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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O Corvo Contra-ataca



O Corvo contra-ataca - 1

Jônatas é um milionário excêntrico. É investidor com visão futurística e ele decidiu mostrar aos seus associados e empreendedores um projeto audacioso: comprar um bairro inteiro da periferia para construir o maior shopping vertical da cidade. Mas não é só isso. Ele pretende transformar a área de favela em um bairro nobre. Em seus planos, a ideia inicial é erguer blocos de apartamentos de luxo simultaneamente. Para que tudo dê certo, primeiramente é preciso convencer os moradores a venderem suas casas humildes a preço de banana.

Jônatas contratou os melhores engenheiros e arquitetos que o dinheiro pode pagar. Também tem uma banca de advogados para tentar convencer as famílias a se retirarem amigavelmente, vendendo assim seus imóveis.

Nesse momento, Jônatas apresenta o projeto em 3D e em cima de uma grande mesa de mármore branco, na sala de reuniões, há uma maquete enorme onde se vê o condomínio de luxo e ao lado o shopping que será construído. É um projeto audacioso, com lojas de departamentos das grandes redes de varejo, parque temático, área de shows e eventos, praças de alimentação, estacionamento vertical e como âncora, um grande cassino na cobertura. Mas antes, ele terá que conseguir o terreno.

A população carente de ações sociais e do poder público não vê o empreendimento com bons olhos. Vê sim, como uma ameaça. Ali estão enraizadas histórias de seus ancestrais, de filhos e netos.
(...)


Carlos Holanda

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Herança Maldita - Parte VIII


