quinta-feira, 27 de junho de 2019

CANGACEIROS 16




–– Então compro todas e pago no dinheiro. Dinheiro em meu bolso é como fome cearense, nem se acaba e nem fica pouco. Bebida e comida para todos. Por conta de nosso candidato, o futuro prefeito de Olho D’água: Elesbão.

Mesmo ouvindo o nome do candidato, com bebida e comida de graça, os jogadores do recinto não se manifestam e ficam em silêncio por um instante. Arilson, sensato, fala ao filho do fazendeiro.

–– O Senhor não gostaria de passar amanhã, de dia para conversar com o povo de Jatobá? Esses aí são só jogadores da região.
–– E essas porras não tem voto não?
–– Tem, Senhor, mas o Senhor já bebeu muito. É melhor vir amanhã.
–– Gerônimo termina de comer a panelada e pede mais uma dose para beber e ir embora.
–– Senhor, traga-me uma dose dessa cachaça. Quero partir.

O outro cangaceiro, com a espingarda apoiada no bico da bota também pede mais uma dose e os dois que estavam fora entram para comer no balcão da bodega.

–– O que diabo é isso? Todo mundo agora anda armado nessa espelunca?
–– Senhor, esses homens estão de passagem e vieram para comer. Nunca antes passaram por aqui. Nem eleitores eles são – diz Arilson querendo apaziguar a situação.
–– Pois bote a cachaça em cima do balcão. Quero ver todo mundo beber e comemorar a vitória de Elesbão, o nosso candidato.
–– Olhe, eu boto, mas só bebe quem quiser.
–– Quanto devo? – pergunta Gerônimo.
–– Não deve nada filho da puta. Não tá vendo que quem paga as coisas aqui sou eu, filho do Coronel Messias?
–– Rapaz, você é muito jovem para morrer.
–– E quem vai me matar filho duma égua?
–– Quanto devo ao Senhor? – Gerônimo faz ouvido de mercador.
–– Não precisa pagar, não, Senhor. Só quero paz no meu recinto.
–– Agora esse filho duma égua vai pagar é a despesa toda. Tá pensando o quê? Chega, come, bebe e sai sem pagar?
–– Eu não respeito quem não me respeita, não conheço teu pai. E num lance rápido e certeiro Gerônimo segura o pescoço do homem com a mão esquerda, saca o punhal afiado com a direita e corta a orelha do filho do coronel, ali mesmo, em pé. Os homens do rapaz apontam as armas, mas percebem que canos gelados de espingardas estão em suas nucas.
–– A tua orelha ficará em meu cordão de desafetos – diz Gerônimo com o punhal no pescoço do jovem – e se quiser ficar vivo diga a seus homens para largar as armas e se deitarem no chão.
–– Desgraçado! Façam o que ele diz.
Os homens entreolham-se, largam as armas e deitam-se. Os jogadores afastam-se sem nenhuma intromissão.
–– Joguem as facas também. Tem corda aí?
–– Tem Senhor.
–– Traga aqui. Quero todos amarrados. E vamos levar as armas também. Jeremias tira a chave do carro e joga no cercado – ordena Gerônimo a um dos seus - Isso é para tu respeitar cara de homem, cabra sem vergonha. Está vendo isso aqui? – mostra nos peitos as orelhas secas enfiadas num cordão de couro – são meus desafetos. Todos mortos.
–– E ele tá é com sorte que o Capitão não cortou a garganta dele.
–– Não conheço teu pai, mas ele não ficará contente em ver o filho valentão sem orelha. Vamos embora! – Gerônimo é homem de honra e antes de sair, puxa do bolso o dinheiro em cédula, põe sobre o balcão e paga sua despesa, nem pede troco.

Os cangaceiros montam os cavalos e desaparecem na escuridão.

Inácio dos Reis, filho do Coronel Messias, humilhado que foi, continua arrogante, dando ordens, mesmo que ainda esteja envergonhado.

–– Vamos! Vocês aí, me desamarrem.
–– Soltem a gente – diz o outro jagunço contorcendo-se no chão.

Arilson faz ouvido de mercador e ajeita as cadeiras ao redor das mesas, talvez com medo de que eles voltem para terminar o serviço.

