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domingo, 5 de abril de 2020

A conquista do Reino 17




Reino de Astride. Céu estrelado. Castelo do rei Manoel II. A princesa Diana, com um vestido de seda verde musgo de tonalidade mais escura e ramalhetes bordados a ouro na gola e na bainha, caminha entre corredores com um brilho no olhar. Carrega embaixo dos braços rolos de esboços da obra que ela tanto sonha: o teatro, feitos por seus engenheiros e arquitetos. As tochas de fogo maiores iluminam o ambiente. Guardas reais posicionam-se próximos ao rei, como estátuas, imóveis, porém, atentos.

–– Majestade! Majestade! Aqui estão os primeiros esboços e croquis da nossa obra! – Diana fala com um sorriso largo de alegria, enquanto apanha no chão um dos rolos que escorrega e cai.
–– Que maravilha, filha! Deixe-me ver! – responde o rei que se levanta para receber a filha compartilhando da sua felicidade.
–– Olhe! Aqui ficará o salão teatral com colunas de mármore! Aqui, a entrada principal e saídas laterais! E aqui...
–– Deixe que eu tire minhas conclusões! – responde o rei, desenrolando todas as folhas do projeto e colocando umas sobre as outras na mesa maior.
–– Está certo, meu pai! Olhe com carinho. Tudo que está aí ficou de acordo com o que pedi. Mas o senhor pode mudar o que achar conveniente, afinal, será o senhor que dará a palavra final!
–– Vou olhar com calma ainda hoje, e amanhã, já terei a resposta! – diz o rei com olhar de aprovação colocando uma planta sobre a outra – Ah, Diana, falta uma coisa em seu projeto.
–– E o que é pai?
–– O mais importante! O nome!
–– O senhor tem alguma sugestão?
–– Primeiro quero lhe ouvir. Certamente que você pensou tudo isso, mas com certeza tem a quem homenagear.
–– Sim! Tenho!
–– Pois fale!
–– É justo homenagear minha mãe, sua esposa!
–– Concordo plenamente! Teatro Real de Astride! Excelente! Excelente! Além de ser uma obra para história!
–– Bem, já que o Senhor concorda, vou me retirar para meus aposentos! Hoje foi bem cansativo!
–– Sim, filha! Tenha uma boa noite de sono e descanso – o rei beija a filha na face, senta-se novamente e continua a observar com muita atenção os croquis à luz de velas. Ele estala os dedos e pede a um de seus súditos que lhe traga mais luz.

Diana sai, entra em seu quarto, dispensa as criadas, fecha a porta por dentro, despe-se de suas vestes, deixa-as no chão e entra numa enorme banheira de leite e rosas; passa algum tempo ali, pensativa, de olhos fechados, levanta-se, caminha nua e enrosca-se numa toalha aveludada e deita-se na cama, abraça um travesseiro branco, macio, feito com penas de gansos e coloca  outro embaixo da cabeça. Do lado de fora, dois guardas armados com lanças e espadas mantém-se em pé ao lado da porta.
(...)

terça-feira, 10 de março de 2020

A Conquista do Reino 9



No dia seguinte barracas e tendas são desmontadas e colocadas nas carroças. As fogueiras são apagadas muito cedo, antes mesmo do raiar do dia. O exército do General Osório se prepara para partir. Os três batedores voltam com informações valiosas.

–– General! Encontramos algo que poderá lhe interessar! – diz o primeiro batedor enquanto desmonta do cavalo.
–– Fale soldado!
–– Abordamos um comerciante com dez carroças indo para o reino Continental!
–– E o que tem de importante nisso? Comerciantes vão e vem o tempo todo!
–– Não é um homem que vende especiarias ou tecidos!
–– E o que ele vende, então?
–– Pólvora!
–– Pólvora? Ah, isso sim é interessante! Onde ele está?
–– A umas duas léguas daqui!
–– Você conversou com ele?
–– Sim! E disse que o senhor tem interesse em fazer uma proposta!
–– É claro! Quantos homens estão com ele?
–– Dez! Ele está esperando!
–– Capitão, vamos montar uma tropa de trinta homens, arqueiros e lanceiros para avançarmos mais rápido. Os outros seguem normalmente para não cansar os cavalos! – comanda o General.
–– Sim, General! Lanceiros e arqueiros venham!
–– Vamos em frente! Acelerado! – ordena o General.

Pouco tempo depois de cavalgar com os trinta soldados e o batedor, o General chega onde está o comerciante.