Herança Maldita - Parte VIII
Por Carlos Holanda


– Boa tarde amigos! – cumprimenta o delegado. Vejo que a festança aqui irá entrar pela noite.
– Porra Mauro! Você precisava ligar essa porcaria de sirene? Você sabe que a Júlia anda com os nervos a flor da pele.
– Calma Gerônimo. Você está me vendo fardado? Isso não é missão oficial. Só o carro que é da polícia. Estou queimando a gasolina da prefeitura. Nesse momento é o seu amigo quem está aqui.
– Assim é melhor – diz Júlia mais aliviada.
– Então pega uma cadeira e sente-se conosco – convida Gerônimo.
– Não irei me demorar. Vim parabenizar a Júlia por estar livre de tudo. Vocês souberam escolher uma boa advogada. A papelada e o vídeo são bem contundentes. Os federais tomarão conta do caso daqui para frente.
– Está bem. Vamos comer e beber. Deixar esse assunto para outra ocasião – diz Gerônimo.
– Claro! Falei para minha mulher da sua inocência Júlia. Ela ficou muito feliz.
– Obrigada, delegado. Mas como disse o Gerônimo, vamos encerrar por hoje esse assunto. Deixar para outra oportunidade.
– Está bem.
        Gerônimo entra na casa, pega duas cervejas e entrega uma para o delegado - amigo de longas datas - e outra para o cunhado. O churrasqueiro improvisado trás carnes para a mesa.
Um sedan prata estaciona ao lado da viatura policial. É Karina que vem dar o ar da sua graça e abrilhantar a festa. Gerônimo não se contém, apressa o passo para abrir a porta do carro e mostrar seu lado cavalheiro.
– Olá doutora. Demorou, hem?
– Tive que passar em casa para deixar a ração da minha gata.
– Ah, você tem uma gatinha?
– Tenho. E ela é muito fofa. Vejo que o negócio aqui está animado, não é mesmo?
– Pois é. Graças a você, a Júlia está muito contente.
– Imagina! Só fiz meu trabalho.
– Vamos entrar para beber alguma coisa.
– Vamos. Você convidou o delegado?
– Não. Ele é meu amigo de infância e resolveu aparecer.
– Entendi.
– Essa é a doutora Karina, Xavier. Nossa advogada de defesa.
– Bonita, ela.
– Bonita e competente. Espere só um instante.
– Fica à vontade, amor.
– Oi doutora. Pensei que você nem viesse mais. Já está quase de noite.
– Tive que passar lá em casa. Mas está tudo bem, não é?
– Claro. Só tenho a agradecer. Você foi muito ágil.
– Não gosto de perder tempo. Naquela mesma noite falei com o juiz e no dia seguinte, quando o Gerônimo me ligou eu já estava com a documentação pronta. Só levei alguns minutos para redigir o habeas corpus.
– Doutora Karina, a advogada de grandes causas.
– Como vai você delegado? Prepare-se para receber os federais.
– Tranquilo. Pode deixar. Certamente que eles me deixarão acompanhar o desenrolar dos fatos, mesmo que não seja oficial.
– É. Pode ser. Com licença. Preciso conversar em particular com Gerônimo e Júlia.
– Tudo bem, doutora.
– Vou ver aqui se tenho condições de pagar os honorários dela, Mauro – diz Gerônimo e sorri.
– Oh, rapaz! O que é isso? Assim você me deixa encabulada.
Júlia é mais discreta, suportou todo tipo de pressão e não perdeu a postura enquanto Gerônimo está mais entusiasmado e demonstra sentimentos.
– Atenção! Todas as viaturas. Acidente grave com vítimas fatais na rodovia 346. Dirijam-se para lá, por favor. Na escuta? – diz o rádio do carro da polícia.
– Na escuta. Aqui é o delegado Mauro. Estou a caminho. Câmbio!
       Nesse exato momento Xavier recebe uma ligação telefônica de sua mãe informando-o que seu pai está passando mal. Ele avisa à sua noiva, tranquiliza a todos que mais tarde dará notícias e sai da festa.
– Gerônimo, Júlia, doutora Karina, vou ter que me ausentar da festa. Está tudo muito bom, mas, houve um acidente lá no entroncamento com vítimas fatais. Tenho que ir lá.
– Que pena! Acidentes acontecem delegado. Boa sorte!
– Gente, até mais – diz o delegado que sai às pressas.
       Um dos homens entra na sala e diz:
– Patrão, sabe quem veio aqui? O Gamelão.
– Quem diabos é Gamelão, Chico?
– O Bafo de Bode.
– Piorou. Não conheço ninguém com esses nomes estranhos.
– Ah, é o Zé da onça, não é Senhor Chico?
– É esse mesmo. Olha aí viu? A Dona Júlia o conhece.
– Quem é esse, Júlia? Eu não me lembro dessa figura.
– É um caçador beberrão. Passa a maior parte do tempo encharcado na cachaça. Quando não está bebendo, está no meio do mato com uma espingarda. Já dei alguma ajuda para ele nas poucas vezes que veio aqui.
– Chico, e o que ele queria, era ajuda?
– Não Senhor. Ele disse que queria mesmo era lhe contar uma história, um segredo. Sei lá, parece que já tinha bebido umas. Disse ele que vem amanhã. Passou mais de uma hora sentado lhe esperando.
– Está bem. Estarei aqui amanhã.
– Olhe, tem muita carne assada. Acho que só vocês não vão dar conta não.
– Beleza Chico. É já nós iremos lá para fora.
– Tem um abacaxi e umas cebolas que já devem estar no ponto. Vamos experimentar Doutora Karina.
– Vamos sim.
– Antes de saírem da sala, Gerônimo entra no quarto e quando volta, trás consigo um envelope amarelo e entrega para Karina.
– Olha aqui Doutora, os outros cinquenta por cento dos seus honorários como combinamos.
– Obrigada. Você nem precisava ter pressa. Eu ia lhe dar o número da conta para depositar.
– Eu sei que faria isso. Mas passei no banco e já saquei o dinheiro.
– Então vou acompanhar a Júlia e tomar uma taça desse vinho.
– É uma delícia! Vou encher a cara.
– Não se afobe maninha. Sabe Karina? Ela nem é de beber. Essa é a primeira vez em toda sua vida que prova bebida alcóolica.
– Tudo tem uma primeira vez. Hoje é um dia especial.
– Doutora, vamos sentar ali fora. Quero lhe pedir opiniões sobre um assunto. E dessa vez, se for o caso, sou eu quem vai lhe contratar.
– Opa! Agora foi que me interessei pelas histórias. Não é coisa complicada não, é?