–– Soltem-nos – ordena o comerciante.

E depois que todos são desamarrados, lançam mãos dos candeeiros para procurar as chaves do carro. Como não é tão fácil encontrar, desistem e esperam que o dia amanheça para procurar com mais cuidado e enquanto o sol não aparece, tomam mais cachaça e dormem ali no alpendre. Arilson com pena, pede licença, entrega três redes para Inácio armar, manda os clientes para casa e se tranca por dentro.

No dia seguinte, com os primeiros raios do sol e os galos cantando, os homens ainda ressacados levantam-se e batem na porta de Arilson.

–– Senhor Arilson, acorda. Arranje aí água para a gente beber.
–– Água e um café bem forte para curar  a ressaca.
–– Vamos caçar a porra dessa chave logo, enquanto ele abre a bodega.
–– Abra a bodega, moço. Temos dinheiro para pagar.
–– Já estou indo. Tenha calma aí. Oramarrapá!
–– Rapaz  tu que jogou a chave deve saber mais ou menos onde caiu.
–– Espera aí, que já vou ver.

Os jagunços pisam no mato seco, nos capins, arrastam os pés para um lado e outro. Ciscam como galinhas no terreiro e depois de mais de uma hora, encontram.

–– Achei! Achei!
–– Pois traz aqui, avexado!
–– O café está pronto. Fiz umas tapiocas também.
–– Tem manteiga da terra aí?
–– Tem.
–– Pois bota aqui para nós comer.
–– Frita ovos também.
–– É para já.

Após tomar o café da manhã, Inácio paga a despesa e os homens entram no carro que deixa o rastro de poeira de tanta pressa que eles tem de sair dali.

CANGACEIROS 15




–– Gerônimo! Seja bem vindo à casa de Deus, meu filho!
–– Padre, meu filho nasceu! Quero que o batize!
–– É um menino?
–– Com a graça de Deus, Padre, se chamará Gerônimo!
–– E quando você pretende trazê-lo aqui para o batismo?
–– Não quero batiza-lo aqui, Padre!
–– Porque não, filho? Aqui é a casa de Deus!
–– Padre, foi o Senhor mesmo quem disse que onde houver mais de um, lá estará Deus, então, meu filho nasceu na caatinga e quero batiza-lo lá. É lá que estão os meus. Dará muito na vista estarmos todos aqui num mesmo dia, pois ninguém virá desarmado. Não somos bem vindos aqui.

A conversa é mantida no pé do altar sem muitas cerimônias nem ninguém para se intrometer.

–– Porque você não me mandou um mensageiro?
–– Padre não preciso de mensageiros para resolver minhas questões.
–– Eu sei, eu sei. E quando você quer o batismo?
–– Daqui a uma semana. E depois dessa eleição quero casar-me.
–– Que maravilha! Deus ficará contente de sua união com minha irmã.
–– Não só ele, nós também.
–– Então marque o dia certo que irei. Tenho umas coisas para falar para vocês sobre seu passado.
–– E tem?
–– Tenho. Quero falar sobre o que aconteceu com seus antepassados há uns cinquenta anos.
–– Pois pronto! Em sete dias o Senhor irá ao nosso acampamento, sozinho, daremos proteção no caminho, mesmo que não nos veja, estaremos esperando pelo Senhor.
–– Levarei dois São Cristãos comigo. São meus auxiliares.
–– Leve-os e serão bem vindos! Era só isso Padre Lauro. Estamos acertados?
–– Estamos. Estaremos lá.
–– Adeus Padre!
–– Adeus!

Os homens não perdem tempo e saem como chegaram, sem muito chamar a atenção a não ser pelo armamento e as vestes. Seguem pelo mesmo caminho de volta, mas Gerônimo, astuto, decide que não irão por onde vieram para evitar algum conflito, e então vão por uma estradinha de chão que vai dar na bodega do Arilson.
–– Capitão tem uma parada ali na frente. Parece um bar.
–– A caminhada é longa. Vamos parar lá para comer e beber alguma coisa. Depois partiremos. Chegaremos de madrugada em casa.
–– Certo Capitão!

