falar muito mais do que tu possas imaginar.
–– Então fale homem. Temos todo tempo do mundo. Calango.
–– Sim meu capitão.
–– Trás aí a cuia com uns pedaços de carne. Já está no ponto?
–– Já tem uns pedaços bem assados.
–– Pois traga aqui, e trás pimenta também.
–– Sim Senhor.
–– Prossiga presidente.
–– Tu já ouviste falar de Lampião, o rei do cangaço?
–– O Padre Lauro já contou umas histórias por aqui, mas foi coisa pouca. Podes falar se quiser.
–– Pois bem. Cangaço foi um fenômeno do banditismo brasileiro ocorrido no nordeste do país em que os membros do grupo vagavam pelas cidades em busca de justiça e vingança pela falta de emprego, alimento e cidadania, causando o desordenamento da rotina dos camponeses.
–– O que não é o nosso caso. A gente aqui se vira como pode, mas não leva desaforo para casa e nem atenta o povo.
–– A verdade é que com o tempo as pessoas em sociedade sofrem transformações e tornam-se civilizadas.
–– Se eu falar sobre os que já morreram, tu irás ficar impressionado. Eles eram brutos.  
(...)

segunda-feira, 1 de julho de 2019

CANGACEIROS 21




–– Aqui está o homem Capitão. Não deu um pingo de trabalho. Só é valentão no grupo deles.
–– Então tu és o Lucas! Cabra sem vergonha! Minha mão tá coçando para fazer uma besteira contigo. Esse punhal já cortou muitas gargantas, mas hoje, hoje vou me conter em cortar tua orelha. Qual tu preferes a direita ou a esquerda?
–– Não faça isso senhor, pelo amor de Deus.
–– O filho do Manoel Espicha Couro era meu afilhado e o que tu fizeste? Matou o rapaz e queria esconder o corpo. Covarde. Depois sequestrou o presidente da Câmara para extorquir. Tu és um encosto ruim.
–– Eu fui obrigado a fazer isso.
–– Quem te obrigou?
–– O Coronel Messias dos Reis.
–– O teu patrão?
–– Sim Senhor.
–– Ô cabra frouxo. Vocês estão vendo o que é um homem frouxo? Eu ainda nem encostei a mão nele. Todo homem que faz o que não presta quando anda só e é acuado é covarde. Quando se sente protegido é valentão, não é Lucas?
–– Desamarrem-no. Não gosto de bater num homem amarrado. E ninguém vai interferir.

Assim que o cangaceiro o desamarra, Gerônimo desfere um soco na boca do estômago de Lucas e quando este se curva com o golpe outro murro de punho rígido o atinge no rosto deixando o sangue no canto da boca e no nariz. Os homens vibram.

–– Tem uma coisa que eu não gosto Lucas, é de traição. Tu ias enganar teu patrão por dinheiro. Ele não te pagava tão bem? Tu não eras o braço direito dele? Canalha! Não gosto também de chutar cachorro morto não. Mas isso é só o começo.

 Gerônimo chuta as costelas de Lucas e se escancha sobre seu corpo, põe a mão com força no pescoço de Lucas e com o punhal na mão direita aparta a orelha esquerda dele.