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Herança Maldita - Parte V

Herança Maldita - Parte IV
Por Carlos Holanda



– Meu nome é Diego Veras. Sou o perito do estado e fui chamado aqui para esclarecer os fatos.
– Oi, Júlia. Como você está? – indaga Mauro.
– Estou bem. Tranquila.
– O Gerônimo não está em casa? Não vi a camionete dele.
– Não. Ele foi comprar umas coisas na cidade. Vamos entrar Senhores.
– Júlia, você está no olho dessa investigação. Tudo aponta para você – diz o perito.
– Tudo o que especificamente Senhor Diego?
– Bem, vou direto ao ponto. O Mauro me contou em detalhes tudo que aconteceu aqui. Todos os crimes. E nós, com autorização da promotoria, desenterramos os corpos no cemitério e encontrei um artefato de prata. Gostaria de saber se você reconhece essa medalhinha? - E a entrega nas mãos da moça.
– Senhor, essa medalha estava sumida já faz um bom tempo. Acho que havia perdido por aí.
– Entendo. Posso dar uma olhada nas suas coisas por aqui?
– Claro que pode. Não tenho nada a esconder e uma medalha como essa não serve como prova de nada.
– Essa foto aqui, do porta-retratos, é você com seus pais?
– Sim. Não é uma foto recente. Mas somos nós, antes de eles serem assassinados.
– Vou precisar dela para ampliar e ver esse colarzinho que usa no pescoço.  Parece-me que confere com o que encontramos no cemitério. Ou seja, essa aí.
– Pode levar, desde que a traga de volta.
– Quero dar uma olhada em outros cômodos da casa.
– Diga-me uma coisa, Senhor Diego, o Senhor tem um mandado?
– Não. Eu não trouxe um, mas poderia desde já prendê-la como suspeita.
– Baseado em que? Numa medalha que o Senhor encontrou no cemitério? O Senhor já verificou se tem impressão digital minha nela? Ou ela serve como arma do crime para me culpar?
– Júlia, eu sinto muito pelo que está acontecendo aqui, mas o Diego só está fazendo o trabalho dele – diz o delegado.
– Ah, então o trabalho dele é incriminar pessoas inocentes, Mauro? Digo delegado.
– Minha jovem, sou um profissional com mais de trinta anos de carreira e não aceito essas ofensas. Quem está sendo investigada aqui é você.
– Ah, então irei servir como bode expiatório para livrar a pele da polícia? É, porque se eu for presa sem provas suficientes que me condene, livrarei vocês perante a sociedade e tudo volta ao normal enquanto o verdadeiro assassino continuará solto.
– Não é bem assim que funciona o sistema.
– Pois expliquem como funciona essa droga de sistema.
– Nós já terminamos por hoje. Faltam os outros corpos para serem vistos. Assim que terminar voltarei aqui – diz o perito.
– Tudo bem. Estarei às ordens. Não esqueça de trazer um mandado. Ah, da próxima vez como você diz, falará com meu advogado. Cansei de dizer que sou inocente nessa história.
– Não saia desse município tão cedo enquanto não terminarmos essa investigação. Ainda vamos ver os corpos de seus pais.
– Senhores eu moro aqui e não tenho nada a temer. Acho um desrespeito com os mortos, ter que desenterra-los, mas, faz parte do seu trabalho e tenho que concordar com isso.
– Passar bem senhorita Júlia - diz o perito.
– Até mais Júlia. Gostaria que seu irmão estivesse aqui, mas...
– Não se preocupe Mauro. Sou bem crescida e dona das minhas ventas. Até mais ver.