Os lampiões já estão acesos na frente da bodega de Arilson. Há cavalos amarrados na cerca, burros também e alguns jumentos selados, quietinhos esperando por seus donos enquanto jogam e bebem.

–– Quero entrar sozinho lá. Ninguém nos conhece. Fiquem atrás e só um entra depois, dois ficam fora. Como se não nos conhecêssemos, ocupem mesas diferentes ou fiquem em pontos que possam ver tudo como os calangos. Entenderam?
–– Sim, meu capitão!
E assim é feito.
–– Quero comer alguma coisa e tomar uma talargada de cachaça.
–– Tenho só panelada, mas preciso requentar – diz Arilson.
–– Serve. Eu espero.
–– Aquela mesa ali está desocupada Senhor. Pode se sentar lá.
Os jogadores de baralho nem notam que um cangaceiro apoderou-se de uma mesa no canto onde dá para ver quem entra e quem sai; os jogadores de sinuca entreolham-se e continuam jogando, enquanto um segundo homem adentra o recinto.
–– Estou com uma fome danada, o que tem para comer?
–– Só tenho panelada!
–– Serve!
–– Sente-se aqui desse lado. Nessa mesa – diz Arilson, acostumado com todo tipo de gente. Vou esquentar seu prato.
–– Gosto com pimenta. Tem pimenta aí?
–– Tem sim, Senhor. Malagueta!
–– Então bota umas dez! E faz mais dois pratos.
–– Sim, Senhor. Três pratos. Não é?
–– Isso! Faz três pratos!

A luz dos candeeiros, pendurados nos caibros da biqueira da casa não clareiam muito, e nem dá para ver com nitidez quem está a dez metros. Nesse momento para um carro na frente da bodega e descem quatro homens, um deles é o filho mais velho do Coronel Messias, jovem de aproximadamente 28 anos, metido a valente e conhecido por sua arrogância por onde passa em toda a região. Só anda armado e deixa a arma à vista na cintura. Os outros três homens ficam no peitoril da bodega esperando a reação do patrão.

–– Olá! Estamos com vontade de comer uma coisinha de sal. O que tem para comer?
–– Tem mais nada não. Se o senhor esperar, posso fazer uma buchada. Já tá temperada – conforta Arilson por um segundo, enquanto leva o prato do capitão para a mesa.
–– E esse prato aí, de que é?
––É panelada, mas é desse moço aqui que esperou requentar.
–– Bota aí umas pingas para nós. Quatro doses.
––Tá bom, Senhor.
–– Avexado cabra!
–– Já tô botando, visse?

O filho do coronel bebe e pede outra. –– Bebam meus amigos, é por minha conta. Por conta do Elesbão, nosso candidato! Vou pagar uma rodada para todos agora. Bote aí bebida para todos. Aliás, tem quantas garrafas de cachaça aí?

–– Tem bastante, Senhor! – diz Arilson.
(...)

