quarta-feira, 26 de junho de 2019

CANGACEIROS 14




–– Ah, Coronel, não foi tão difícil assim. Conversei abertamente com o Delegado, menti sobre uma ocorrência em outro povoado e fiz com que ele saísse em diligência juntamente com os policiais deixando só o escrivão, e aí foi fácil. Batemos nele e levamos os presos para fora da cidade conforme suas ordens.
–– Deram fim neles?
–– Sim, claro! E os enterramos num lugar que ninguém achará a ossada.
–– Muito bem! Caso encerrado. Agora vá cuidar do presidente da Câmara.
–– Estamos esquecendo do mais forte aliado do prefeito. Aquele que poderia inclusive ser o candidato dele.
–– Quem?
–– O Padre Lauro. Homem carismático. Querido pelo povo, pelos fiéis e com influência política nessa administração.
–– Realmente ele é muito forte politicamente, mas não é candidato a nada e não tem substituto.
–– Não. Não tem, mas pode atrapalhar na eleição.
–– Vamos manter as coisas como estão. O alvo agora é o presidente da Câmara. Depois pensamos o que fazer com o padreco, aliás, tenho planos para ele.   
Lucas põe o plano em ação:
O prefeito depois de prestar suas condolências às famílias da moça e do rapaz assassinados, decide ir até a delegacia conversar com Jaime e é então que descobre que eles sumiram e cobra respostas  ao delegado. Após essa visita, vai à igreja ter um diálogo com o Padre e pede a missa de Domingo em nome das famílias e o padre faz o sermão em homenagem a filha de Maroca e ao filho de Espicha Couro.
Nessa tarde, Joaquim da Silva reúne os filhos em casa para conversar e fazer os preparativos da festa anual de seu aniversário.
–– Xavier venha cá, meu filho. Sente-se aqui. Júnior, venha aqui perto de mim também.
–– Sim meu pai.
–– É o seguinte: Xavier você irá à casa de Benedito, dizer-lhe para vir uma semana antes com a esposa. Converse com ele e depois vá à casa de Francisco e diga a mesma coisa.
–– E eu pai, o que devo fazer? – indaga Júnior.
–– Você irá à casa de João que é mais perto. Quero todos aqui no mesmo dia para tratar dessa eleição também.
–– Porque que tem que ser todos no mesmo dia pai? – pergunta Fátima.
–– Porque quero matar um bode para a gente comer, afinal, faz mais de ano que não os vejo.
–– Pai, ainda falta dois meses para seu aniversário. E eles sabem que o Senhor faz essa festa todo ano – lembra Xavier.
–– Sim, eu sei, mas quero tratar desses assuntos o quanto antes.
–– Tá certo. O Senhor é quem sabe.
–– Vou passar um café para nós, pai.
–– Vai filha.
–– Joaquim, esse ano terá alguma coisa diferente?
–– Sim, tem. Quero convidar todos os mendigos, cegos e aleijados da cidade para virem comer aqui. Quero um banquete para todos. Foi uma promessa que fiz.
–– Está certo meu véio.
–– E olhe que não é por interesse político não. É promessa viu? Quero um almoço com fartura. E que ninguém fique de fora.
–– O prefeito vem?
–– Não sei. Vou convidar, se ele vier, ótimo.
–– E o Padre?
–– Também será convidado.
–– Pai e os políticos do lado do prefeito, vem.
–– Olhe, não vou convidar esses não. Sei que podem até vir. Somos amigos, mas não se trata de reunião política. É o meu aniversário.
–– Você sabe que eles não perdem uma boquinha dessas – diz a mulher.
–– Pois deixem que venham, mas não vamos ter discursos e nem irei aceitar que peçam votos.
–– Aí sim. Fica melhor assim – confirma a esposa.
–– Convidem em meu nome os padrinhos, tias e tios de vocês, não sei se terei tempo para isso. Ah, os convidados estão dispensados de trazer presentes esse ano.
–– Oxe! Porque pai – pergunta a menina.
–– Esse povo já vive com sacrifícios e para me agradar são capaz de trazer até o melhor animal que poderiam comer mais tarde. Então não precisa. Aqui nós temos tudo e devemos agradecer a Deus.
–– O pai tá certo, viu? – afirma Júnior.
–– Vocês três bem que poderiam ir à missa de domingo e lá convidar o Padre em meu nome.
–– Pois pronto! Nós iremos. Faz mais de mês que não vamos a uma missa – conclui Fátima – ah, o café já está na mesa. Fiz até o cuscuz.
–– Pois vamos tomar esse café. Estamos acertados? Vocês entenderam tudo?
–– Sim, pai.
–– Claro pai!
–– Xavier, você e Júnior sairão amanhã cedo, viu?
–– Viu!
Ao cair da tarde, por volta das cinco horas, quatro cavaleiros armados até os dentes, dispostos a enfrentar quaisquer desafios desmontam dos animais bem tratados, amarram-nos próximos da igreja, e um deles fica ali de plantão enquanto os outros entram. E pelo corredor, entre os bancos de madeira polida, ajoelham-se diante da cruz de Cristo no altar, benzem-se e fazem orações. O sacristão corre assustado para chamar o Padre Lauro que logo chega.

