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sexta-feira, 5 de junho de 2020

A Caçada


         Quando eu era um menino assim duns treze anos e morava em minha terra natal Pedro II, fui passar um final de semana na aroeira, interior onde moravam meus tios. Lá chegando, como ainda era cedo, tomei café com leite mugido e tapioca. Com a pança cheia, pedi ao meu tio a espingarda para caçar ali por perto. Os caroços de chumbo eram guardados em um chifre de boi, daqueles bem lixados. Era uma obra de arte que a gente carregava a tiracolo. A espingarda era uma bate bucha, bem conservada e ele tinha ciúmes dela, mesmo assim, me entregou e disse:
- Tenha cuidado com as cobras!
- Certo tio! Volto ao meio dia. Ele acenou com a cabeça e eu fui. Me embrenhei no mato. A folhagem seca não me deixava ser tão silencioso. Depois de muito andar, avistei um jacu. Parei, me apoiei no tronco duma árvore e me aprumei pra mirar. Parecia um caçador de verdade. O silêncio reinou entre nós naquele momento e, não mais que de repente, como dizia o poeta, ouvi um farfalhar no chão. Olhei pro Jacu e ele estava lá, imóvel. E o barulhinho aumentava e se aproximava de mim. Adivinha o que era? Uma aranha gigante, uma tarântula, sei lá. Amarelei. Fiquei com o cu que não cabia um cabelo, e aí não deu outra, foi sebo nas canelas. Cheguei em casa da cor duma flor de algodão, suado, com o coração já pra sair pela boca. Meu tio foi logo indagando:
- O que houve rapaz, não tá nem com uma hora que você saiu? Pra quem disse que só viria ao meio dia. Que diabo tu viu, foi alma? Cadê a espingarda?
- Tio, uma aranha do tamanho dum prato avançou em mim. (Olha o tamanho da mentira). A espingarda ficou por lá. Mas o chifre tá aqui.
- Ô cabra frouxo. Armado e com medo de inseto. Nunca será um caçador de verdade.


       Pois não é que ele foi buscar a espingarda e ainda trouxe uma penca de nambus e preás para o almoço.


Carlos Holanda 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O menino com os três pássaros


George Thomas, um pastor inglês, chegou um dia na igreja carregando uma gaiola. Cuidadosamente, colocou-a no púlpito, e começou a falar:
“Estava andando pela rua ontem, e vi um menino levando essa gaiola com três passarinhos, tremendo de frio e medo. Eu perguntei:
— O que você vai fazer com eles?
Ao que ele respondeu:
— Ah! vou me divertir com eles. Vou levá-los para casa e tirar suas penas para fazê-los brigarem! Vou me divertir muito!
— Mas você vai logo se cansar deles… o que você vai fazer? — questionei.
— Oh, eu tenho alguns gatos,” respondeu o menino. “Eles gostam de passarinhos.
Estupefato, ainda pude perguntar:
— Quanto você quer por esse passarinho?
— Ah…O senhor não vai querê-los… Eles não servem para nada! Eles não cantam. Nem são bonitos!
Sendo muito insistente, consegui dissuadir o menino de seu intento e comprei os passarinhos por dez dólares. E já de posse dos pobres pássaros, libertei-os tão logo o menino deu-me as costas…”
Bem, isso explica a gaiola vazia sobre o púlpito, e depois o pastor continuou contando sua história.
“Um dia, Jesus Cristo e Satanás estavam conversando, e Jesus perguntou o que ele estava fazendo para as pessoas aqui na terra. O diabo respondeu:
— Estou me divertindo com elas! Ensino-as a fazer bombas e a matar, a usar armas, a odiar umas às outras, a casar e divorciar, ensino-as a abusar de criancinhas, ensino os jovens a usar drogas, a beber e fazer tudo o que não se deve! Realmente… Estou me divertindo muito!
Jesus perguntou:
— E depois, o que você vai fazer?
Em resposta, o diabo feriu os ouvidos de Jesus Cristo, dizendo:
— Vou matá-las e acabar com elas!
Jesus perguntou:
— Quanto você quer por eles?
Em deboche, gargalhando, o diabo respondeu:
— Ah…Você não vai querer essas pessoas… Elas são traiçoeiras, mentirosas, falsas, egoístas e avarentas! Elas não vão te amar de verdade, vão bater e cuspir no Teu rosto, vão Te desprezar e nem vão levar em consideração o que você fizer!
Impolutamente, e resoluto, Jesus Cristo, com uma voz cheia de certeza, ainda perguntou:
— Quanto você quer por elas, Satanás?
O diabo, enfurecido, com chispas de ódio em seus olhos respondeu:
— Quero toda a Tua lágrima e todo o Teu sangue!
Jesus bravamente, com sua voz esplendorosa, respondeu:
–Trato feito!
E, dessa forma, Jesus pagou o preço da nossa liberdade!”