quarta-feira, 26 de junho de 2019

CANGACEIROS 14




–– Ah, Coronel, não foi tão difícil assim. Conversei abertamente com o Delegado, menti sobre uma ocorrência em outro povoado e fiz com que ele saísse em diligência juntamente com os policiais deixando só o escrivão, e aí foi fácil. Batemos nele e levamos os presos para fora da cidade conforme suas ordens.
–– Deram fim neles?
–– Sim, claro! E os enterramos num lugar que ninguém achará a ossada.
–– Muito bem! Caso encerrado. Agora vá cuidar do presidente da Câmara.
–– Estamos esquecendo do mais forte aliado do prefeito. Aquele que poderia inclusive ser o candidato dele.
–– Quem?
–– O Padre Lauro. Homem carismático. Querido pelo povo, pelos fiéis e com influência política nessa administração.
–– Realmente ele é muito forte politicamente, mas não é candidato a nada e não tem substituto.
–– Não. Não tem, mas pode atrapalhar na eleição.
–– Vamos manter as coisas como estão. O alvo agora é o presidente da Câmara. Depois pensamos o que fazer com o padreco, aliás, tenho planos para ele.   
Lucas põe o plano em ação:
O prefeito depois de prestar suas condolências às famílias da moça e do rapaz assassinados, decide ir até a delegacia conversar com Jaime e é então que descobre que eles sumiram e cobra respostas  ao delegado. Após essa visita, vai à igreja ter um diálogo com o Padre e pede a missa de Domingo em nome das famílias e o padre faz o sermão em homenagem a filha de Maroca e ao filho de Espicha Couro.
Nessa tarde, Joaquim da Silva reúne os filhos em casa para conversar e fazer os preparativos da festa anual de seu aniversário.
–– Xavier venha cá, meu filho. Sente-se aqui. Júnior, venha aqui perto de mim também.
–– Sim meu pai.
–– É o seguinte: Xavier você irá à casa de Benedito, dizer-lhe para vir uma semana antes com a esposa. Converse com ele e depois vá à casa de Francisco e diga a mesma coisa.
–– E eu pai, o que devo fazer? – indaga Júnior.
–– Você irá à casa de João que é mais perto. Quero todos aqui no mesmo dia para tratar dessa eleição também.
–– Porque que tem que ser todos no mesmo dia pai? – pergunta Fátima.
–– Porque quero matar um bode para a gente comer, afinal, faz mais de ano que não os vejo.
–– Pai, ainda falta dois meses para seu aniversário. E eles sabem que o Senhor faz essa festa todo ano – lembra Xavier.
–– Sim, eu sei, mas quero tratar desses assuntos o quanto antes.
–– Tá certo. O Senhor é quem sabe.
–– Vou passar um café para nós, pai.
–– Vai filha.
–– Joaquim, esse ano terá alguma coisa diferente?
–– Sim, tem. Quero convidar todos os mendigos, cegos e aleijados da cidade para virem comer aqui. Quero um banquete para todos. Foi uma promessa que fiz.
–– Está certo meu véio.
–– E olhe que não é por interesse político não. É promessa viu? Quero um almoço com fartura. E que ninguém fique de fora.
–– O prefeito vem?
–– Não sei. Vou convidar, se ele vier, ótimo.
–– E o Padre?
–– Também será convidado.
–– Pai e os políticos do lado do prefeito, vem.
–– Olhe, não vou convidar esses não. Sei que podem até vir. Somos amigos, mas não se trata de reunião política. É o meu aniversário.
–– Você sabe que eles não perdem uma boquinha dessas – diz a mulher.
–– Pois deixem que venham, mas não vamos ter discursos e nem irei aceitar que peçam votos.
–– Aí sim. Fica melhor assim – confirma a esposa.
–– Convidem em meu nome os padrinhos, tias e tios de vocês, não sei se terei tempo para isso. Ah, os convidados estão dispensados de trazer presentes esse ano.
–– Oxe! Porque pai – pergunta a menina.
–– Esse povo já vive com sacrifícios e para me agradar são capaz de trazer até o melhor animal que poderiam comer mais tarde. Então não precisa. Aqui nós temos tudo e devemos agradecer a Deus.
–– O pai tá certo, viu? – afirma Júnior.
–– Vocês três bem que poderiam ir à missa de domingo e lá convidar o Padre em meu nome.
–– Pois pronto! Nós iremos. Faz mais de mês que não vamos a uma missa – conclui Fátima – ah, o café já está na mesa. Fiz até o cuscuz.
–– Pois vamos tomar esse café. Estamos acertados? Vocês entenderam tudo?
–– Sim, pai.
–– Claro pai!
–– Xavier, você e Júnior sairão amanhã cedo, viu?
–– Viu!
Ao cair da tarde, por volta das cinco horas, quatro cavaleiros armados até os dentes, dispostos a enfrentar quaisquer desafios desmontam dos animais bem tratados, amarram-nos próximos da igreja, e um deles fica ali de plantão enquanto os outros entram. E pelo corredor, entre os bancos de madeira polida, ajoelham-se diante da cruz de Cristo no altar, benzem-se e fazem orações. O sacristão corre assustado para chamar o Padre Lauro que logo chega.

