terça-feira, 10 de março de 2020

A Conquista do Reino 8



General Osório partiu de manhã cedo com uma tropa de cento e cinquenta soldados para fazer uma visita diplomática, política e amigável ao rei Gabriel de Alcântara. A missão é tirar as dúvidas e esclarecer sobre as vidas do rei Saul e da rainha Catarina do reino da Terra Plana.

Os caminhos que levam ao reino Continental são tortuosos e acima de tudo perigosos. Infestado de malfeitores, ladrões e mercenários. Esse é o risco que esse pequeno exército tem que correr ou enfrentar caso seja necessário.

Os cenários são exuberantes. Ora de matas fechadas, ora em campo aberto e, em alguns casos montanhosos, propícios à emboscadas.

A tropa leva à sua frente, as bandeiras imperiais do reino de Astride. Soldados preparados e treinados marcham no final da fileira indiana; os outros, da segunda cavalaria, são arqueiros, e a terceira cavalaria, é de lanceiros e espadachins. São três grupos de soldados hierárquicos, cada um com seu comandante estratégico preparado para tudo.

Essa noite o General Osório, sabendo que já andou metade do caminho, olha no mapa e decide acampar na parte mais alta e arborizada. Agrupa a tropa. Manda que façam um círculo, acendam fogueiras e coloque sentinelas no topo para vigiar. Ordena que três batedores sigam à frente para garantir a segurança.
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A Conquista do Reino 7



Madalena põe uma jarra grande de vinho sobre a mesa, depois traz o queijo já partido pela metade e entrega a Joshua. Helena vai à cozinha e pega uma cesta de pães e leva à mesa, senta-se ao lado da mãe e também bebe um pouco.

–– Sabe? A coisa mais importante que uma pessoa pode ter é a família! Nós vivemos nesse confim de mundo, longe de tudo e de todos e mesmo assim, estamos unidos e felizes! – referenda Joshua.
–– Pai, não é tão longe assim da Cidade de Pedra! – Helena se pronuncia.
–– É. Estamos no reino de Astride. O rei Manoel é bom. Deixa-nos viver em paz!
–– Eu estive recentemente na cidade e corre o comentário de que o rei fará uma grande festa para comemorar o aniversário da princesa! – afirma Jesus.
–– Ela é bonita, Jesus? – indaga Michel.
–– Não sei. Nunca a vi! Mas deve ser! Dizem que ela tem os olhos azuis da cor do céu em dia ensolarado. E os cabelos loiros, encaracolados da cor do ouro!
–– O corpo é uma casca. As árvores são todas lindas, porém,  algumas botam frutos venenosos! – afirma Joshua.
–– Estamos falando da realeza, Joshua! – lembra Madalena.
–– Sim. Estamos falando de pessoas. O veneno pode ser colocado nos frascos mais lindos! – rebate Joshua.
–– O que você tem contra a princesa, marido?
–– Eu não tenho nada contra ninguém! Mas já vivi o bastante para saber quem tem honra, quem sabe perdoar e, quem respeita os mais humildes. Estou com tantas rugas que dá para contar as batalhas em cada uma – diz Joshua.
–– Isso é verdade!  – confirma a esposa.
–– O Elias tá muito calado hoje! – provoca Helena.
–– Ah, vocês sabem que não sou muito de falar!
–– Ele perdeu hoje! – dessa vez é Michel quem provoca.
–– Michel, não seja egoísta. O homem para vencer na vida tem que ter humildade. A nobreza é hereditária!
–– O que você quer dizer com isso, pai Joshua? – indaga Elias.
–– Foi só um comentário. Mas nesses dez anos de treinamento, acredito que você errou as maçãs porque quis!
–– Não foi não! Talvez eu não estivesse concentrado!
–– Ah, vamos deixar essa conversa de bom ou ruim de lado. Michel e Elias são bons no que fazem. Ninguém precisa provar nada pra ninguém! Estamos aqui para comer e beber! – finaliza Madalena.
–– Já está anoitecendo. Vou tomar mais um gole desse vinho e vou me aquietar! – coerentemente fala Joshua.
–– Pai, o senhor disse que iria nos ensinar como forjar uma espada...
–– Sim. Tudo tem o tempo certo. Em uma semana terminaremos esse ciclo de treinamentos! – responde Joshua – aí virão as surpresas!
–– Surpresas? – indaga Elias.
–– É. Ele era o ferreiro de confiança de um reino distante.
–– Madalena não antecipe as coisas. Eu disse que tudo tem seu tempo.
–– Agora foi que fiquei mais curioso! – novamente Elias se pronuncia.
–– Entendam uma coisa. Pessoas ansiosas não tomam decisões certas. Duas coisas que um cavaleiro, um guerreiro ou um soldado tem que saber fazer numa batalha: ser decisivo e pensar rápido, sem ansiedade. Não é apressado que se chega ao longe. Ademais, para forjar uma espada é como ser um artista, tem que ter paciência. Senão, jamais será uma obra de arte!
–– Falou a voz da experiência! – confirma a filha.
–– Bem, se é assim, vamos aguardar! – mais uma vez Elias concorda com o pai adotivo.
–– Mais uma coisa: aprendam a ouvir a voz da natureza. É ela que nos diz quando algo está errado, principalmente à noite! – aconselha Joshua.