–– Essa orelha vai para o rosário dos meus desafetos e não são poucos. Agora, tirem as roupas dele, passem mel, joguem-no  no buraco e joguem as formigas para se alimentarem enquanto o Manoel Chega.  
–– Esperem. Quem mais está envolvido nessa trama política? – indaga o vereador.
–– Se eu falar eles me matam.
–– E se não falar quem te mata sou eu – diz Gerônimo.
–– Está bem. Se eu falar vocês me deixam ir?
–– Essa decisão é do Manoel Espicha Couro – responde Gerônimo.
–– É melhor falar logo cabra. A coisa tá ruim para teu lado – diz outro cangaceiro.
–– O que vocês querem saber?
–– Tu és surdo? Quem são os que estão envolvidos nessa conspiração – indaga mais uma vez o vereador.
–– O vice-prefeito sabia do plano e foi se oferecer para nosso partido em troca de proteção e apoio como candidato a deputado no próximo pleito. Era ele quem passava todas as informações.
–– O vice? Eu desconfiava, mas não tinha certeza – afirma o vereador – quem mais?
–– O Delegado não está do lado de vocês. Ele só recebe o dinheiro no final do mês, mas age de acordo com as ordens do Coronel Messias.
–– O bicho é roto! – afirma Gerônimo - quantos homens esse coronel tem?
–– No total da fazenda e canavial na casa grande, são mais de duzentos. Fora os escravos que são prisioneiros e podem lutar ao lado dele, pois o coronel mantém as famílias como reféns.
–– Tu vais dormir no buraco. E como sou um homem bom, não vou colocar as formigas.
–– Eu agradeço. Obrigado Senhor.
–– Eu não, mas eles vão. Levem-no.
–– Não, não! Por favor!
–– Tragam a chave do carro. Será um presente para a Paróquia do Padre Lauro e o Presidente irá fazer a entrega no momento certo.                                                           
         –– Gerônimo eu estava aqui pensando com meus botões e quero sugerir que tu assumas um cargo importante na cidade – diz o vereador.
–– Que cargo? E eu lá sou homem de assumir cargo.
–– Veja bem, tu és um homem corajoso, só temente aos poderes de Deus, não é?
–– Lá isso é verdade.
–– Então homem. Tenho certeza que tu e teu bando só querem o melhor para o povo e tua família e, depois dessas revelações do Lucas, creio que tu darias um bom delegado, além do mais, podemos empregar pelo menos seis homens seus. Todos com salários bons e o teu será o maior.
–– Rapaz tu estás prometendo muita coisa e quando a esmola é grande o santo desconfia.
–– Diga-me, quanto vale tua vida? Eu estou juntando o útil ao agradável. Eu falo com o prefeito assim que sair daqui e tudo será resolvido por decreto.
–– O que é isso?
–– É uma forma provisória enquanto não se transforma em lei para sanar a situação.
–– Eu até aceito, mas se for com armas novas. As nossas são antigas.
–– Mas tem uma condição.
–– Qual?
–– Eu faço o pronunciamento na Câmara, o prefeito sanciona e tu vai ter que lutar ao nosso lado, prender o Jaime, coloca-lo atrás das grades até tomarmos uma nova decisão.

sábado, 29 de junho de 2019

CANGACEIROS 20




–– Porque antes ninguém ou quase ninguém sabia onde nos encontrar, a não ser o Padre Lauro.
–– Mas eu não tenho intenção de te prejudicar.
–– Eu sei. Mas a gente fica sempre com a mosca atrás da orelha.
–– Posso te fazer uma proposta?
–– Sim. Pode.
–– Se tu quiseres me ajudar e ajudar teu povo, a gente pode somar forças.
–– Oxente! E como é isso, homem de Deus?
–– Na cidade tem escolas, hospital, água encanada, saneamento básico e...
–– Tem o que rapaz? Fale de modo que eu entenda. Sou um homem do mato. Não sou tão letrado assim.
–– Quero dizer que, eu na condição de homem público, e presidente da Câmara, posso garantir a sua cidadania, ou seja, tirar seus documentos, dar moradia digna e até emprego. Tenho até um terreno mais afastado com muitos hectares de terra onde vocês poderão plantar milho, feijão e mandioca. Mas só se vocês quiserem sair dessa caatinga.
–– Eu não tenho muita leitura não e nem meu povo. O pouco que aprendemos aqui foi com a ajuda do Padre Lauro, que é irmão da minha mulher e dispendeu um pouco de seu tempo e muitos livros.
–– Ah, então ele é seu cunhado.
–– Sim, sim. Mas presidente, em troca de que tu farias isso para nós?
–– Primeiro que já tenho uma dívida com vocês por terem  salvo minha vida e eu estou muito agradecido. Segundo que, como político, preciso de votos de confiança.
–– Entendi. Presidente, meu povo não sabe votar. Não conhece essa política de vocês e não sabe receber ordens que não sejam as minhas.
–– Bem, tenho uma equipe que poderá alfabetizá-los, ensiná-los a ler e escrever e darei todo material necessário para isso.
–– Tô te lendo! Tu és esperto! E quanto vamos ficar devendo por essa bondade e favores?
–– Bondade sim, favor não. Todo cidadão tem direito à educação gratuita.
–– Mesmo assim ficaríamos em débito contigo.
–– Não, não, não. Eu sou quem estou em débito. Eu disponibilizo a equipe para ensiná-los a ler, escrever e votar e prometo que, dentro dos limites da cidade, construiremos uma vila só para vocês, além do mais, tu continuarás a tomares as decisões que quiseres.
–– Essa conversa tem rumo. Todo dia penso no futuro dessas crianças, mas, nem o Padre nunca propôs algo assim. É certo que ele ajuda com parte da comestiva e remédios.
–– Estamos no inicio do mês de junho e a eleição é em  novembro. O que tu me diz? Ah, quero perguntar-te. São quantos homens e mulheres aqui?
–– Noventa homens e sessenta mulheres e mais as crianças.
–– Então o que teríamos aqui seriam cento e cinquenta eleitores, digo cento e cinquenta cidadãos de bem. O que acha da minha proposta? Se quiseres mando redigir um documento registrado em cartório com a minha e a sua assinatura. Um contrato de gaveta.
–– Homem não carece disso não. Minha palavra vale mais que papel de cartório. Além do mais, se eu aceitar tua proposta, e tu não a cumprir, tu não terá lugar onde se esconder. Vou te buscar debaixo da saia de tua mãe e mato tu e ela.
–– E depende de que então?
–– Tenho que reunir meu povo para saber. E outra, tenho que ouvir o Padre Lauro. Ele será o avalista caso todos estejam de acordo.
–– É bom tomarmos decisões rápidas, porque o tempo urge.
–– Não me aperreie não. Tudo tem o tempo certo. Quer ver uma coisa?
–– Sim.
–– Te botaram no meu caminho e agora estamos falando do futuro, de leitura, de aprendizagem, meio de vida e coisa e tal.
–– É verdade. Há males que vem para o bem. Se eu não tivesse sido sequestrado, não estaria aqui e não teria te conhecido.