       Quando Gerônimo volta, já anoitecendo, Júlia conta-lhe tudo, tim, tim por tim tim. Ele concorda que é hora de contratar um advogado e afirma que de manhã fará isso.

       No dia seguinte, manhã de sol, um carro de luxo para na porta e um casal de estrangeiros sai e bate na porta dos irmãos. O casal soube das histórias que aconteceram ali através da imprensa enquanto estavam no hotel. Ele é escritor.  Ela arquiteta e está grávida de sete meses. Ele além de escrever, é um investidor e quer construir uma pousada naquela região, por se tratar de um entroncamento com estradas que ligam outros estados.

       Ele escreve exatamente sobre terror e quer transformar seu livro em um roteiro de filme e numa revista em quadrinhos e acha tudo isso fantástico, uma história baseada em fatos. Quer propor comprar a propriedade.
– Bom dia!
– Bom dia – Gerônimo é quem recebe.
– Meu nome é Manoel e o dela, da minha esposa é Dalva. Sou português e ela é brasileira.
– É um prazer! Em que posso ajuda-los? Estão perdidos?
– Não. Não Senhor...
– Gerônimo é meu nome. Senhor Manoel, por favor, vamos entrar.
– Obrigado – gesticula para que a esposa entre primeiro.
– Aquela é Julia, minha irmã – aponta para a moça que está sentada no sofá.
– Olá, tudo bem?
– Tudo - Júlia levanta-se e vem ao encontro do casal – Que barriga linda! Está de quantos meses?
– Sete. Sete meses.
– Ah, é? Eu também estou grávida de quatro meses.
– Que maravilha! – diz Dalva admirada pela coincidência.
– Bem, Senhor Manoel, o que os trás a essas bandas?
– Vou lhe dizer. Eu sou escritor, mas também faço investimentos imobiliários.
– Entendo.
– Eu vi reportagens na TV sobre os acontecimentos aqui.
– Olha Senhor Manoel, desculpe-me a franqueza, mas não queremos falar sobre isso. Estamos exausto desse assunto. Meus pais também foram assassinados.
– Como eu disse, antes de ser escritor eu já fazia negócios no ramo imobiliário.
– Não estou entendendo aonde o Senhor quer chegar.
– Ele quer dizer que está interessado em sua propriedade – completa a mulher.
– Isso. Estou impressionado com esse lugar. É ideal para o que me proponho nesse momento. Gostaria de saber se vocês tem interesse em vender.
– Não havíamos pensado nisso. Até estamos fazendo algumas reformas, cercando o que está em aberto. E não. Não está a venda.
– Pense bem. Sem ofensas, mas não há nada que o dinheiro não compre. Posso lhe fazer uma bela proposta. Diga-me quanto vale. Farei uma oferta irrecusável.
– Sinceramente? Vocês nos pegaram de surpresa. Eu jamais iria imaginar que alguém se interessasse por este lugar. Até porque meus pais foram enterrados aqui e no momento o local está mal falado.
– Não para mim. Eu acho ótimo como está sendo falado. Desculpe-me o mau jeito. Quero dizer que seria prazeroso escrever sobre fatos. De qualquer forma aceite nossas condolência, nossos pêsames.