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A Conquista do Reino 6



–– Elias! Michel! Para fora, os dois! Já descansaram o bastante! Essa tarde, vamos treinar com arco e flechas! – ordena Joshua.
–– Ah, aí sim! É mais cômodo! – afirma Michel.
–– Eu também gosto do arco! – concorda Elias.
–– Bem, então vamos lá! Primeiro preparem os cavalos! Alvos parados só no final! Vamos fazer o seguinte: mantenham uma distância de vinte metros. Os cavalos vão passar com os alvos grudados nas selas em estandartes de vime e vocês terão que acertar doze flechas.
–– E como fica quem acertar menos? – pergunta Michel.
–– Filho, o perdedor dormirá do lado de fora da casa. Será o vigia da noite! A vida é assim: ganhadores recebem prêmios, perdedores castigos, para aprender a fazer bem feito.
–– O senhor leva muito a sério esse treinamento!
–– A vida é uma competição e não há lugar para fracassados! – diz o pai enfaticamente – estão prontos?
–– Sim senhor! – respondem os dois jovens simultaneamente.
–– Os cavalos correrão em círculo no eixo de vinte metros de distância de vocês que ficarão no centro. Flechas com penas azuis para o Michel e penas vermelhas para o Elias. Entendido?
–– Sim pai! – Michel responde, enquanto Elias confirma com a cabeça.
–– Helena!
–– Sim, pai!
–– Você monta o cavalo preto!
–– Jesus!
–– Sim, pai!
–– Você monta o malhado e eu o branco. O jogo termina quando atirarem as doze flechas e aí faremos a contagem. Estão prontos? Vamos lá!

Sentada em um banquinho rústico de madeira, Madalena observa o treinamento do marido com os filhos no terreiro da casa. Não diz nada. Pouco a pouco quando os cavalos galopam a poeira toma conta do local, e, essa é a finalidade da prova, tornar a visibilidade dos alvos mais difíceis.

Uma hora de cavalgadas em círculo é o suficiente.

–– Terminei! – grita Elias.
–– Eu também! – afirma Michel.
–– Muito bem! Então vamos fazer a contagem! – diz Joshua.

Os cavaleiros descem dos animais, soltam-nos e colocam os estandartes no chão.

–– Eu não vou ficar parada aqui. Farei a conferência! – afirma Madalena enquanto caminha para verificar os alvos. Joshua, o pai, Elias, Michel, Helena e Jesus respeitam a decisão da mãe e observam em pé.
–– Bem, todos acertaram as doze flechas. Temos um empate aqui!
–– Então teremos que desempatar com alvos fixos a uma distância de cinquenta metros e somente com três flechas. Helena, pegue duas maçãs e coloque nas estacas! – ordena Joshua.
–– Certo pai!
–– Rápido! Enquanto estamos com o sangue quente!

Jesus pega as estacas, finca-as no chão a cinquenta metros da marca que o pai determina e Helena coloca as frutas nas pontas.

–– Estão prontos? Comecem!

Cada um atira três vezes e novamente acertam os alvos. Há um novo empate.

–– E agora, Joshua, como você vai decidir isso? – indaga Madalena.
–– Vou jogar três maçãs para o alto e aquele que acertar ganhará! Vamos lá!