No dia seguinte, antes que os galos cantem e o sol nasça, os cangaceiros tomam café com cuscuz à beira de uma fogueira e partem para fazer a emboscada por ordem de Gerônimo. São seis homens armados que não temem a morte. Eles chegam e se entocam como fantasmas, camuflam-se ao redor da cabana estrategicamente e esperam. O tempo passa. Uma vez ou outra já perto do meio dia, o sol a pino, um deles pega a cabaça de água e passa de mão em mão. Um dos homens que está no ponto mais alto avista o rastro de poeira na estrada de chão lá longe e faz o sinal com um pano branco amarrado na ponta do cano da espingarda.

–– Ele chegou – diz o outro.
–– Quando ele se aproximar da porta da cabana a gente o cerca. Só atirem nas pernas. Isto é, se for necessário. O Capitão mandou levar o homem vivo.
–– Certo.
  E assim é feito.
 –– Não se bula, cabra! Bote as mãos pra riba!
–– O que?
–– Tu estás cercado. Não toques um dedo nas armas.

Vendo que não havia chance de combate ou de revidar à cilada o homem se entrega.

–– Eu me rendo. Não atirem.
–– Gavião, pega as armas dele. Bota as mãos pra trás. Avexado.
–– Tudo bem, mas quem são vocês? Não somos inimigos. O que vocês querem? É dinheiro?
 –– Cala a porra dessa boca. Só obedece que vai ficar tudo bem.
–– Está bom! Está bom!
–– Vamos leva-lo.
–– Vamos!
–– Tinha um homem na cabana. Onde ele está?
–– Tu vais já saber. Caminha. Ligeiro.
–– Cadê o homem?
–– Cala essa maldita boca infeliz! Se o capitão não quisesse te ouvir juro que cortava tua língua.
 –– Que capitão?
  –– Espera ai – diz o cangaceiro chefe desse pequeno bando enquanto quebra um graveto, põe na boca de Lucas e amarra as duas pontas com um pedaço de pano – pronto! Agora tu sabes o que significa alguém dizer “cala a boca”. Os outros caem na gargalhada.

E depois de muito andar, subindo e descendo barrancos, caminhar por trilhas cheias de garranchos, xique-xique e mandacarus que só eles sabem onde vai dar, chegam ao acampamento.
(...)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

CANGACEIROS 16




–– Então compro todas e pago no dinheiro. Dinheiro em meu bolso é como fome cearense, nem se acaba e nem fica pouco. Bebida e comida para todos. Por conta de nosso candidato, o futuro prefeito de Olho D’água: Elesbão.

Mesmo ouvindo o nome do candidato, com bebida e comida de graça, os jogadores do recinto não se manifestam e ficam em silêncio por um instante. Arilson, sensato, fala ao filho do fazendeiro.

–– O Senhor não gostaria de passar amanhã, de dia para conversar com o povo de Jatobá? Esses aí são só jogadores da região.
–– E essas porras não tem voto não?
–– Tem, Senhor, mas o Senhor já bebeu muito. É melhor vir amanhã.
–– Gerônimo termina de comer a panelada e pede mais uma dose para beber e ir embora.
–– Senhor, traga-me uma dose dessa cachaça. Quero partir.

O outro cangaceiro, com a espingarda apoiada no bico da bota também pede mais uma dose e os dois que estavam fora entram para comer no balcão da bodega.