domingo, 24 de junho de 2018

Herança Maldita - Parte III


Herança Maldita - Parte III
Por Carlos Holanda


– Bom dia. Entrei na ponta dos pés para não lhe acordar. Não matei nada. Atirei no que vi e matei o que não vi.
– Não entendi. Como assim?
– É só a maneira de falar. Vou ter que ir à cidade. Prometi uma visita ao meu amigo delegado.
– Gerônimo, a gente precisa duma pessoa aqui para ajudar nos afazeres.
– É. Eu sei vou ver se arrumo uma pessoa também para ajudar no campo. Você quer alguma coisa do mercado?
– Carnes. Ah, passa na padaria e trás uns pães, manteiga, presunto e queijo. Você gosta de sanduiche.
– Está bem. Até mais tarde. Não me espere para o almoço. Vou comer por lá mesmo.
– Certo.
Celular
O primeiro lugar que Gerônimo vai quando chega na cidade é a uma loja de celulares para comprar uma bateria compatível com o aparelho encontrado na floresta e um cabo USB, depois passa no banco e vai à delegacia visitar o amigo de longos anos.
 – Bom dia, Mauro. Como vai as investigações?
– Estamos de vento em poupa. O perito do estado já chegou e está no hotel. A tarde ele virá aqui para nos reunirmos fazer as primeiras diligências.
– Muito bem. Espero que dê tudo certo.
– Claro que irá dar certo. Não tem ninguém mais interessado do que eu em resolver essas questões.
– Tem sim meu amigo, eu.
– Sim, eu sei. Mas a pressão recai sobre meus ombros todos os dias. As famílias querem que eu dê conta dos assassinos a qualquer custo.
Enquanto eles conversam o telefone toca.
– Só um momento, Gerônimo. Alô. Olá Senhor Diego. O que você manda? Certo entendi. Vou providenciar agora.
– Quem é Diego?
– É o perito. Ele não perde tempo. Quer uma ordem judicial do promotor ou do juiz autorizando desenterrar os corpos para ele analisar.
– Mas vocês já não haviam feito isso?
– Já. Mas ele quer começar do início. Disse que vai ao local do crime amanhã também.
– É justo. Bem, vou lhe deixar trabalhar. Depois a gente se fala.
– Eu ia até te convidar para almoçar, mas, estou até o pescoço de trabalho.
– Deixa para o final de semana. Aparece lá em casa no domingo.
– Fechado. Posso levar minha mulher?
– Claro. Então até domingo.
– Até mais, amigo.
Gerônimo passa no mercado e na padaria como combinou com sua irmã, e logo arranja dois homens para trabalhar em sua propriedade. Tudo acertado. Partem para o interior.
Gerônimo ao chegar, percebe uma moto estacionada na porta. Vira para os homens e ordena que vão para a cabana que fica a  vinte metros dali e que mais tarde lhes dirá por onde devem começar o trabalho.
– Olá.
– Olá Senhor Gerônimo.
– E quem é você?
– Gerônimo, esse é o Xavier, meu namorado. Ontem liguei para ele vir aqui.
– Ah, então você tem um namorado e não me  falou nada.
– Bem, sabe aquela coisa que eu tinha para te contar? Achei melhor que o Xavier estivesse presente.
– E o que é tão importante agora que você disse ontem que não era.
– Posso falar Senhor?
– Acho melhor não. Prefiro que a Júlia diga o que está acontecendo aqui.
– Pois eu vou direto ao ponto. Eu estou grávida de quatro meses.
– Como é que é?
– Mas eu assumo a criança - diz Xavier, meio trêmulo.
– Ah, então você assume a criança. É isso? Você tem emprego rapaz? Tem estudo? Já fez faculdade?
– Calma Gerônimo. O mundo não vai desabar por isso. A gente já havia feito planos.
– Planos? Que planos vocês fizeram? Plano de saúde? Plano econômico? Plano de casar? O que vocês planejaram? Digam-me.
– Bem, nós vamos nos casar – diz Xavier, o jovem de vinte e sete anos.
– Gerônimo, o Xavier é de boa família. Os pais dele são de boa índole e são comerciantes na cidade.
– Ok. Ok. Mas eles sabem desse casamento que vocês planejam?
– Olha, Senhor Gerônimo, a minha mãe sabe do nosso namoro. Meu pai ainda não tomou conhecimento, mas ele me conhece muito bem e sabe que tenho boas intenções.
– Amigo, de boas intenções o inferno está cheio. Quero te pedir que vá para casa e comunique o fato ao seu pai, e eu também irei conversar com ele em breve. Agora quero falar com minha irmã em particular.
– Está bem. Tchau amor – beija a namorada e sai. Até mais Senhor Gerônimo.
– Eu desconfio que na noite em que nossos pais foram assassinados você não estava comprando nada e nem estava chovendo para passar a noite fora. Você estava era com esse motoqueiro.
– Não. Não, Gerônimo, eu juro. Eu não mentiria para você.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Herança Maldita - Parte I