Joshua joga as maçãs uma a uma enquanto os jovens atiram. Elias erra as três e Michel acerta uma.

–– Temos um ganhador. Mas vocês precisam treinar mais!
–– Homem deixe de exigências! – reclama Madalena.
–– O que eu ganho pai? – indaga Michel.
–– Ganha os “parabéns” do pai e da família.
–– E eu? Qual o castigo?
–– Chega de castigos e prêmios! Há coisas que temos que fazer em consenso. Vamos comer alguma coisa e beber um vinho! Vocês já provaram que são homens de fibra e bem disciplinados! – encerra Madalena.
–– Aqui quem manda é a mulher! Então vamos comer e beber. Amanhã cedo a gente recomeça! – diz Joshua.
Helena abraça o irmão e o conduz à sala para comer queijo e degustar o vinho. Michel dá um tapinha nas costas de Elias que retribui com um sorriso e também segue para a casa.
Jesus! Tire os arreios dos cavalos dê de beber e solte-os no pasto! – ordena Joshua.
Está bem, pai!
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A Conquista do Reino 5



Reino Continental

–– Olha que coisa mais linda! O rei Saul de cabelo cortado e barba feita! – diz o rei Gabriel em tom de ironia – viu como a gente trata bem nossos convidados para uma refeição digna? – e continua dirigindo-se à rainha – Vossa Majestade está deslumbrante! Sentem-se, por favor!

O rei Saul e a rainha Catarina sentam-se á mesa sem falar nada. Sentem-se constrangidos e humilhados por aquele que não tem bondade no coração.

–– Tragam-nos os faisões, os patos e os porcos assados! Vossas Majestades não podem esperar tanto assim! Tragam também o melhor vinho e pães! Não é Saul? Nesse banquete Vossa Majestade me contará um de seus segredos, não é?
–– Eu já não tenho segredos!
–– Ah, tem sim senhor!
–– Tragam-me uma tesoura amolada!

Os pratos são colocados na mesa.  Cada um mais bonito que o outro. A cozinha do castelo tem excelentes cozinheiros. A gastronomia é impecável. Um dos servos vai colocando vinho nas taças folheadas a ouro, enquanto um dos súditos bota uma toalha branca na mesa ao lado de Gabriel e sobre ela uma tesoura virgem.

–– Tragam-me um bode vivo! Mas, vamos comer primeiro! Saúde! Saúde! Vamos Saul e Catarina, levantem suas taças!
–– Não temos a que brindar! – diz Saul indignado sem saber o que os aguarda.
–– Temos sim, meu rei! Vamos ver se dessa vez Vossa Majestade vai ser tão forte quanto parece! Vamos comer! Você não está sem fome, está?

Gabriel faz uma pausa, começa a comer pães de alho, saboreia uma uva e entra no prato principal.

–– Coma meu rei. Na masmorra não terá essas opções!

Saul e Catarina comem, não por prazer ou pela companhia, mas por uma questão de sobrevivência.

–– Muito bem! Muito bem! Estamos provando o melhor da culinária desse reino. Feito pelos melhores profissionais de toda a região. E vocês sabem que um país que não tem boa comida não pode ter uma referência positiva!

Catarina e Saul comem como se a comida inchasse na boca.

–– Ah, aí está o bode! Vocês sabem que esse é um animal usado em muitos rituais, inclusive na maçonaria, em rituais de magia, mas hoje será só para eu ver como vocês reagem ao sangue, apesar de saber que já participaram de muitas guerras.
–– O que um animal tem a ver com outro? – indaga a rainha Catarina.
–– Eu vou sangrá-lo aqui, nessa mesa. E já que Vossa Majestade perguntou, a pena se aplicaria a ele, mas agora será a você.

O rei Gabriel sobe na mesa, acena com a mão para que coloquem o animal sobre a mesma mesa e o sangra. Apara o sangue com uma tigela de cerâmica e banha a cabeça do rei Saul e da rainha Catarina, humilhando-os. Depois, desce, e pergunta: ––  Majestade, onde está seu filho? Ele hoje deve ser um jovem adulto e carrega outros segredos que pretendo saber. Onde está?
–– Eu não sei! – responde Saul com voz firme.
–– Onde está seu filho?
–– Eu já disse, não sei!
–– Tudo bem! – diz o rei Gabriel enquanto desce da mesa e pega a tesoura.
–– Agora vamos ver quanto amor Vossa Majestade tem pela sua rainha! – o rei caminha para o outro lado da mesa e pega a mão da rainha, posiciona a tesoura no dedo mindinho e pergunta novamente:
–– Onde está seu filho?