–– Senhor! Esse é o General Osório do reino de Astride! – diz o soldado que antes contatou o mercador.
–– General! – cumprimenta o homem pegando na aba do chapéu.
–– Meu soldado disse que você leva pólvora em suas carroças!
–– Sim! É verdade!
–– Quantos barris de pólvora, tem aí?
–– Cinquenta! General!  
–– Você é um homem corajoso!
–– Por quê?
–– Transitar com uma carga tão valiosa e poucos homens por essas bandas é perigoso!
–– É verdade! Mas não temos só a pólvora! Temos espadas e armas de fogo também!
–– Ah, é? E de onde vem essa mercadoria?
–– A pólvora vem da China, de navio. É lá no porto que a gente compra para revender! Um detalhe: tem que saber com quem fechar negócios. Alguns são espertalhões!
–– E as armas?
–– As armas são em menor quantidade! Trago da Europa!
–– Para quem você ia vender?
–– Bem, estou no caminho do rei Gabriel de Alcântara! Já fiz negócios com ele antes! Vendi perfumes e tecidos! Ele me disse para vir aqui quando tivesse algo muito valioso.
–– Cinquenta barris de pólvora dá para começar uma guerra. Mas não dá para terminar!
–– O que o senhor quer dizer?
–– Quanto custa cada barril?
–– Cinco moedas de ouro!
–– E se eu quiser mil, ao preço de três moedas, em quanto tempo me entregaria?
–– Bem, posso fazer um preço mais acima. Quatro moedas para essa quantidade!
–– Eu tenho poder para confiscar sua mercadoria e prendê-los!
–– Nós somos comerciantes e não soldados! Também não somos fora-da-lei. Nesse caso, meu lucro fica muito abaixo do mercado!
–– Tudo bem! Serei justo! Pagarei por essa mercadoria as quatro moedas por unidade, conforme você falou! E encomendo mil barris! Fechado?
–– Fechado! E para onde devo levar?
–– Para o reino de Astride! Mandarei vinte soldados para escolta-los com segurança.
–– E o pagamento como fica?
–– Pago esses quando chegar ao reino! Lá vocês entregam a mercadoria, ficam no quartel general do castelo. Comerão e beberão por minha conta.
–– E as armas?
–– Só poderei responder quando testar e tiver a aprovação do rei!
–– E quando o senhor volta dessa missão?
–– Em seis dias estarei de volta!
–– Então estamos acertados!
–– Sim! Estamos! Agora vão!
–– Ah, só mais uma pergunta!
–– Sim!
–– O senhor está viajando para o reino Continental?
–– Estou! E não falarei em seu nome, se é isso que o preocupa!
–– É claro, senhor! Vejo que o senhor é um General honrado!
–– Capitão!
–– Sim senhor, General!
–– Disponibilize a escolta! Fale com o rei o que se passou e como foi feito esse trato!
–– Sim, senhor!
–– Os outros venham comigo!
(...)

A Conquista do Reino 6



–– Elias! Michel! Para fora, os dois! Já descansaram o bastante! Essa tarde, vamos treinar com arco e flechas! – ordena Joshua.
–– Ah, aí sim! É mais cômodo! – afirma Michel.
–– Eu também gosto do arco! – concorda Elias.
–– Bem, então vamos lá! Primeiro preparem os cavalos! Alvos parados só no final! Vamos fazer o seguinte: mantenham uma distância de vinte metros. Os cavalos vão passar com os alvos grudados nas selas em estandartes de vime e vocês terão que acertar doze flechas.
–– E como fica quem acertar menos? – pergunta Michel.
–– Filho, o perdedor dormirá do lado de fora da casa. Será o vigia da noite! A vida é assim: ganhadores recebem prêmios, perdedores castigos, para aprender a fazer bem feito.
–– O senhor leva muito a sério esse treinamento!
–– A vida é uma competição e não há lugar para fracassados! – diz o pai enfaticamente – estão prontos?
–– Sim senhor! – respondem os dois jovens simultaneamente.
–– Os cavalos correrão em círculo no eixo de vinte metros de distância de vocês que ficarão no centro. Flechas com penas azuis para o Michel e penas vermelhas para o Elias. Entendido?
–– Sim pai! – Michel responde, enquanto Elias confirma com a cabeça.
–– Helena!
–– Sim, pai!
–– Você monta o cavalo preto!
–– Jesus!
–– Sim, pai!
–– Você monta o malhado e eu o branco. O jogo termina quando atirarem as doze flechas e aí faremos a contagem. Estão prontos? Vamos lá!