Herança Maldita – Parte I 
Por Carlos Holanda


       Seis jovens decidem acampar na região de terras indígenas e são assassinados misteriosamente. A polícia investiga os casos isoladamente e constata que dois foram mortos por envenenamento, dois por asfixia e os outros foram amarrados pelos pés, arrastados para longe e enforcados com cipós.

       Nunca foi solucionado o mistério por não haver digitais, armas, testemunha ocular ou pistas que levassem ao assassino. Pensam até que pode ter sido uma briga entre eles, mas os investigadores sabem que existe um sétimo elemento nesse quebra-cabeça e tudo leva a crer que seja coisa de um serial killer. É isso que está em aberto.

       O local ficou conhecido como o bosque mal assombrado, não por ter visagens ou assombrações, mas pela forma como as pessoas foram mortas brutalmente.

       A crendice do povo do interior espalha na cidade que o lugar é amaldiçoado e chegam a não compreender porque ainda existem pessoas morando por lá, referindo-se aos idosos.

       Alguns anos depois a polícia arquiva o caso e as famílias consternadas das vítimas convivem com as perdas.

       Placas de advertência foram colocadas nas imediações da única casa existente na região.

       O casal de idosos e a filha vivem ali há muitos anos e também foram interrogados por diversas vezes, mas dizem não saber de nada e não há nenhuma evidência de que eles saibam mesmo.

       Um ano mais tarde, de madrugada, o pai e a mãe da jovem são encontrados mortos no quintal da casa, enforcados com cipós num oitizeiro. Não foram pendurados e sim amarrados ao tronco da árvore e as cabeças de ambos foram puxadas dos corpos até apartarem-se.

       O fato curioso dessa história é que não existe nenhuma planta ou árvore da região que crie cipós tão grossos e resistentes ao longo dos anos a ponto de só se compararem aos da Amazônia ou de regiões inóspitas.

       Júlia, a garota foi indiciada como suspeita, mesmo sem nenhuma prova que a levassem para a cadeia. Pouco tempo depois do interrogatório policial ela foi liberada.

       Gerônimo, o irmão de Júlia estava há dez anos morando no sul do país, e decide voltar para casa, para rever a família e amigos. Chega num momento em que toda a cidade o olha atravessado, como se o culpassem pelo desenrolar dos fatos. Não liga e ignora os gestos que apontam para ele. Gerônimo não tem conhecimento do ocorrido com os jovens e tampouco com seus pais. Após tomar um café na loja de conveniência, pega uma garrafa de água mineral, paga, sai, entra na camionete e ruma para a propriedade que fica distante alguns quilômetros da cidade.

       Gerônimo entra por uma estradinha de chão que vai dar na casa de sua família. Vê as placas com dizeres de “Perigo”, “Afaste-se” e “Não ultrapasse”. Por um momento ficam algumas indagações sem respostas em sua cabeça. Avista a casa e buzina umas três vezes. Para na porta, sai do carro e grita com um largo sorriso – mãe, pai, Júlia. Cheguei! Estou de volta.
Júlia abre a porta e corre para abraça-lo.