A rainha é forte, não reluta e deixa que seja feita a sua vontade. Ela também não sabe e mesmo que soubesse, não diria. O amor de mãe é sempre mais forte que tudo.

–– Majestade! Cortarei o dedo de sua rainha se não me disser onde está seu filho.
–– Eu não sei. Ela não sabe! Não cometa esse erro!

E numa questão de segundos, o rei Gabriel corta o dedo da rainha que range os dentes e fica calada mesmo sentindo dor.

–– Levem-nos daqui. Por hoje é só! Chame o médico para fazer um curativo no dedo da rainha! Levem o rei para seus aposentos: o calabouço! E a rainha, para o quarto enquanto melhora dessa dor horrível!
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A Conquista do Reino 4



Reino de Astride – Cidade de Pedra  

O rei Manoel II anuncia que em uma semana haverá a festa de aniversário de sua filha, a princesa Diana, e quer que seja um evento de pompas quando lhe concederá o título de maioridade dos dezoito anos. A filha receberá o documento de Princesa Real de Astride. Isso a tornará a mulher mais poderosa de todo o reino.

–– Senhores e senhoras, um momento de sua atenção, por favor, o Conde Jasão coordenará os preparativos administrativos dessa festa que acontecerá daqui a uma semana, quando darei o título á princesa Diana no momento de transição da sua maioridade. Quero o povo presente nesse evento grandioso e que todos saibam que minha filha será, depois de mim, em um futuro próximo, a promissora rainha desse reino.

Diana é uma das garotas mais bonitas de todo o reino. É loira de cabelos encacholados, de olhos azuis, singela, de corpo escultural, pernas torneadas e tem um bom coração. Inspira confiança por suas atitudes e decisões. Discreta, sorri sem mostrar os dentes com as palavras do pai. É aplaudida pelos servos,  autoridades e nobres presentes no salão. Mas ela não é tão perfeita assim. É vingativa e treinada pelos mestres da corte. Um rosto inocente esconde malícias e o coração é terra que ninguém anda.

Para essa cerimônia de anunciação do aniversário da princesa foram convidados aliados próximos do reino, entre eles Duques, Marquês, Regentes, Condes, Viscondes, Barões e o mais alto escalão do clero.

–– Fico feliz que Vossa Majestade tenha incluído em suas palavras o convite estendido ao povo. E para minha satisfação, quero solicitar um pedido ao rei, que é a construção de um anfiteatro com uma galeria de artes. Temos talentos que precisam ser apreciados por todas as classes sociais – conclui a princesa.
–– Seu pedido será atendido com muito gosto, minha filha. Convoquem arquitetos e engenheiros para fazer o planejamento da obra. Quero o projeto em uma semana. E você Diana, poderá acompanhar tudo exatamente como imagina – diz o rei para um de seus conselheiros enquanto olha para a princesa. Agora vamos fazer um brinde ao novo investimento do reino de Astride.

O banquete já está pronto no salão real e todos que estão presentes dirigem-se para comemorar, menos o rei que continua sentado no trono enquanto observa a movimentação.

O General que estava em missão caminha a passos largos rumo a ao rei.

–– Majestade, temos que conversar! Tenho algo surpreendente para contar-lhe!
–– Agora que todos já foram para o salão imperial, podemos falar!
–– É sobre o rei Saul!
–– O que tem ele? Já faz anos que não temos notícias dele, desde que perdeu a guerra para o rei Gabriel de Alcântara!
–– Pois é Majestade! Um de meus espiões infiltrado, disse-me que o rei Saul está vivo, aprisionado no castelo. Não só ele. A rainha Catarina também!
–– Isso é impossível! Deram-nos como mortos há muito tempo! Temos que ter certeza disso General! Além do mais, pelos laços de amizades que tínhamos isso pode gerar outra guerra!
–– Por enquanto é só um boato. As informações chegaram aos meus ouvidos por terceiros!
–– Então, faça o que for necessário para descobrir a verdade. Quero que vá pessoalmente ao castelo de Gabriel conversar com ele!
–– Sim, Majestade! Farei isso!
–– Quero que parta ao amanhecer! Certifique-se e volte imediatamente!
–– Sim Majestade! Farei isso!
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segunda-feira, 2 de março de 2020