Sentada em um banquinho rústico de madeira, Madalena observa o treinamento do marido com os filhos no terreiro da casa. Não diz nada. Pouco a pouco quando os cavalos galopam a poeira toma conta do local, e, essa é a finalidade da prova, tornar a visibilidade dos alvos mais difíceis.

Uma hora de cavalgadas em círculo é o suficiente.

–– Terminei! – grita Elias.
–– Eu também! – afirma Michel.
–– Muito bem! Então vamos fazer a contagem! – diz Joshua.

Os cavaleiros descem dos animais, soltam-nos e colocam os estandartes no chão.

–– Eu não vou ficar parada aqui. Farei a conferência! – afirma Madalena enquanto caminha para verificar os alvos. Joshua, o pai, Elias, Michel, Helena e Jesus respeitam a decisão da mãe e observam em pé.
–– Bem, todos acertaram as doze flechas. Temos um empate aqui!
–– Então teremos que desempatar com alvos fixos a uma distância de cinquenta metros e somente com três flechas. Helena, pegue duas maçãs e coloque nas estacas! – ordena Joshua.
–– Certo pai!
–– Rápido! Enquanto estamos com o sangue quente!

Jesus pega as estacas, finca-as no chão a cinquenta metros da marca que o pai determina e Helena coloca as frutas nas pontas.

–– Estão prontos? Comecem!

Cada um atira três vezes e novamente acertam os alvos. Há um novo empate.

–– E agora, Joshua, como você vai decidir isso? – indaga Madalena.
–– Vou jogar três maçãs para o alto e aquele que acertar ganhará! Vamos lá!

Joshua joga as maçãs uma a uma enquanto os jovens atiram. Elias erra as três e Michel acerta uma.

–– Temos um ganhador. Mas vocês precisam treinar mais!
–– Homem deixe de exigências! – reclama Madalena.
–– O que eu ganho pai? – indaga Michel.
–– Ganha os “parabéns” do pai e da família.
–– E eu? Qual o castigo?
–– Chega de castigos e prêmios! Há coisas que temos que fazer em consenso. Vamos comer alguma coisa e beber um vinho! Vocês já provaram que são homens de fibra e bem disciplinados! – encerra Madalena.
–– Aqui quem manda é a mulher! Então vamos comer e beber. Amanhã cedo a gente recomeça! – diz Joshua.
Helena abraça o irmão e o conduz à sala para comer queijo e degustar o vinho. Michel dá um tapinha nas costas de Elias que retribui com um sorriso e também segue para a casa.
Jesus! Tire os arreios dos cavalos dê de beber e solte-os no pasto! – ordena Joshua.
Está bem, pai!
(...)

A Conquista do Reino 5



Reino Continental

–– Olha que coisa mais linda! O rei Saul de cabelo cortado e barba feita! – diz o rei Gabriel em tom de ironia – viu como a gente trata bem nossos convidados para uma refeição digna? – e continua dirigindo-se à rainha – Vossa Majestade está deslumbrante! Sentem-se, por favor!

O rei Saul e a rainha Catarina sentam-se á mesa sem falar nada. Sentem-se constrangidos e humilhados por aquele que não tem bondade no coração.

–– Tragam-nos os faisões, os patos e os porcos assados! Vossas Majestades não podem esperar tanto assim! Tragam também o melhor vinho e pães! Não é Saul? Nesse banquete Vossa Majestade me contará um de seus segredos, não é?
–– Eu já não tenho segredos!
–– Ah, tem sim senhor!
–– Tragam-me uma tesoura amolada!

Os pratos são colocados na mesa.  Cada um mais bonito que o outro. A cozinha do castelo tem excelentes cozinheiros. A gastronomia é impecável. Um dos servos vai colocando vinho nas taças folheadas a ouro, enquanto um dos súditos bota uma toalha branca na mesa ao lado de Gabriel e sobre ela uma tesoura virgem.

–– Tragam-me um bode vivo! Mas, vamos comer primeiro! Saúde! Saúde! Vamos Saul e Catarina, levantem suas taças!
–– Não temos a que brindar! – diz Saul indignado sem saber o que os aguarda.
–– Temos sim, meu rei! Vamos ver se dessa vez Vossa Majestade vai ser tão forte quanto parece! Vamos comer! Você não está sem fome, está?

Gabriel faz uma pausa, começa a comer pães de alho, saboreia uma uva e entra no prato principal.