terça-feira, 25 de junho de 2019

CANGACEIROS 13




–– Coronel, o Senhor sabe que pode contar comigo para o que der e vier, além do mais, nunca lhe pedi nada, sempre deixo a seu critério.
–– É justo! Faça o serviço. Vamos planejar direitinho e agir.
–– Está bem.
–– Ah, Lucas, mais uma coisa. Estou sabendo que domingo haverá uma corrida de cavalos.
–– Estou sabendo não! E onde vai ser?
–– No povoado de Areia Grossa, sabe onde fica?
–– Sei sim Senhor!
–– Antes de sair da fazenda, avise ao Juvenal para preparar a minha égua e diga para ele que a leve amanhã cedo até uma casa mais próxima do prado. Peça a ele para vir aqui pegar o dinheiro da estadia dela por dois dias antes da corrida.
–– Mas será que tem algum apostador que tenha coragem de apostar com o Senhor. É. Porque a égua é campeã. Nunca perdeu e a fama dela corre frouxa aí no mundo.
–– Se tiver, eu não sei, mas que ela vai correr lá isso ela vai.
–– Certo patrão!
Nesse momento o carro para na frente da casa e dois homens descem. São os vereadores que veem tratar do assunto político. O coronel os vê pela janela e se apressa para recebê-los.
–– Vamos Lucas! Os homens chegaram.
–– Vamos!
O prefeito em campanha visita terreiro de candomblé e ouve o que tem a dizer o pai e a mãe de santo.
–– Bora minha gente, terminem de arrumar aí, que o homem está chegando. As mulheres já deveriam estar vestidas. Avexem aí pelo amor da Pomba-Gira – diz a dona do salão, enfeitado com bandeirolas coloridas, altar principal cheio de divindades em esculturas, entre elas um grande Preto Velho de gesso com cachimbo e bengala sentado num tamborete, Jesus de igual tamanho, São Jorge em luta com dragão, velas de sete dias, outra velas brancas e pretas acesas firmando ponto, garrafas de cachaça,  caixa de fósforo e o chão pintado com círculos, pontos com estrelas, meias-luas e símbolos. Nas paredes, pendurados, outras entidades pintadas ou desenhadas e emolduradas em quadros simples de madeira. No canto, bem no fundo salão três tambores tradicionais feitos com couros de bode curtidos e enxutos pelo sol do dia. Ao lado do segundo altar a Pomba-Gira sedutora vestida de vermelho, com um cigarro entre os dedos faz par com o Tranca Ruas e é rodeada por imagens de Oxum, Iansã, Ogum, Xangô, Exu, Oxalá, Oxóssi e Iemanjá.
O homem de barba e cabelos grisalhos, alto, magro, negro, de sorriso largo, vestido de branco posiciona-se bem na porta de madeira de duas bandas encravada na parede rebocada com argila produzida ali perto, ao lado de Jurema, sua esposa e dona do salão, ela até caprichou no batom escarlate pra mostrar os dentes brancos bem feitos. É. Porque duas coisas naquela época não se destacavam nas mulheres se não fossem o batom vermelho e o esmalte das unhas combinando com a cor do sangue num terreiro de macumba. Nos cabelos, do lado direito, uma flor natural chama a atenção. Ninguém no mundo naquele tempo sabia o que era shampoo, mas o sabão de coco lavava os cabelos tão bem que os deixava sedosos e brilhantes, limpos e bonitos. Era a única coisa que tirava a poeira fina das fibras da cabeça. E aí, era só pôr um lenço branco para combinar com as vestimentas rendadas à mão, e assim ter uma saia rendada e rodada para a hora da principal apresentação. Uma vez ou outra, os homens batucavam os tambores para testar o couro esticado e o som de arrepiar como se fora a maior festa. Esses não tocam por dinheiro e sim por amor, por fé nas entidades, assim como os gregos acreditavam em seus deuses.
–– Boa tarde, meu povo! – cumprimenta o prefeito. Como estão todos por aqui?
O homem da porta aperta a mão do político e a mulher apressas-se para abraça-lo e desejar boas vindas. Enquanto isso, as baianas formam um círculo no centro do salão, os tocadores de tambores posicionam-se e esperam o sinal para começar o batuque.
–– Seja bem vindo Senhor prefeito! Estamos bem e melhor agora com sua visita! – responde a mulher entusiasmada.
–– Vejo que seu salão progrediu! Vocês fizeram algumas reformas. Está muito bonito!
–– Obrigado prefeito! A fé do povo faz a gente acreditar que tudo pode melhorar a cada dia! – responde o marido da dona do salão.
–– Sim. É claro!
–– Precisamos que tenha melhorias nos caminhos que trazem até aqui. Sabe? Alargar essa estradinha de chão para os carros chegarem aqui com mais facilidade.
–– Claro! No próximo mês já mandarei fazer isso para beneficiar essa comunidade.
–– Prefeito, como o Senhor sabe, nós somos mais de dez famílias aqui nessa parte do povoado e a gente ainda pega água de cacimba para cozinhar e do rio para outras necessidades.
–– Pois vocês tocaram num assunto principal que eu já ia falar. Chegaram as bombas e os chafarizes que pedi ao governador há três meses. No próximo mês a gente instala.
–– Eita prefeito arretado, moço! – elogia outro dos presentes.
–– Palmas para o prefeito! Aí é macho siô! – diz outro.
–– Prefeito sente-se aqui! Preparamos uma modesta apresentação para o senhor e sua comitiva – diz a dona do salão.
–– Aqui não tem voto para o Elesbão não, Senhor prefeito – afirma um dos batuqueiros.
–– E sendo candidato do Coronel Messias, aí é que não tem mesmo – completa o companheiro ao lado.
–– Fico feliz que vocês estejam comigo.
–– O prefeito sabe que a gente é leal com o Senhor todo tempo, desde a primeira vez, pois nunca nos faltou.
–– Lealdade é a coisa mais importante numa eleição. Ou em qualquer outra situação.
–– Nós vamos é vencer essa eleição prefeito! Bote fé! – fala outra mulher entusiasmada.
–– Pois vamos começar gente – diz o pai de santo do salão.