A Conquista do Reino 3



A Conquista do Reino 3

Enquanto isso, do outro lado do continente, no castelo do rei Gabriel de Alcântara, homem inescrupuloso, forte, de cabelos grisalhos e detentor de um poderio incalculável, e que comanda um dos maiores exércitos da região. Costuma manter seus desafetos como reféns até conseguir o que quer e, como um vampiro, suga até a última gota de sangue, literalmente.

–– Não entendo como um homem pode sofrer tanto e não revelar esse mísero segredo – diz o rei dirigindo-se aos conselheiros.
–– Majestade, motivos ele tem de sobra! – diz um de seus súditos.
–– Como assim, tem motivos de sobra?
–– Vossa Majestade o venceu em batalha, tomou conta de seu reino, aprisionou a rainha, matou o restante da família e só sobrou esse menino que vossa Majestade insiste em afirmar que ele está vivo!
–– Chega! Deixem-me todos! Preciso pensar em como fazer para ele dar com a língua nos dentes! Saiam!

Os conselheiros retiram-se do salão nobre e o rei põe-se a pensar em seu trono de ouro maciço.

–– Guardas! Tragam-me o rei Saul e a rainha Catarina!
–– Sim, Majestade!

Dois guardas enveredam pelos corredores do castelo até chegar ao subsolo, em uma cela escura, iluminada por tochas.
–– Abra a cela! O rei quer ver o prisioneiro!
Lá no canto, um homem barbudo e maltrapilho encontra-se acorrentado. Os guardas o pegam e o levam para o salão nobre. Outros dois guardas chegam aos aposentos da rainha que é tratada com um pouco mais de dignidade, apesar de estar num cômodo do castelo com cama, latrina e uma mesa para fazer as refeições. Mesmo assim, também é vigiada vinte e quatro horas por dia durante anos.
–– Pronto! Majestade! Aqui está o prisioneiro! – diz o guarda.
–– E aqui está a prisioneira! – fala o outro guarda.
–– Por favor, tirem essas algemas e correntes dos prisioneiros! Não é assim que se deve tratar a nobreza! Deixe-os livres! Outra coisa, traga o barbeiro para cortar o cabelo e aparar a barba desse homem! Chamem as criadas para darem banho neles. Estou ficando enjoado com essa catinga de rato molhado! – diz o rei em tom de deboche.
–– Sim, Majestade!
–– Quando estiverem limpos, asseados, levem-nos para a sala de refeições imperial. Eles hoje almoçarão com o rei e beberão do melhor vinho!
–– Vossa Majestade é um cafajeste! – diz o rei Saul.
–– Não abuse da minha hospitalidade Saul. Tenho a boa vontade de conversar com vocês em banquete particular e você me ofende! Olha que posso mudar de ideia!
–– Faça como quiser!
–– Ah, Saul, vossa Majestade sabe que gosto de jogos. Após o almoço poderemos jogar uma partida de xadrez. Se tu ganhares, prometo-te a liberdade! 
–– Vai para o inferno!
–– Levem-nos daqui e façam o que ordenei!

Criados e guardas conduzem o casal para outro espaço a fim de realizar o corte de cabelo, barba, banho e troca de vestimentas.

Michel e Elias voltam exaustos da corrida e agora caminham rumo ao tanque de cimento para tomar banho.

–– Bravo! Deixaram os ovos no ninho ou no meio do caminho? – Pergunta Joshua.
–– Claro que deixamos no ninho, pai!
–– Então já podem sentar-se à mesa para comer!
–– E o cabrito?
–– A Madalena antecipou as coisas e matou duas galinhas! Comam, descansem e logo mais vamos praticar com arco e flecha, lanças e facas. Amanhã treinaremos com espadas!
–– Entendido mestre! – responde Elias.
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A Conquista do reino 2