–– Coma meu rei. Na masmorra não terá essas opções!

Saul e Catarina comem, não por prazer ou pela companhia, mas por uma questão de sobrevivência.

–– Muito bem! Muito bem! Estamos provando o melhor da culinária desse reino. Feito pelos melhores profissionais de toda a região. E vocês sabem que um país que não tem boa comida não pode ter uma referência positiva!

Catarina e Saul comem como se a comida inchasse na boca.

–– Ah, aí está o bode! Vocês sabem que esse é um animal usado em muitos rituais, inclusive na maçonaria, em rituais de magia, mas hoje será só para eu ver como vocês reagem ao sangue, apesar de saber que já participaram de muitas guerras.
–– O que um animal tem a ver com outro? – indaga a rainha Catarina.
–– Eu vou sangrá-lo aqui, nessa mesa. E já que Vossa Majestade perguntou, a pena se aplicaria a ele, mas agora será a você.

O rei Gabriel sobe na mesa, acena com a mão para que coloquem o animal sobre a mesma mesa e o sangra. Apara o sangue com uma tigela de cerâmica e banha a cabeça do rei Saul e da rainha Catarina, humilhando-os. Depois, desce, e pergunta: ––  Majestade, onde está seu filho? Ele hoje deve ser um jovem adulto e carrega outros segredos que pretendo saber. Onde está?
–– Eu não sei! – responde Saul com voz firme.
–– Onde está seu filho?
–– Eu já disse, não sei!
–– Tudo bem! – diz o rei Gabriel enquanto desce da mesa e pega a tesoura.
–– Agora vamos ver quanto amor Vossa Majestade tem pela sua rainha! – o rei caminha para o outro lado da mesa e pega a mão da rainha, posiciona a tesoura no dedo mindinho e pergunta novamente:
–– Onde está seu filho?

A rainha é forte, não reluta e deixa que seja feita a sua vontade. Ela também não sabe e mesmo que soubesse, não diria. O amor de mãe é sempre mais forte que tudo.

–– Majestade! Cortarei o dedo de sua rainha se não me disser onde está seu filho.
–– Eu não sei. Ela não sabe! Não cometa esse erro!

E numa questão de segundos, o rei Gabriel corta o dedo da rainha que range os dentes e fica calada mesmo sentindo dor.

–– Levem-nos daqui. Por hoje é só! Chame o médico para fazer um curativo no dedo da rainha! Levem o rei para seus aposentos: o calabouço! E a rainha, para o quarto enquanto melhora dessa dor horrível!
(...)

segunda-feira, 2 de março de 2020

A Conquista do Reino 3



A Conquista do Reino 3

Enquanto isso, do outro lado do continente, no castelo do rei Gabriel de Alcântara, homem inescrupuloso, forte, de cabelos grisalhos e detentor de um poderio incalculável, e que comanda um dos maiores exércitos da região. Costuma manter seus desafetos como reféns até conseguir o que quer e, como um vampiro, suga até a última gota de sangue, literalmente.

–– Não entendo como um homem pode sofrer tanto e não revelar esse mísero segredo – diz o rei dirigindo-se aos conselheiros.
–– Majestade, motivos ele tem de sobra! – diz um de seus súditos.
–– Como assim, tem motivos de sobra?
–– Vossa Majestade o venceu em batalha, tomou conta de seu reino, aprisionou a rainha, matou o restante da família e só sobrou esse menino que vossa Majestade insiste em afirmar que ele está vivo!
–– Chega! Deixem-me todos! Preciso pensar em como fazer para ele dar com a língua nos dentes! Saiam!

Os conselheiros retiram-se do salão nobre e o rei põe-se a pensar em seu trono de ouro maciço.

–– Guardas! Tragam-me o rei Saul e a rainha Catarina!
–– Sim, Majestade!