terça-feira, 25 de junho de 2019

CANGACEIROS 13




–– Coronel, o Senhor sabe que pode contar comigo para o que der e vier, além do mais, nunca lhe pedi nada, sempre deixo a seu critério.
–– É justo! Faça o serviço. Vamos planejar direitinho e agir.
–– Está bem.
–– Ah, Lucas, mais uma coisa. Estou sabendo que domingo haverá uma corrida de cavalos.
–– Estou sabendo não! E onde vai ser?
–– No povoado de Areia Grossa, sabe onde fica?
–– Sei sim Senhor!
–– Antes de sair da fazenda, avise ao Juvenal para preparar a minha égua e diga para ele que a leve amanhã cedo até uma casa mais próxima do prado. Peça a ele para vir aqui pegar o dinheiro da estadia dela por dois dias antes da corrida.
–– Mas será que tem algum apostador que tenha coragem de apostar com o Senhor. É. Porque a égua é campeã. Nunca perdeu e a fama dela corre frouxa aí no mundo.
–– Se tiver, eu não sei, mas que ela vai correr lá isso ela vai.
–– Certo patrão!
Nesse momento o carro para na frente da casa e dois homens descem. São os vereadores que veem tratar do assunto político. O coronel os vê pela janela e se apressa para recebê-los.
–– Vamos Lucas! Os homens chegaram.
–– Vamos!
O prefeito em campanha visita terreiro de candomblé e ouve o que tem a dizer o pai e a mãe de santo.
–– Bora minha gente, terminem de arrumar aí, que o homem está chegando. As mulheres já deveriam estar vestidas. Avexem aí pelo amor da Pomba-Gira – diz a dona do salão, enfeitado com bandeirolas coloridas, altar principal cheio de divindades em esculturas, entre elas um grande Preto Velho de gesso com cachimbo e bengala sentado num tamborete, Jesus de igual tamanho, São Jorge em luta com dragão, velas de sete dias, outra velas brancas e pretas acesas firmando ponto, garrafas de cachaça,  caixa de fósforo e o chão pintado com círculos, pontos com estrelas, meias-luas e símbolos. Nas paredes, pendurados, outras entidades pintadas ou desenhadas e emolduradas em quadros simples de madeira. No canto, bem no fundo salão três tambores tradicionais feitos com couros de bode curtidos e enxutos pelo sol do dia. Ao lado do segundo altar a Pomba-Gira sedutora vestida de vermelho, com um cigarro entre os dedos faz par com o Tranca Ruas e é rodeada por imagens de Oxum, Iansã, Ogum, Xangô, Exu, Oxalá, Oxóssi e Iemanjá.
O homem de barba e cabelos grisalhos, alto, magro, negro, de sorriso largo, vestido de branco posiciona-se bem na porta de madeira de duas bandas encravada na parede rebocada com argila produzida ali perto, ao lado de Jurema, sua esposa e dona do salão, ela até caprichou no batom escarlate pra mostrar os dentes brancos bem feitos. É. Porque duas coisas naquela época não se destacavam nas mulheres se não fossem o batom vermelho e o esmalte das unhas combinando com a cor do sangue num terreiro de macumba. Nos cabelos, do lado direito, uma flor natural chama a atenção. Ninguém no mundo naquele tempo sabia o que era shampoo, mas o sabão de coco lavava os cabelos tão bem que os deixava sedosos e brilhantes, limpos e bonitos. Era a única coisa que tirava a poeira fina das fibras da cabeça. E aí, era só pôr um lenço branco para combinar com as vestimentas rendadas à mão, e assim ter uma saia rendada e rodada para a hora da principal apresentação. Uma vez ou outra, os homens batucavam os tambores para testar o couro esticado e o som de arrepiar como se fora a maior festa. Esses não tocam por dinheiro e sim por amor, por fé nas entidades, assim como os gregos acreditavam em seus deuses.
–– Boa tarde, meu povo! – cumprimenta o prefeito. Como estão todos por aqui?
O homem da porta aperta a mão do político e a mulher apressas-se para abraça-lo e desejar boas vindas. Enquanto isso, as baianas formam um círculo no centro do salão, os tocadores de tambores posicionam-se e esperam o sinal para começar o batuque.
–– Seja bem vindo Senhor prefeito! Estamos bem e melhor agora com sua visita! – responde a mulher entusiasmada.
–– Vejo que seu salão progrediu! Vocês fizeram algumas reformas. Está muito bonito!
–– Obrigado prefeito! A fé do povo faz a gente acreditar que tudo pode melhorar a cada dia! – responde o marido da dona do salão.
–– Sim. É claro!
–– Precisamos que tenha melhorias nos caminhos que trazem até aqui. Sabe? Alargar essa estradinha de chão para os carros chegarem aqui com mais facilidade.
–– Claro! No próximo mês já mandarei fazer isso para beneficiar essa comunidade.
–– Prefeito, como o Senhor sabe, nós somos mais de dez famílias aqui nessa parte do povoado e a gente ainda pega água de cacimba para cozinhar e do rio para outras necessidades.
–– Pois vocês tocaram num assunto principal que eu já ia falar. Chegaram as bombas e os chafarizes que pedi ao governador há três meses. No próximo mês a gente instala.
–– Eita prefeito arretado, moço! – elogia outro dos presentes.
–– Palmas para o prefeito! Aí é macho siô! – diz outro.
–– Prefeito sente-se aqui! Preparamos uma modesta apresentação para o senhor e sua comitiva – diz a dona do salão.
–– Aqui não tem voto para o Elesbão não, Senhor prefeito – afirma um dos batuqueiros.
–– E sendo candidato do Coronel Messias, aí é que não tem mesmo – completa o companheiro ao lado.
–– Fico feliz que vocês estejam comigo.
–– O prefeito sabe que a gente é leal com o Senhor todo tempo, desde a primeira vez, pois nunca nos faltou.
–– Lealdade é a coisa mais importante numa eleição. Ou em qualquer outra situação.
–– Nós vamos é vencer essa eleição prefeito! Bote fé! – fala outra mulher entusiasmada.
–– Pois vamos começar gente – diz o pai de santo do salão.