Depois do almoço com os vereadores e de deixar tudo acertado conforme foi planejado pelo Coronel Messias...

–– Lucas, conte-me como conseguiu tirar os homens da cadeia e o que fez com eles.
(...)

CANGACEIROS 12




–– Ninguém quer passarinho aqui não, menino – diz um dos jogadores de sinuca.
–– Moço, é para ajudar lá em casa. Comprar arroz e feijão.
–– Vai estudar – fala o parceiro no jogo – se eu tivesse estudado num tava aqui jogando sinuca, sendo besta.
O menino sai de mesa em mesa oferecendo os pássaros e ninguém dá a mínima atenção. Jogador de baralho só tem olhos para as cartas. Não ouve ninguém fora do jogo. Fica matutando o jogo até descobrir qual a próxima cartada. Tem uns que varam a noite e ficam de olhos fundos.
O garoto não tem argumentos para convencer e sai, mas antes, oferece ao dono do recinto.
–– Seu Arilson compre pelo menos o bigodinho, ele cantará rapidinho assim que deixar de ficar “enfesado”, pra eu comprar nem que seja só o feijão para comer com farinha e sal. Lá em casa num tem nada hoje para comer – diz a criança com cara de tristeza.
–– Menino quanto é os três com gaiola e tudo?
–– Ah, só os passarinhos é uma coisa, agora com a gaiola é outra!
–– Sim, mas quanto é? – Insiste Arilson.
–– Bote preço! Eu tô é precisando mesmo.
–– É o seguinte: Vou lhe dar o arroz, o feijão, a farinha e o sal, mas vou soltar os pássaros e quebrar a gaiola.
–– Faça isso não seu Arilson! Uma gaiolinha dessas dá um trabalho danado para fazer.
–– Menino, você gostaria de estar numa jaula?
–– Não Senhor.
–– Então vá estudar! E venha aqui uma vez por semana que lhe dou arroz e feijão se você for para a escola ao invés de caçar passarinhos.
–– Vai me dar tudo isso agora?
–– Vou.
–– Então pode soltar e quebrar a gaiola.
–– Sim, mas você vai para a escola?
–– Não tenho mais pai para me matricular e minha mãe não tem condições de ir lá no grupo escolar. É muito longe.
–– Pois depois vem aqui que te levo para matricular, viu?
–– Viu!
–– Olha o Arilson parecendo o Papa, dando exemplo.
–– E tu tava só caladinho aí, observando, né?
–– É, mas já, já vou voltar para casa. Minha mulher tá esperando um bruguelo! – afirma Benedito.
–– Opa! Isso é bom demais!
–– Pois bota aí uma serrana!
–– Boto e digo mais. Vou ajudar no mijo do menino!
–– Pois capricha! Vai ser antes da eleição!
–– Rapaz! E tu votas em quem?
–– Eu acompanho meu pai. Em quem ele decidir votar, a gente vota.
–– Tu sabes que o melhor candidato é o prefeito, né?
–– Sim, ele é um homem de palavra. Tudo que prometeu, cumpriu, mas o meu velho é quem decide. A gente o acompanha desde a primeira votação.
–– Seu Joaquim da Silva também é um homem bom, respeitável.
–– Por isso mesmo.
–– Arilson, todo ano ele faz uma festa de aniversário, e esse ano quero te ver lá. Você nunca foi. Quero te apresentar a ele. Tu és um dos melhores amigos que tenho por essas bandas.
–– Vou mais é na hora, avexado!