Dois guardas enveredam pelos corredores do castelo até chegar ao subsolo, em uma cela escura, iluminada por tochas.
–– Abra a cela! O rei quer ver o prisioneiro!
Lá no canto, um homem barbudo e maltrapilho encontra-se acorrentado. Os guardas o pegam e o levam para o salão nobre. Outros dois guardas chegam aos aposentos da rainha que é tratada com um pouco mais de dignidade, apesar de estar num cômodo do castelo com cama, latrina e uma mesa para fazer as refeições. Mesmo assim, também é vigiada vinte e quatro horas por dia durante anos.
–– Pronto! Majestade! Aqui está o prisioneiro! – diz o guarda.
–– E aqui está a prisioneira! – fala o outro guarda.
–– Por favor, tirem essas algemas e correntes dos prisioneiros! Não é assim que se deve tratar a nobreza! Deixe-os livres! Outra coisa, traga o barbeiro para cortar o cabelo e aparar a barba desse homem! Chamem as criadas para darem banho neles. Estou ficando enjoado com essa catinga de rato molhado! – diz o rei em tom de deboche.
–– Sim, Majestade!
–– Quando estiverem limpos, asseados, levem-nos para a sala de refeições imperial. Eles hoje almoçarão com o rei e beberão do melhor vinho!
–– Vossa Majestade é um cafajeste! – diz o rei Saul.
–– Não abuse da minha hospitalidade Saul. Tenho a boa vontade de conversar com vocês em banquete particular e você me ofende! Olha que posso mudar de ideia!
–– Faça como quiser!
–– Ah, Saul, vossa Majestade sabe que gosto de jogos. Após o almoço poderemos jogar uma partida de xadrez. Se tu ganhares, prometo-te a liberdade! 
–– Vai para o inferno!
–– Levem-nos daqui e façam o que ordenei!

Criados e guardas conduzem o casal para outro espaço a fim de realizar o corte de cabelo, barba, banho e troca de vestimentas.

Michel e Elias voltam exaustos da corrida e agora caminham rumo ao tanque de cimento para tomar banho.

–– Bravo! Deixaram os ovos no ninho ou no meio do caminho? – Pergunta Joshua.
–– Claro que deixamos no ninho, pai!
–– Então já podem sentar-se à mesa para comer!
–– E o cabrito?
–– A Madalena antecipou as coisas e matou duas galinhas! Comam, descansem e logo mais vamos praticar com arco e flecha, lanças e facas. Amanhã treinaremos com espadas!
–– Entendido mestre! – responde Elias.
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A Conquista do reino 2




A Conquista do Reino

O treinamento de Elias e Michel

Aldeia Alta não é um nome bonito, até porque a aldeia é numa superfície plana. Mas o local em si é bonito. É cercado por árvores frondosas. Tem alguns animais no pasto. Joshua cuida muito bem de sua pequena propriedade. Acorda cedo, cuida da lavoura, dá comida aos porcos e galinhas. Alimenta os três cavalos e o rebanho de ovelhas. Vive em tese, satisfeito com a vida. Joshua tem dois filhos e uma menina adolescente e é amado por sua mulher.
–– Acorda Elias! Os galos já cantaram umas dez vezes!
–– Bom dia! Eu já estou acordado faz tempo! Só estava achando bom esse friozinho aqui!
–– Estás lembrado que hoje é dia de treinamento?
–– Sim! Pai Joshua!
–– Pois levantas e vais tomar o café! A Madalena fez um bolo de milho que é uma beleza!
–– Sim, senhor! Obrigado!
Depois do café da manhã, Joshua monta o cavalo branco e ordena que Elias e Michel, seu filho, façam uma corrida longa até o topo da montanha, que por sinal é muito distante. Ele os deixa lá, e avisa aos dois jovens para voltarem antes que o cabrito seja colocado para assar ou ficarão sem comer. Mas não é só isso. Assim, ficaria fácil demais. Os dois homens terão que encontrar ninhos de pássaros e cada um terá que trazer um ovo inteiro, enquanto ele – Joshua – matará o cabrito, tirará o couro, tratará, temperará e porá para assar na fogueira.
Joshua cavalga à frente dos jovens até chegar ao ponto que ele quer que comece o pequeno desafio. Então, galopa rápido de volta para casa.
Depois de quase duas horas, Elias chega cansado com um ovo na mão e entrega a Joshua. Minutos depois Michel, também cansado e suado, entrega outro ovo ao pai.
–– Muito bem! Os dois estão pensando que cumpriram a missão.
–– E não cumprimos pai?
–– O que falta agora? – indaga Elias.
–– Bem, se eu chegasse aqui e não encontrasse meus filhos e a Madalena me dissesse que eles haviam sido sequestrados, o que eu faria?
–– O senhor iria nos procurar!
–– Muito bem Michel! Eu iria! Mas os pássaros não entendem a humanidade! Esses ovos estavam nos ninhos para serem gerados! Provavelmente já existe um embrião aí dentro!
–– Os pássaros nem darão pela falta!
–– Eles podem não saber contar. Mas sabem por instinto quantos filhotes estão no ninho.
–– E o que devemos fazer agora? – indaga Elias.
–– Vocês vão voltar correndo e devolver aos ninhos, sem quebrar e sem me enganar. Pois se mentirem para mim, estarão mentindo para vocês mesmos.
–– Pai nós acabamos de chegar. Estamos cansados!
–– A vida exige sacrifícios. E vocês são novos. Entendam que numa batalha, às vezes, a vitória está na resistência e não no ataque. Agora vão!
–– Está certo! Mas, pai, e o cabrito que o senhor prometeu para o almoço? Cadê?
–– Era só um artifício para acelerar o desafio, a motivação. Quando vocês chegarem, matarão e prepararão para a gente comer. Vão, vão! Já vai dar meio dia! Além do mais, quem vai dar banho nos cavalos?
(...)