– Meu irmão. Há quanto tempo! Seja bem vindo.
– Estava morrendo de saudades de vocês.
– Nós também. 
– Onde está o pai e a mãe?
– Venha. Vamos sentar e conversar. Preciso te contar uma coisa.
– Quero saber cadê o pai e a mãe.
– É sobre eles que estou tentando falar.
– Então conta.
– Eles estão mortos.
– Como aconteceu? Há quanto tempo?
– Já faz um ano.
– Porque você não me disse antes?
– Você vive mudando de endereço.
– Não justifica. Você tem meu celular. Porque não me ligou?
– Está bem. Eu falhei em não te contar.
– Como aconteceu? Onde eles estão enterrados?
– Venha comigo, vou te mostrar.
– Sim, mas como eles vieram a óbito?
– Bem, prefiro te contar com calma. É uma história triste. Confusa. Nem eu sei explicar direito.
– Eu não entendo. O que há de difícil em dizer como os próprios pais morreram. Você estava aqui, não estava?
– Sim. Quero dizer não. Eu não estava aqui especificamente.
– Onde você estava então?
– Bem, eu havia ido à cidade no lombo de um burro, comprar alguns mantimentos e então começou a chover. Choveu tanto que entrou pela noite. O dono da mercearia e sua esposa me ofereceram dormida. E eu fiquei lá. De manhã cedo eu vim embora.
– Cedo que horas?
– Assim que amanheceu o dia.
– E como os encontrou? Estavam vivos?
– Não. Não estavam.
– Desenrola Júlia. Como eles morreram? Foi morte natural? Ataque cardíaco, ou o que?
- Gerônimo, fique calmo e me ouça.

       Os dois irmãos sentam no tronco de uma árvore próximo ao túmulo dos pais e Júlia conta sua versão.

– Mas como pode ter acontecido isso? Quem poderia ser capaz de tamanha crueldade? Apartar as cabeças com cipós! Que coisa mais macabra. Eu desconheço inimigos de nossos pais. Diga-me uma coisa, e os culpados foram punidos?
– Não. Não foram.
– E onde estava a polícia que não investigou?
– Até eu fui interrogada. Mas eu não mataria meus pais e você sabe disso.
– Claro que sei. Espera aqui. Deixe-me pegar umas flores do campo pra colocar nos túmulos.
– Está bem.
Pouco tempo depois
– Terminei. Vamos embora.

       No dia seguinte uma viatura da polícia estaciona muito cedo em frente da casa de Pedro e Constança, os pais falecidos dos jovens. O delegado bate na porta e logo é atendido.

– Bom dia, Gerônimo. Como vai?
­– Não tão bem quanto você, Mauro. Você agora está delegado é?
– Pois é. São muitos anos de bons serviços prestados a essa comunidade.
– Seja bem vindo amigo. Vamos entrar. A propósito, está investigando a morte de meus pais ainda?
– Para falar a verdade. Já fizemos de tudo para descobrir esse e os outros casos.
– Que outros casos?
– Você ainda não sabe? A Júlia não te contou?
– Ainda não deu tempo, delegado. Meu irmão chegou ontem. Contei a história do pai e da mãe. Fomos ao túmulo deles. E depois de tanto tempo tínhamos mais o que conversar, afinal, passamos dez anos sem nos vermos.
– Gerônimo, há uma coisa que nos intriga e muito nesses crimes.
– E quantas pessoas morreram?
– Com seus pais são oito. Todos muito parecidos e violentos.
– Oito? Oito pessoas morreram na cidade e nada foi descoberto?
– Não foi na cidade. Foram todos nessas imediações.
– Como assim, nessas imediações?
– Deixe-me lhes dizer. Primeiros seis jovens saíram da cidade e vieram para essas bandas para acampar, sei lá, passar a noite em barracas e fumar maconha longe de tudo. Quatro dias depois, as famílias não tiveram notícias dos filhos, nem por celular, já que eles prometeram que era só por dois dias e então, entramos no caso. Encontramos os corpos já em estado avançado de decomposição. Mesmo assim, chamamos os peritos para averiguar, uma vez que não havia perfuração de balas e nem de objetos cortantes. A cidade toda ficou em alvoroço.
– E eles morreram de que mesmo?
– É aí que está o mistério. Parece coisa sobrenatural. Eu como policial não deveria falar assim, mas...
– E não há nenhum suspeito?
– Parece ser algo relacionado com um serial killer.
– E o que a polícia pretende fazer?
– Venham tomar o café. Está na mesa – diz Júlia.

Continua