Nessa manhã, na fazenda do coronel Messias, dois vereadores de oposição são esperados para o almoço.

–– Lucas, quanto tu achas que devo pagar a esses trastes da oposição?
–– Coronel vou te dizer uma coisa, eles só estão na oposição porque estão insatisfeitos com o prefeito. Talvez ele – o prefeito – não tenha dado muita importância. Não tenha dado cargos ou dinheiro.
–– Por isso mesmo. Eles foram eleitos na rabada. Os dois quase não tem votos.
–– Na minha opinião, o Coronel deve convencê-los a trazer pelo menos mais dois do lado de lá para o lado cá. E eles não vão cobrar pouco não, viu?
–– Lucas, eu tenho casas na cidade sem serventia nenhuma. Nem ocupadas elas estão. Não são grandes, mas tem um valor de mercado muito bom! O que tu achas?
–– O Senhor oferece as casas sem passar o documento agora e promete uma quantia em dinheiro caso eles consigam trazer os dois vereadores mais insatisfeito. Aí somamos quatro, o que já equilibra a balança.
–– É isso mesmo, porque o presidente da câmara não vem para cá nem a pau.
–– Esse não vem mesmo. É o mais bem votado na eleição anterior.
–– Lucas tive uma ideia melhor. Para ficar bem equilibrada mesmo essa campanha, na base do quatro a quatro, ou seja, a mesma quantidade de vereadores do lado de lá e do lado de cá, a gente poderia dar um fim no presidente.
–– O Senhor quer tirar o homem da jogada, Coronel?
–– É claro! Ele é o maior puxador de votos do prefeito. Se você fizer um serviço bem feito, digo, fazer parecer um incidente, será uma perda e tanto. Temos que ganhar essa eleição de qualquer jeito.
–– E o Elesbão ficará sabendo disso?
–– Ninguém, mas ninguém mesmo deve saber, nem o Elesbão. Isso fica só entre nós dois e mais dois homens da nossa confiança.
–– Coronel, essa é uma jogada muito arriscada num período como esse.
–– Só será arriscada se você não fizer o serviço direito. Ademais, o Delegado Jaime está na minha folha de pagamento. Então, quem é que irá investigar isso?
–– Coronel, não é aproveitando a oportunidade não, visse, mas eu tenho uma caboclinha que gosto muito. Ela ainda vive na casa dos pais e como o Senhor falou dessas casas na cidade sem serventia nenhuma, gostaria que o Senhor me desse uma para a gente se arrumar por lá, fazer um chamego, uns cafunés.
–– Eita Lucas, tu não perdes tempo.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