A Conquista do reino



Em tempos de guerras, muitas batalhas são travadas. Em meio a tantas lutas por mais poder e riquezas entre reinos, o rei Manoel II, decide que sua filha, a princesa Diana, que esse ano completa sua maioridade, deve se casar. Mas, para haver a cerimônia nupcial os pretendentes terão que mostrar seus valores e enfrentarão uma série de desafios.

A seleção será feita no palácio imperial, a maior fortaleza da região, consolidada como a Cidade de Pedra.

Reis, Príncipes, Condes e outros que têm títulos de nobreza ficam sabendo da notícia que corre o mundo e começam a visitar o rei trazendo presentes e oferecendo-se como pretendentes e aliados para unir forças.

O rei tem critérios rígidos. Os que querem a mão da sua filha passarão por provas e lutarão entre si para mostrar em um primeiro momento suas habilidades e experiências de batalhas. E só depois desses eventos e torneios realizados, é que será definida entre os ganhadores da primeira etapa a verdadeira missão. O rei dirá qual o maior desafio a ser enfrentado por aqueles que almejam o trono. 
(...)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O Corvo Contra-ataca -1



O Corvo Contra-ataca – 1 – continuação

–– Senhoras e senhores! Tenho a honra e a satisfação de apresentar-lhes o mais arrojado e o maior empreendimento imobiliário do mercado. Todos vocês que pretendem ter retorno econômico e financeiro em médio e longo prazo estão diante do futuro. Aqui não há concorrência e nenhuma moeda ou título superará os ativos investidos. Dominaremos metade da cidade e posteriormente seremos absolutos. Mas para isso acontecer com sucesso, é preciso que comprem os luxuosíssimos apartamentos ainda na planta para podermos dar continuidade ao projeto.  Garanto em nome de meu grupo empresarial que não haverá prejuízos para ninguém. Então, após assistirem ao filme em 3D produzido pela equipe da nossa agência de marketing e publicidade, mostrarei a maquete para livre escolha das unidades que satisfaçam seus anseios, enquanto será servido o coquetel. E para finalizar, quero deixar claro que, haverá já, já a abertura para aquisição dos lotes de ações do shopping. Para o nosso “Cassino Riviera”, a escolha de sócios será feita de acordo com os investimentos de cada um no Shopping e nos apartamentos. Sejam muito bem vindos!  E obrigado pela atenção! Sintam-se em casa e fiquem à vontade para conversar com nossa  consultoria financeira!  – finaliza Jônatas que é aplaudido de pé.

Enquanto os convidados empresários e políticos observam atentamente o filme publicitário exibido no telão, Dorival, dono de uma indústria de alimentos, aproxima-se calmamente de Jônatas e toca em seu ombro falando em voz baixa.