Depois do almoço com os vereadores e de deixar tudo acertado conforme foi planejado pelo Coronel Messias...

–– Lucas, conte-me como conseguiu tirar os homens da cadeia e o que fez com eles.
(...)

CANGACEIROS 12




–– Ninguém quer passarinho aqui não, menino – diz um dos jogadores de sinuca.
–– Moço, é para ajudar lá em casa. Comprar arroz e feijão.
–– Vai estudar – fala o parceiro no jogo – se eu tivesse estudado num tava aqui jogando sinuca, sendo besta.
O menino sai de mesa em mesa oferecendo os pássaros e ninguém dá a mínima atenção. Jogador de baralho só tem olhos para as cartas. Não ouve ninguém fora do jogo. Fica matutando o jogo até descobrir qual a próxima cartada. Tem uns que varam a noite e ficam de olhos fundos.
O garoto não tem argumentos para convencer e sai, mas antes, oferece ao dono do recinto.
–– Seu Arilson compre pelo menos o bigodinho, ele cantará rapidinho assim que deixar de ficar “enfesado”, pra eu comprar nem que seja só o feijão para comer com farinha e sal. Lá em casa num tem nada hoje para comer – diz a criança com cara de tristeza.
–– Menino quanto é os três com gaiola e tudo?
–– Ah, só os passarinhos é uma coisa, agora com a gaiola é outra!
–– Sim, mas quanto é? – Insiste Arilson.
–– Bote preço! Eu tô é precisando mesmo.
–– É o seguinte: Vou lhe dar o arroz, o feijão, a farinha e o sal, mas vou soltar os pássaros e quebrar a gaiola.
–– Faça isso não seu Arilson! Uma gaiolinha dessas dá um trabalho danado para fazer.
–– Menino, você gostaria de estar numa jaula?
–– Não Senhor.
–– Então vá estudar! E venha aqui uma vez por semana que lhe dou arroz e feijão se você for para a escola ao invés de caçar passarinhos.
–– Vai me dar tudo isso agora?
–– Vou.
–– Então pode soltar e quebrar a gaiola.
–– Sim, mas você vai para a escola?
–– Não tenho mais pai para me matricular e minha mãe não tem condições de ir lá no grupo escolar. É muito longe.
–– Pois depois vem aqui que te levo para matricular, viu?
–– Viu!
–– Olha o Arilson parecendo o Papa, dando exemplo.
–– E tu tava só caladinho aí, observando, né?
–– É, mas já, já vou voltar para casa. Minha mulher tá esperando um bruguelo! – afirma Benedito.
–– Opa! Isso é bom demais!
–– Pois bota aí uma serrana!
–– Boto e digo mais. Vou ajudar no mijo do menino!
–– Pois capricha! Vai ser antes da eleição!
–– Rapaz! E tu votas em quem?
–– Eu acompanho meu pai. Em quem ele decidir votar, a gente vota.
–– Tu sabes que o melhor candidato é o prefeito, né?
–– Sim, ele é um homem de palavra. Tudo que prometeu, cumpriu, mas o meu velho é quem decide. A gente o acompanha desde a primeira votação.
–– Seu Joaquim da Silva também é um homem bom, respeitável.
–– Por isso mesmo.
–– Arilson, todo ano ele faz uma festa de aniversário, e esse ano quero te ver lá. Você nunca foi. Quero te apresentar a ele. Tu és um dos melhores amigos que tenho por essas bandas.
–– Vou mais é na hora, avexado!