CANGACEIROS 11




–– Que foi que eu disse Maricota?
–– É. O Senhor tem experiência e um tino comercial de nascença.
–– É um dom, minha filha, um dom!
–– Seu Arilson, e os bois? Os donos deles não veem buscar?
–– Sei não, o delegado disse que viria pegar hoje e até agora necas de pitibiricas.
–– E a carroça?
–– Pois é, sei também não.
–– Arilson me dê aí o baralho, para a gente começar os serviços.
–– Rapaz, vocês tem que consumir alguma coisa. Ou então vou cobrar uma taxa de serviço. Oramarrapaiz!
–– Se apoquente não, moço! Bote aí logo uma branquinha para molhar a goela.
–– Assim é que eu gosto. E hoje não tem fiado. Não vendi quase nada ontem por conta do que aconteceu.
–– É no dinheiro, Seu Arilson.
–– Olhe, avise aos seus pariceiros para não quebrar os cantos das cartas. Baralho novo é caro e é longe para compar.
–– Deixe comigo.
–– Você vai ficar responsável. Esse aí ainda tá na caixa, visse?
–– Eita diacho! Tá novinho véi!
–– Arilson, cadê a chave da gaveta da sinuca?
–– Está aqui, olha! Já avisei. Hoje nada de fiado.
–– Tá certo meu patrão!
–– Ei, tem caldo de que aí?
–– Rapaz, só se for de feijão! Serve?
–– Não. Tem buchada de bode?
–– Tá quase no ponto – diz a mulher.
–– Deixa o meu aí. Tô com uma fome da mulesta!
–– Assim que terminar aviso.
–– Tá bom!
–– Arilson bota uma dose de água que passarinho não bebe para mim.
–– Mais é agora, avexado.
–– Ei, me diz uma coisa. Como que está o nosso candidato? Qual é a cotação aí na boca do povo? – pergunta outro.
–– Rapaz, ele não perde nem a pau pro Elesbão, candidato do Coronel.
–– Tu acha mesmo?
–– Perde é porra. Se depender de mim e dos meus amigos, a gente vai botar para eleger de novo. Oh, homem bom, visse?
–– Rapaz, eu soube que o Coronel tá gastando meio mundo de dinheiro.
–– É. Eu sei disso. Ali nem se acaba nem fica pouco. O homem é podre de rico, mas o candidato dele é fraco. Não tem simpatia. Nunca botou os pés aqui – afirma Arilson.
–– Ah, mas quando tiver mais próximo da eleição ele vem que é um doce prometendo mundos e fundos.
–– Pode até vir, mas meu voto é do prefeito.
–– Se ele vier, a gente pega o dinheiro dele e vota no prefeito.
–– Crie vergonha na cara, homem. Vote por acreditar num homem que promete e faz. Saiba dizer não a esses miseráveis que só querem tirar proveito da política e das fraquezas do povo.
–– Tô brincando rapaz.
–– Tá nada. Tu é sem vergonha que eu sei.
–– Hómi respeite a polícia, rapá!
–– Polícia de bosta, tu.
–– Como é muié, essa buchada sai ou não?
–– Calma moço, tá quase no ponto.
–– Égua Chico Doca, num aperrei ela não.
–– Vou jogar cinco partidas aqui pra ganhar o dinheiro dos patos e pagar essa buchada e as pingas.
–– Vai é porra! – responde o parceiro.
–– Arilson, corta aí um mercado de fumo para eu fazer um cigarro.
–– Quanto?
–– Dando cinco cigarros tá bom. Bota desse rolo mais sequinho, o mais verde só serve para mascar.
–– Certo!
–– Ei menino, a buchada tá pronta.
–– Espera aí. Xô terminar essa “mão”.
–– Exe abirobado tava num vexame monstro e agora manda esperar.
–– E pelo visto ele vai é perder essa partida! – diz Arilson.
–– Vou nada! Dei foi uma sinuca de bico nele. Sai dessa aí bichão, que eu duvido D-ó-dó!
–– Eita porra! Essa foi de lascar.
–– Ei desgraça, tu já começou a roubar? – grita um dos jogadores de baralho.
–– Me respeita cara de fuinha – diz o outro.
–– Bati, oramarrapá – diz um terceiro.
–– Bora mudar esse jogo. Agora é “fó e bate corrido” – propõe outro parceiro.
Nesse momento um menino de aproximadamente doze anos entra na bodega, pés descalços, só de calção, com um estilingue no pescoço e uma gaiola feita de talo de buriti na mão direita, oferecendo um chico preto, um galo campina e um bigodinho (brabos) os dois primeiros pegos no alçapão e o bigode pegado no visgo.
–– Aí, quem quer comprar um passarinho?
(...)

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Cangaceiros 10

                                                      Foto ilustrativa da web


A criada avisa que a mesa está servida, que sua esposa o espera e ele responde que em instantes irá jantar. Depois que falar com o filho.

Nesta noite, o prefeito faz visita à Dona Maroca - que não tem dinheiro sequer para comprar as velas - mãe da moça encontrada morta e ao pai do rapaz também na mesma situação, Manoel Espicha Couro e promete uma pensão com fundo criado recentemente. Não é bem um salário, mas é um bom adjuntório e enquanto prefeito ele for e como bom político, aproveita e pede votos para a eleição que se aproxima. Também não esquece de dar uns trocados para as vela ao sair. Cumprimenta novamente os poucos que estão no velório aperta a mão de cada um, abraça, dá tapinhas nas costas, se despede e sai.

Do outro lado da montanha, bem distante da cidade, onde há geografia de caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, predominam cactos de várias espécies e diversificada biodiversidade. Dificilmente será encontrada em algum outro lugar do planeta. Território inóspito no meio do nada abriga um bando de cangaceiros que ao contrário de muitos não saqueiam as cidades e assim como índios da região, estão em paz, vivendo a duras penas da agricultura precária, da caça e da pesca mais distante ainda, principalmente quando São Pedro não abre as portas do céu para banhar a terra e encher os rios.

Gerônimo, homem alto, forte, de pele queimada pelo clima árido e muitas cicatrizes deixadas pelas lutas que já travou, pela hierarquia e a idade é o chefe do bando que tem entre homens e mulheres aproximadamente cento e cinquenta membros. Um cabra de palavra e sobretudo respeitado;  quando diz que pau é pedra nem que não seja, é bom concordar.

Hoje, mais do que nunca, Gerônimo está sorrindo, feliz da vida, o que é uma raridade, acabou de nascer seu filho. É um bebê robusto, apesar de tudo; a companheira do chefe e mãe da criança passa bem, graças aos serviços delicados da parteira que vive ali.