–– Jônatas, meu caro amigo, para onde irão tantos pobres que moram nessa favela?
–– Dorival, meu caro amigo, para o buraco de onde vieram! Quem não tem poder aquisitivo, não poderá sequer chegar perto de tamanho empreendimento! Luxo é para os ricos!
–– Você é muito corajoso! É destemido! Porém, toda ação tem reação!
–– Você não aprova nosso projeto? Está comigo ou contra mim?
–– Não se trata de estar de um lado ou de outro! Estou alertando-o para uma possível revolta! Ah, eu estou do lado dos lucros!
–– Então trate de fazer suas aquisições em apartamentos e ações. O meu investimento é de cinquenta por cento. Eu poderia bancar esse sonho futurista sozinho e ainda me sobraria dinheiro em várias contas!
–– Eu sei disso! E parabenizo-o!
–– Então, meu amigo, não perca tempo me aconselhando! Vá ver os folder’s, as plantas. Fale com nossos consultores e escolha logo seu investimento antes que acabe!
–– Farei isso! Desejo sucesso para nós e faço um brinde!
–– Um brinde! Amigo!
–– Israel Santana é um dos homes mais ricos do eixo Rio-São Paulo - dono de um conglomerado de empresas - e veio prestigiar o amigo por tão grande empreendimento.
–– Jônatas! Como você está?
–– Estou bem! Cheguei a pensar que você não viria!
–– Tive alguns contratempos! Mas aqui estou! Pretendo comprar uma torre inteira! Quero espaços de lojas no shopping e fazer parte do seu seleto grupo no “Cassino Riviera”!
–– Assim é que se fala! Você perdeu a apresentação do vídeo em 3D! – diz Jônatas.
–– Perdi nada! Sua assessoria é eficiente! Recebi por e-mail juntamente com o convite e é por isso que estou confiante e empolgado!
–– Venha! Vou lhe levar pessoalmente aos meus consultores de vendas para fecharmos esse negócio! – Jônatas fala empolgado ao amigo empreendedor.
–– Vamos!
–– Você ficará na cidade hoje?
–– Não posso! Vim exclusivamente para esse evento e voltarei logo mais à noite!
–– Eu entendo! Somos realmente muito ocupados! Bem, são doze torres de trinta andares a princípio, com espaço para mais doze. Um apartamento por andar. Veja aí qual lhe convém!
–– Certo! Vamos ver!
–– Israel! Responda-me! Você continua solteiro ou já se casou?
–– Quem precisa casar quando pode ter um harém?
–– Um homem tem que ter uma mulher para ter uma família descente e herdeiros.
–– Olha quem fala! Herdeiros brigam para obter o que não trabalharam e chegam a se matar por isso! Não quero causar a morte de pessoa e tampouco de meus filhos!
–– Isso é desculpa de homem mulherengo! Chegará o dia em que se apaixonará perdidamente e se casará!
–– Se essa for a vontade de Deus! Quero ter filhos justos!
–– Israel Deus não deu ao homem a escolha do destino!
–– Talvez meu destino seja outro! Vamos ao que realmente interessa! Por favor!
–– Sim! É claro! Deixe-me lhe apresentar aos diretores financeiros do grupo! Eles são os melhores!

Após as apresentações e cumprimentos, os negócios são fechados e o dinheiro das compras é transferido online.

–– Isaura! A grande herdeira da família mais rica do centro-oeste do Brasil, dona das maiores fazenda de gado e exportadora de carne para várias partes do mundo! Quanta honra! – diz Jônatas, cumprimentando a senhora de olhos claros, de cabelos grisalhos  bem vestida. O perfume francês exala quase hipnotizando quem a rodeia, chamando para si a atenção.
–– É um prazer revê-lo, Jônatas! Vejo que tirou seu sonho do papel!
–– Sim! E quero muito que você faça parte dessa realidade futurista!
–– Claro! É para isso que estamos aqui! Para investir em negócios sólidos e bem planejados!
–– Muito bem! Vamos ver o que mais lhe interessa!
–– Estou encantada com todo esse projeto! Farei minha escolha!
–– Logo mais à noite teremos um jantar no salão nobre de nosso hotel e, como atração, um grande pianista internacional.  Espero que você esteja lá!
–– Com prazer! Agora vamos aos negócios!
–– Calma! Você não deixou nenhum filho chorando!
–– Claro que não! Meu filho mais novo já está formado em direito!
–– Que bom! Mais um advogado em seu grupo!
–– É. Ele é uma dádiva!
–– No jantar sortearei algo interessante para nossos cem convidados! É surpresa! Isaura dê-me licença, preciso falar com uma pessoa em particular! É o prefeito! Fique à vontade!
–– Pois não! Eu estou bem! Obrigada!
(...)


Carlos Holanda 

O Corvo Contra-ataca



O Corvo contra-ataca - 1

Jônatas é um milionário excêntrico. É investidor com visão futurística e ele decidiu mostrar aos seus associados e empreendedores um projeto audacioso: comprar um bairro inteiro da periferia para construir o maior shopping vertical da cidade. Mas não é só isso. Ele pretende transformar a área de favela em um bairro nobre. Em seus planos, a ideia inicial é erguer blocos de apartamentos de luxo simultaneamente. Para que tudo dê certo, primeiramente é preciso convencer os moradores a venderem suas casas humildes a preço de banana.