A Conquista do Reino

O treinamento de Elias e Michel

Aldeia Alta não é um nome bonito, até porque a aldeia é numa superfície plana. Mas o local em si é bonito. É cercado por árvores frondosas. Tem alguns animais no pasto. Joshua cuida muito bem de sua pequena propriedade. Acorda cedo, cuida da lavoura, dá comida aos porcos e galinhas. Alimenta os três cavalos e o rebanho de ovelhas. Vive em tese, satisfeito com a vida. Joshua tem dois filhos e uma menina adolescente e é amado por sua mulher.
–– Acorda Elias! Os galos já cantaram umas dez vezes!
–– Bom dia! Eu já estou acordado faz tempo! Só estava achando bom esse friozinho aqui!
–– Estás lembrado que hoje é dia de treinamento?
–– Sim! Pai Joshua!
–– Pois levantas e vais tomar o café! A Madalena fez um bolo de milho que é uma beleza!
–– Sim, senhor! Obrigado!
Depois do café da manhã, Joshua monta o cavalo branco e ordena que Elias e Michel, seu filho, façam uma corrida longa até o topo da montanha, que por sinal é muito distante. Ele os deixa lá, e avisa aos dois jovens para voltarem antes que o cabrito seja colocado para assar ou ficarão sem comer. Mas não é só isso. Assim, ficaria fácil demais. Os dois homens terão que encontrar ninhos de pássaros e cada um terá que trazer um ovo inteiro, enquanto ele – Joshua – matará o cabrito, tirará o couro, tratará, temperará e porá para assar na fogueira.
Joshua cavalga à frente dos jovens até chegar ao ponto que ele quer que comece o pequeno desafio. Então, galopa rápido de volta para casa.
Depois de quase duas horas, Elias chega cansado com um ovo na mão e entrega a Joshua. Minutos depois Michel, também cansado e suado, entrega outro ovo ao pai.
–– Muito bem! Os dois estão pensando que cumpriram a missão.
–– E não cumprimos pai?
–– O que falta agora? – indaga Elias.
–– Bem, se eu chegasse aqui e não encontrasse meus filhos e a Madalena me dissesse que eles haviam sido sequestrados, o que eu faria?
–– O senhor iria nos procurar!
–– Muito bem Michel! Eu iria! Mas os pássaros não entendem a humanidade! Esses ovos estavam nos ninhos para serem gerados! Provavelmente já existe um embrião aí dentro!
–– Os pássaros nem darão pela falta!
–– Eles podem não saber contar. Mas sabem por instinto quantos filhotes estão no ninho.
–– E o que devemos fazer agora? – indaga Elias.
–– Vocês vão voltar correndo e devolver aos ninhos, sem quebrar e sem me enganar. Pois se mentirem para mim, estarão mentindo para vocês mesmos.
–– Pai nós acabamos de chegar. Estamos cansados!
–– A vida exige sacrifícios. E vocês são novos. Entendam que numa batalha, às vezes, a vitória está na resistência e não no ataque. Agora vão!
–– Está certo! Mas, pai, e o cabrito que o senhor prometeu para o almoço? Cadê?
–– Era só um artifício para acelerar o desafio, a motivação. Quando vocês chegarem, matarão e prepararão para a gente comer. Vão, vão! Já vai dar meio dia! Além do mais, quem vai dar banho nos cavalos?
(...)

A Conquista do reino



Em tempos de guerras, muitas batalhas são travadas. Em meio a tantas lutas por mais poder e riquezas entre reinos, o rei Manoel II, decide que sua filha, a princesa Diana, que esse ano completa sua maioridade, deve se casar. Mas, para haver a cerimônia nupcial os pretendentes terão que mostrar seus valores e enfrentarão uma série de desafios.

A seleção será feita no palácio imperial, a maior fortaleza da região, consolidada como a Cidade de Pedra.

Reis, Príncipes, Condes e outros que têm títulos de nobreza ficam sabendo da notícia que corre o mundo e começam a visitar o rei trazendo presentes e oferecendo-se como pretendentes e aliados para unir forças.

O rei tem critérios rígidos. Os que querem a mão da sua filha passarão por provas e lutarão entre si para mostrar em um primeiro momento suas habilidades e experiências de batalhas. E só depois desses eventos e torneios realizados, é que será definida entre os ganhadores da primeira etapa a verdadeira missão. O rei dirá qual o maior desafio a ser enfrentado por aqueles que almejam o trono. 
(...)