É uma noite de festa sem muitas pompas, fogueiras são acesas e as garrafas de cachaça serrana guardadas para esse dia foram liberadas. O resultado da caçada foi positivo e as carnes de veados, cutias, preás e capivaras chiam na brasa. A farinha branca de mandioca, queijo assado e pimenta também faz parte do cardápio.

Gerônimo tem no Pároco da cidade, o Padre Lauro, um forte aliado e esse de forma generosa ajuda com parte da verba que recebe mensal da prefeitura, além de ser irmão da mulher negra que vive com o cangaceiro. E por ter laços familiares, a amizade torna-se mais sólida a cada dia. O Padre uma vez por mês tem encontro em lugares diferentes com o chefe do bando, para entregar o dinheiro, fruto da doação. Em outra ocasião, no passado, o Padre Lauro passou algum tempo com o bando, pregando a palavra de Deus e ensinou Gerônimo no tempo livre, a ler e escrever;  deixou essa pequena herança de aprendizagem a cargo da irmã, para  alfabetizar o bando, dando inclusive alguns livros.

Arilson chegou cedo na bodega, abriu as portas, varreu tudo com uma vassoura de piaçava, ajeitou as mesas, passou espanador de penas na sinuca, ajeitou as garrafas de cachaça serrana na prateleira, acendeu um cigarro pau-ronca feito das cordas de fumo Arapiraca que ele vende no rolo ou cortado em retalhos, sentou-se num tamborete de couro de bode curtido e pôs os pés em cima do outro e ficou com as costas encostadas na parede.
–– Bom dia Arilson! – cumprimenta a mulher raquítica que o ajuda na bodega e faz a comida.
–– Bom dia Maricota! Acenda o fogareiro que o dia hoje promete.
–– Como é que o Senhor sabe disso?
–– Minha filha, depois daquele furdunço de ontem, aqui vai chover de gente para fofocar. Se prepare!
–– E o que boto no fogo para cozinhar?
–– Faz panelada, buchada, feijão tropeiro, arroz, macaxeira assada, jerimum e farofa.
–– O Senhor tá bem otimista!
–– Estou!
–– Bom dia! – cumprimenta um caboclo enquanto amarra o burro.
–– Bom dia!
Pouco tempo depois Benedito decide parar na bodega.
–– Bom dia!
–– Bom dia Benedito!
–– Hoje ficarei por aqui até mais tarde. Jogar umas partidas de sinuca.
–– Pois seja bem vindo, amigo!
E assim, em pouco mais de uma hora o local está apinhado de gente como previu Arilson.
(...)