–– O que diabo é isso? Todo mundo agora anda armado nessa espelunca?
–– Senhor, esses homens estão de passagem e vieram para comer. Nunca antes passaram por aqui. Nem eleitores eles são – diz Arilson querendo apaziguar a situação.
–– Pois bote a cachaça em cima do balcão. Quero ver todo mundo beber e comemorar a vitória de Elesbão, o nosso candidato.
–– Olhe, eu boto, mas só bebe quem quiser.
–– Quanto devo? – pergunta Gerônimo.
–– Não deve nada filho da puta. Não tá vendo que quem paga as coisas aqui sou eu, filho do Coronel Messias?
–– Rapaz, você é muito jovem para morrer.
–– E quem vai me matar filho duma égua?
–– Quanto devo ao Senhor? – Gerônimo faz ouvido de mercador.
–– Não precisa pagar, não, Senhor. Só quero paz no meu recinto.
–– Agora esse filho duma égua vai pagar é a despesa toda. Tá pensando o quê? Chega, come, bebe e sai sem pagar?
–– Eu não respeito quem não me respeita, não conheço teu pai. E num lance rápido e certeiro Gerônimo segura o pescoço do homem com a mão esquerda, saca o punhal afiado com a direita e corta a orelha do filho do coronel, ali mesmo, em pé. Os homens do rapaz apontam as armas, mas percebem que canos gelados de espingardas estão em suas nucas.
–– A tua orelha ficará em meu cordão de desafetos – diz Gerônimo com o punhal no pescoço do jovem – e se quiser ficar vivo diga a seus homens para largar as armas e se deitarem no chão.
–– Desgraçado! Façam o que ele diz.
Os homens entreolham-se, largam as armas e deitam-se. Os jogadores afastam-se sem nenhuma intromissão.
–– Joguem as facas também. Tem corda aí?
–– Tem Senhor.
–– Traga aqui. Quero todos amarrados. E vamos levar as armas também. Jeremias tira a chave do carro e joga no cercado – ordena Gerônimo a um dos seus - Isso é para tu respeitar cara de homem, cabra sem vergonha. Está vendo isso aqui? – mostra nos peitos as orelhas secas enfiadas num cordão de couro – são meus desafetos. Todos mortos.
–– E ele tá é com sorte que o Capitão não cortou a garganta dele.
–– Não conheço teu pai, mas ele não ficará contente em ver o filho valentão sem orelha. Vamos embora! – Gerônimo é homem de honra e antes de sair, puxa do bolso o dinheiro em cédula, põe sobre o balcão e paga sua despesa, nem pede troco.

Os cangaceiros montam os cavalos e desaparecem na escuridão.

Inácio dos Reis, filho do Coronel Messias, humilhado que foi, continua arrogante, dando ordens, mesmo que ainda esteja envergonhado.

–– Vamos! Vocês aí, me desamarrem.
–– Soltem a gente – diz o outro jagunço contorcendo-se no chão.

Arilson faz ouvido de mercador e ajeita as cadeiras ao redor das mesas, talvez com medo de que eles voltem para terminar o serviço.

–– Soltem-nos – ordena o comerciante.

E depois que todos são desamarrados, lançam mãos dos candeeiros para procurar as chaves do carro. Como não é tão fácil encontrar, desistem e esperam que o dia amanheça para procurar com mais cuidado e enquanto o sol não aparece, tomam mais cachaça e dormem ali no alpendre. Arilson com pena, pede licença, entrega três redes para Inácio armar, manda os clientes para casa e se tranca por dentro.

No dia seguinte, com os primeiros raios do sol e os galos cantando, os homens ainda ressacados levantam-se e batem na porta de Arilson.

–– Senhor Arilson, acorda. Arranje aí água para a gente beber.
–– Água e um café bem forte para curar  a ressaca.
–– Vamos caçar a porra dessa chave logo, enquanto ele abre a bodega.
–– Abra a bodega, moço. Temos dinheiro para pagar.
–– Já estou indo. Tenha calma aí. Oramarrapá!
–– Rapaz  tu que jogou a chave deve saber mais ou menos onde caiu.
–– Espera aí, que já vou ver.

Os jagunços pisam no mato seco, nos capins, arrastam os pés para um lado e outro. Ciscam como galinhas no terreiro e depois de mais de uma hora, encontram.

–– Achei! Achei!
–– Pois traz aqui, avexado!
–– O café está pronto. Fiz umas tapiocas também.
–– Tem manteiga da terra aí?
–– Tem.
–– Pois bota aqui para nós comer.
–– Frita ovos também.
–– É para já.

Após tomar o café da manhã, Inácio paga a despesa e os homens entram no carro que deixa o rastro de poeira de tanta pressa que eles tem de sair dali.