Nessa manhã, na fazenda do coronel Messias, dois vereadores de oposição são esperados para o almoço.

–– Lucas, quanto tu achas que devo pagar a esses trastes da oposição?
–– Coronel vou te dizer uma coisa, eles só estão na oposição porque estão insatisfeitos com o prefeito. Talvez ele – o prefeito – não tenha dado muita importância. Não tenha dado cargos ou dinheiro.
–– Por isso mesmo. Eles foram eleitos na rabada. Os dois quase não tem votos.
–– Na minha opinião, o Coronel deve convencê-los a trazer pelo menos mais dois do lado de lá para o lado cá. E eles não vão cobrar pouco não, viu?
–– Lucas, eu tenho casas na cidade sem serventia nenhuma. Nem ocupadas elas estão. Não são grandes, mas tem um valor de mercado muito bom! O que tu achas?
–– O Senhor oferece as casas sem passar o documento agora e promete uma quantia em dinheiro caso eles consigam trazer os dois vereadores mais insatisfeito. Aí somamos quatro, o que já equilibra a balança.
–– É isso mesmo, porque o presidente da câmara não vem para cá nem a pau.
–– Esse não vem mesmo. É o mais bem votado na eleição anterior.
–– Lucas tive uma ideia melhor. Para ficar bem equilibrada mesmo essa campanha, na base do quatro a quatro, ou seja, a mesma quantidade de vereadores do lado de lá e do lado de cá, a gente poderia dar um fim no presidente.
–– O Senhor quer tirar o homem da jogada, Coronel?
–– É claro! Ele é o maior puxador de votos do prefeito. Se você fizer um serviço bem feito, digo, fazer parecer um incidente, será uma perda e tanto. Temos que ganhar essa eleição de qualquer jeito.
–– E o Elesbão ficará sabendo disso?
–– Ninguém, mas ninguém mesmo deve saber, nem o Elesbão. Isso fica só entre nós dois e mais dois homens da nossa confiança.
–– Coronel, essa é uma jogada muito arriscada num período como esse.
–– Só será arriscada se você não fizer o serviço direito. Ademais, o Delegado Jaime está na minha folha de pagamento. Então, quem é que irá investigar isso?
–– Coronel, não é aproveitando a oportunidade não, visse, mas eu tenho uma caboclinha que gosto muito. Ela ainda vive na casa dos pais e como o Senhor falou dessas casas na cidade sem serventia nenhuma, gostaria que o Senhor me desse uma para a gente se arrumar por lá, fazer um chamego, uns cafunés.
–– Eita Lucas, tu não perdes tempo.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