domingo, 16 de junho de 2019

CANGACEIROS 9




–– Pois é. O que vamos fazer?
–– O Jaime prendeu os homens?
–– Prendeu.
–– Pois vamos ter que dar cabo deles antes que deem com a língua nos dentes.
–– E as famílias deles?
–– Depois a gente vê isso. Primeiro temos que apagar essas provas e você vai resolver pessoalmente. É o menos suspeito.
–– Como?
–– Você vai convencer o Delegado Jaime a deixar os presos  saírem e faça parecer que eles fugiram com a ajuda de alguém. Arrebente as grades, sei lá. Depois atirem neles mais longe e levem os corpos para a beira do rio. Vão pensar que foi vingança. Mas tem que ser de hoje para amanhã. Ah, leve esse dinheiro para ele e diga-lhe para ficar de boca fechada – ordena o Coronel.
–– Certo.
–– O prefeito já sabe?
–– Acho que não. Ainda é muito cedo para dizer.
–– O diabo desse prefeito é querido pelo povo e está bem cotado para reeleição. Temos que virar esse jogo. Amanhã vou à câmara tentar uma conversa com os vereadores.
–– Posso falar?
–– Pode!
–– Não é melhor o Senhor chama-los aqui na fazenda, dar um jantar?
–– Não. Isso chama a atenção do povo.
–– Então mande um recado e convide de dois em dois para uma conversa aqui ou na casa de cada um, afinal são só nove vereadores.
–– É. Mas tem três que são fidelíssimos ao prefeito e mais dois que o apoiam em tudo.
–– Pois comece a conversar com os dois mais insatisfeitos da oposição. Eles podem atiçar a ambição dos outros.
–– Por isso que gosto de lhe ouvir, Lucas. Em uma semana quero todos na palma da minha mão. Tenho recursos para isso.
–– Pois vá por aí que é o certo.
–– Conversarei com o Elesbão, nosso candidato sobre isso. Agora vá.
–– Sim chefe! Ah, tem mais uma coisa. O Arilson tá planejando um grande evento de lutas, arrasta-pé, comes e bebes e o diabo a quatro.
–– E quando vai ser isso?
–– Tão dizendo que é daqui a um mês a abertura.
–– Tá preparando terreno para a porra do candidato dele. Ele sempre apoiou o prefeito.
–– É. O Senhor sabe que nessas coisas o povo comparece em peso.
–– Pois vamos nos preparar para dar o troco. A gente fala disso mais tarde. Primeiro resolva essa porcaria que está aí.
–– Certo chefe!
Antes que Lucas saia da sala, outro capanga entra com notícia não muito agradável.
–– Coronel! Temos mais dois corpos!
–– Puta que pariu! Hoje é o dia dos mortos, é? Foram os dois que estavam no tronco?
–– Não Senhor. Esses estão vivos. Foi lá no canavial. Os dois já são de idade mais avançada.
––Pois não quero nem ver. Enterra lá para as bandas de riba do canavial. Fora da plantação, bem distante. Cuide disso.
–– Está bem, Coronel.
–– Ah, solta os dois que estão no tronco, manda alguém cuidar deles para ver se dá para trabalharem amanhã.
–– Coronel...
–– Faça o que estou mandando, cabra!
–– Sim, Senhor!
–– Tá vendo Lucas? Quatro a menos! Onde é que vamos parar? Vai, vai tua viagem.
–– Sim Senhor, Coronel!
Lucas abre a porta do escritório, cumprimenta Júlia apenas com um gesto pegando na aba do chapéu e se apressa para cumprir a missão enquanto ela entra.
–– Pai, com sua licença!
–– Claro, filha!
–– Quero lhe pedir para ir à missa de Domingo!
–– Sim! Permissão concedida! Se você quiser, eu a levo!
–– Não precisa! O Senhor de certo estará muito ocupado. Basta autorizar o Jeep ou a rural e o Damião irá comigo.
–– Seu irmão quer ir para a missa também?
–– Não sei, mas falo com ele para a gente ir. Está bem para o Senhor?
–– Sim, claro! E sua mãe?
–– Não sei ainda. Então está bem, pai! Muito agradecida, viu? – Júlia aproxima-se do pai e o beija na face.
–– Diga para seu irmão vir aqui, querida!
–– Sim, Senhor.
(...)

sábado, 15 de junho de 2019

CANGACEIROS 8

                                               Imagem meramente ilustrativa da web


–– Seu Manoel, vou trazer uma rede para o Senhor também levar seu filho para casa – o homem apenas balança a cabeça confirmando, sem dar uma palavra.

Diante da tristeza, da dor da perda, da morte, as pessoas têm reações diferentes. Algumas choram muito, gritam, silenciam e até sorriem, porém, o sentimento é o mesmo: amor. É como se perdesse um pedaço de si, quando alguém parte para outro plano.

O Jeep e uma rural abrem caminho em meio a multidão ao entardecer. O delegado, o cabo e um soldado descem das viaturas oficiais para apurar o caso.

–– Boa tarde, Senhores e Senhoras! O que realmente aconteceu aqui? – Pergunta o Delegado.
–– Aqueles dois homens amarrados ali são os responsáveis pelo carro de boi – afirma Arilson.
–– Cabo, prenda-os e algeme-os, coloque-os no Jeep e leve-os para delegacia, para interrogatório. Vai e volta para me pegar que vou ter uma conversa de pé de orelha por aqui.
–– Sim, Senhor!
–– E quanto aos corpos? - Indaga Arilson.
–– Vou disponibilizar a rural para leva-los para suas casas. Como não temos necrotério, cada família se responsabilizará para fazer o funeral.
–– E agora o que você vai fazer? – pergunta outra pessoa.
–– Que pergunta mais idiota! Acabei de explicar. Aqui não tem mais o que fazer. Vou prender os homens, interroga-los e mandar os corpos para casa.
–– E quanto ao carro de bois? – indaga Arilson.
–– Bem. Não há como consertar agora. Tirem-no dali e coloquem no pé da cerca que depois mando buscar.
–– Quando?
–– Amanhã. Estamos entendidos?
–– Éguati! Esse foi o processo mais ligeiro que já vi. Ô delegadin véi ligeiro da porra, siô! – diz um dos caboclos para o outro, em voz baixa      com a mão na boca para disfarçar.
–– Óia, tu deixa de muganga, porque se o homem ouvir isso quem vai preso é tu.
–– Delegado, o Arilson deu duas redes para levar os corpos – acentua Benedito.
–– Pois ajudem a colocar nas redes e na rural que vamos tudo duma vez quando o cabo vier. E na delegacia esses cabras vão falar tudo, tim, tim por tim, tim, nem que seja na base da pêa.

Enquanto o Delegado Jaime interroga os transeuntes e caboclos sobre o acontecido, Lucas estaciona o Jeep na propriedade de Coronel Messias, desce do carro apressado e corre para avisar o chefe sobre o incidente lá nas bandas de “Jatobá”, povoado desenvolvido mais próximo da cidade de Olho d’água.