Jônatas contratou os melhores engenheiros e arquitetos que o dinheiro pode pagar. Também tem uma banca de advogados para tentar convencer as famílias a se retirarem amigavelmente, vendendo assim seus imóveis.

Nesse momento, Jônatas apresenta o projeto em 3D e em cima de uma grande mesa de mármore branco, na sala de reuniões, há uma maquete enorme onde se vê o condomínio de luxo e ao lado o shopping que será construído. É um projeto audacioso, com lojas de departamentos das grandes redes de varejo, parque temático, área de shows e eventos, praças de alimentação, estacionamento vertical e como âncora, um grande cassino na cobertura. Mas antes, ele terá que conseguir o terreno.

A população carente de ações sociais e do poder público não vê o empreendimento com bons olhos. Vê sim, como uma ameaça. Ali estão enraizadas histórias de seus ancestrais, de filhos e netos.
(...)


Carlos Holanda

sexta-feira, 14 de junho de 2019

CANGACEIROS 6




Um caboclo mais frio, arrasta duas ou três canas da carroça, desfolha-as, põe em cima do peitoril, e pega uma a uma e vai descascando, corta em cruz alguns gomos pequenos e mastiga – eita porra! Essa é das boas! Doce que só o mel!

Outro mais aproveitador, pega alguns fechos e leva-os para seus animais devorarem enquanto estão amarrados no pé da cerca e assim, seguindo o exemplo, outros fazem o mesmo, pegam os fechos para alimentar suas montarias, afinal, alguns jogadores viciados em baralho, sinuca e dama vem de longe montados em cavalos, burros e jumentos, todos arreados com boas selas, alguns mais pobres, usam cangalhas nas montarias. A concepção é de que a carga está perdida mesmo e o que importa naquele momento são os corpos, então, deixa os bichos comerem as canas.

Os bois estão babando de calor com o sol a pino, mas ninguém vê isso. Bem, quase ninguém. Benedito sugere tirar a canga da parelha de bois e decide dar uma parte das canas e água para os animais à sombra do grande pé de jatobá e enquanto isso acontece, pessoas da região aglomeram-se. O boato boca a boca se espalha rapidamente. Não há melhor publicidade do que fofoca no interior. Até parece que todos moram perto um do outro. Não se sabe por que as coisas ruins ganham mais repercussão do que as coisas boas.

Gaguinho chega à delegacia, amarra o cavalo num pé de oiti e adentra apressado.

–– O-olá! C-ca-cadê o De-dele-delegado? – pergunta ele a um recruta no balcão.
–– Está na sala dele. Aguarde aí. Ele tem uma visita importante. Vixe! Tá avexado assim por quê?
–– M-mas é, é um ca-caso de vi-vida ou mor-morte!
–– Tenha calma, gaguinho! Aguarde sua vez! Ôxe!!

A visita importante como o recruta falou, trata-se de um homem que certamente é o braço direito do Coronel Messias que veio trazer propina.

–– Pois muito bem Senhor Lucas. Quanto ele mandou dessa vez?
–– Está tudo aí nesse envelope, conforme o Senhor pediu. Agora ele disse que é para o Senhor fechar oszói, caso alguma coisa ruim venha a acontecer ou dar errado – diz o capanga de Coronel Messias.
–– Hum!! Ô cabra arretado de palavra!
–– Delegado, com sua licença, tem um gaguinho aperreado querendo falar com o Senhor. Ele tá realmente agoniado.
–– Terminamos aqui, Lucas, mas pode ficar enquanto atendo essa ocorrência. Mande-o entrar, cabo.

Gaguinho já está para botar os bofes pela boca, e nesse interim, chega Chico Preto ainda mais nervoso que o outro.

–– Quero falar com o Delegado. Ele está aí?
–– O que houve?
–– Tenho que avisar a ele do furdunço que aconteceu no bar do Arilson.
–– É o mesmo assunto do gaguinho?
–– É. Mas sei explicar melhor para a autoridade não perder tempo.
–– Pois emburaca, já que ele está lá dentro!
–– De-de-de...
–– Delegado! - Completa o policial.
–– N-não! De-de-defunto!
–– Defunto, onde?
–– O diabo quando não vem, manda o secretário.
–– Cala a boca Lucas – repreende o Delegado.
–– No, no car-carro de bó, boi.
–– Que carro gaguinho?
–– No bar.
–– Entendi. Defunto no carro de boi, no bar. Onde fica o bar?
(...)