CANGACEIROS 11




–– Que foi que eu disse Maricota?
–– É. O Senhor tem experiência e um tino comercial de nascença.
–– É um dom, minha filha, um dom!
–– Seu Arilson, e os bois? Os donos deles não veem buscar?
–– Sei não, o delegado disse que viria pegar hoje e até agora necas de pitibiricas.
–– E a carroça?
–– Pois é, sei também não.
–– Arilson me dê aí o baralho, para a gente começar os serviços.
–– Rapaz, vocês tem que consumir alguma coisa. Ou então vou cobrar uma taxa de serviço. Oramarrapaiz!
–– Se apoquente não, moço! Bote aí logo uma branquinha para molhar a goela.
–– Assim é que eu gosto. E hoje não tem fiado. Não vendi quase nada ontem por conta do que aconteceu.
–– É no dinheiro, Seu Arilson.
–– Olhe, avise aos seus pariceiros para não quebrar os cantos das cartas. Baralho novo é caro e é longe para compar.
–– Deixe comigo.
–– Você vai ficar responsável. Esse aí ainda tá na caixa, visse?
–– Eita diacho! Tá novinho véi!
–– Arilson, cadê a chave da gaveta da sinuca?
–– Está aqui, olha! Já avisei. Hoje nada de fiado.
–– Tá certo meu patrão!
–– Ei, tem caldo de que aí?
–– Rapaz, só se for de feijão! Serve?
–– Não. Tem buchada de bode?
–– Tá quase no ponto – diz a mulher.
–– Deixa o meu aí. Tô com uma fome da mulesta!
–– Assim que terminar aviso.
–– Tá bom!
–– Arilson bota uma dose de água que passarinho não bebe para mim.
–– Mais é agora, avexado.
–– Ei, me diz uma coisa. Como que está o nosso candidato? Qual é a cotação aí na boca do povo? – pergunta outro.
–– Rapaz, ele não perde nem a pau pro Elesbão, candidato do Coronel.
–– Tu acha mesmo?
–– Perde é porra. Se depender de mim e dos meus amigos, a gente vai botar para eleger de novo. Oh, homem bom, visse?
–– Rapaz, eu soube que o Coronel tá gastando meio mundo de dinheiro.
–– É. Eu sei disso. Ali nem se acaba nem fica pouco. O homem é podre de rico, mas o candidato dele é fraco. Não tem simpatia. Nunca botou os pés aqui – afirma Arilson.
–– Ah, mas quando tiver mais próximo da eleição ele vem que é um doce prometendo mundos e fundos.
–– Pode até vir, mas meu voto é do prefeito.
–– Se ele vier, a gente pega o dinheiro dele e vota no prefeito.
–– Crie vergonha na cara, homem. Vote por acreditar num homem que promete e faz. Saiba dizer não a esses miseráveis que só querem tirar proveito da política e das fraquezas do povo.
–– Tô brincando rapaz.
–– Tá nada. Tu é sem vergonha que eu sei.
–– Hómi respeite a polícia, rapá!
–– Polícia de bosta, tu.
–– Como é muié, essa buchada sai ou não?
–– Calma moço, tá quase no ponto.
–– Égua Chico Doca, num aperrei ela não.
–– Vou jogar cinco partidas aqui pra ganhar o dinheiro dos patos e pagar essa buchada e as pingas.
–– Vai é porra! – responde o parceiro.
–– Arilson, corta aí um mercado de fumo para eu fazer um cigarro.
–– Quanto?
–– Dando cinco cigarros tá bom. Bota desse rolo mais sequinho, o mais verde só serve para mascar.
–– Certo!
–– Ei menino, a buchada tá pronta.
–– Espera aí. Xô terminar essa “mão”.
–– Exe abirobado tava num vexame monstro e agora manda esperar.
–– E pelo visto ele vai é perder essa partida! – diz Arilson.
–– Vou nada! Dei foi uma sinuca de bico nele. Sai dessa aí bichão, que eu duvido D-ó-dó!
–– Eita porra! Essa foi de lascar.
–– Ei desgraça, tu já começou a roubar? – grita um dos jogadores de baralho.
–– Me respeita cara de fuinha – diz o outro.
–– Bati, oramarrapá – diz um terceiro.
–– Bora mudar esse jogo. Agora é “fó e bate corrido” – propõe outro parceiro.
Nesse momento um menino de aproximadamente doze anos entra na bodega, pés descalços, só de calção, com um estilingue no pescoço e uma gaiola feita de talo de buriti na mão direita, oferecendo um chico preto, um galo campina e um bigodinho (brabos) os dois primeiros pegos no alçapão e o bigode pegado no visgo.
–– Aí, quem quer comprar um passarinho?
(...)