–– Coronel! Coronel! Preciso falar com o Senhor urgente!

O Coronel que estava numa mesa farta a tomar café com bolo, queijo e outras iguarias no final da tarde, levanta-se e o convida para irem ao escritório.
–– Vamos ali para a sala de escritório. Tu tá amarelo que só flor de algodão. Fala homem.
–– Coronel, o tiro saiu pela culatra. A moça e o rapaz que o senhor mandou enterrar lá no sítio do Zé Pezão foram descobertos.
–– Como? Quem descobriu?
–– Não foi ninguém não. Segundo os relatos do povo que foi dar queixa lá na delegacia, quando eu estava lá, exatamente na hora do pagamento, disseram que a roda do carro de boi quebrou, caiu e os defuntos apareceram.
–– E quem viu isso acontecer?
–– Todo mundo que estava no bar do Arilson.
–– Tinha que ser na porta desse merda! Que diabo homem! Bem agora que estamos preparando a campanha de nosso candidato.
(...)

sexta-feira, 14 de junho de 2019

CANGACEIROS 7




–– Na, na bó, bó, bodega do-do Ari-arilson.
–– Senhor Delegado o caso é sério! – confirma a história Chico Preto – um homem e uma mulher foram encontrados mortos dentro do carro de bois, em frente à bodega do Arilson.
–– Agora entendi tudinho. Quem matou quem?
–– Ai que está o problema, Senhor delegado.
–– A ro-roda, a roda...
–– Gaguinho deixa só o Chico Preto falar.
–– T-tá bom.
–– Delegado o Gaguinho estava lá na hora do acidente.
–– Do crime?
–– Não. Ele viu quando a roda quebrou e caiu. Aí os corpos apareceram. Estavam escondidos entre as canas.
–– Esperem lá fora ou podem ir embora se quiserem. Vou tomar as providências.
–– Certo! Senhor. Vamos voltar, mas o Senhor precisa ir lá ligeiro bala.
–– Agora vão. Lucas, diga-me uma coisa, foi por isso que recebi esse dinheiro hoje?
–– Não era para ser assim. Coisa ruim acontece, mas o que você vai fazer agora?
–– É complicado! Pelo visto, muita gente já sabe disso.
–– Dê seus pulos, Delegado. Resolva o caso.
–– Olha como fala comigo, Lucas. Ah, e diga ao Coronel que qualquer coisa, estamos às ordens.
–– Pois resolva. Estou de saída. E é melhor que seja rápido. O patrão não vai gostar se algo der errado, principalmente que esse ano tem eleição.
–– É. Eu sei. Não precisa me lembrar. Quer dar uma passada por lá?
–– Quero nada. Até mais ver!
–– Até!

Depois de algumas horas, Dona Maroca chega ao local, na garupa do cavalo de um amigo. A mulher já vem se desmanchando em prantos. O marido também se encontrava em casa e agora chega montado em riba dum jumento cardão com jeito de burro; no lombo a cangalha de madeira e palha de carnaúba forrada com uma esteira confeccionada artesanalmente com o mesmo material do coqueiro.

–– Minha filha! Oh meu Deus! O que fizeram com você? O que esses malditos fizeram com você? Me ajudem! Me ajudem a tirar minha filha desse sofrimento, pelo amor de Deus! – chora e grita dona Maroca abraçada com o corpo da filha.
–– Se acalme Dona Maroca! Deus é maior! – Diz uma Senhora tentando consolar a mulher.
–– Mulher, como eu posso ter calma num momento desses? Oh, meu Deus! Meu Cristo! Ela não merecia uma morte dessas! O que eu vou fazer sem você? Deve ter sido apanhada, surrada. É muito sofrimento para uma pessoa só.
–– Dona Maroca, trouxe uma rede tapuerana para a Senhora levar o corpo de sua filha para casa. Os homens vão ajuda-la – decide Arilson sensibilizado.
–– Tá bom, meu filho. Depois eu pago, quando puder.
–– A Senhora não precisa me pagar essa rede. Esse é o meu adjuntório.
–– Oh, meu Jesus! Deus te pague em dobro, filho!
–– Ei, não tira os corpos agora, não! Deixa a polícia chegar – fala Benedito.

E nesse momento o Manoel Espicha Couro, pai do rapaz que também está na carroça chega ao local com lágrimas nos olhos e uma tristeza profunda. Em silêncio desce da montaria e dirige-se ao encontro do filho. Abraça-o como se fosse o último dia de sua vida, demonstra seu amor e calado, olha nos olhos dos dois homens amarrados. Parece querer fulmina-los com o olhar carrancudo que penetra a alma, mas se contém como homem que é e permanece calado ao lado corpo.
(...)