sábado, 15 de fevereiro de 2020
O BIGODINHO
Quando eu era criança, criava pássaros em gaiolas, o que era um erro, mas eu não tinha essa consciência. Comprava gaiolas bonitas feitas com talos de buriti e outras de madeira trançadas com arame. Os galos- campinas, eu os pegava em alçapões de talos, assim como os canários e sabiás entre outros.
A historinha de hoje, muitos anos depois, e eu já adulto, é sobre o bigodinho, também conhecido como papa-capim, estrelinha, gola-careta e caretinha. Mede 11 centímetros de comprimento. Tem um gorjear rápido e metálico. O macho é inconfundível, pelas áreas brancas na cabeça. É o contraste do negro do restante da plumagem. As partes inferiores são levemente cinza claro e, sob o sol forte, podem parecer brancas. Seu habitat são campos abertos e campos cultivados.
Devido ao seu canto, é um pássaro apreciado talvez tanto quanto o curió; junto com as alterações ambientais, acabaram por reduzir seu número em boa parte do país. O certo é que fui à feira dos pássaros, ali próximo do mercado central de Teresina para comprar um. Comprei-o com gaiola e tudo. Em casa, o bichinho cantava até de noite. Eu achava lindo, mas depois de algum tempo, provavelmente um mês, num final de semana, tomei umas geladas e me bateu aquele remorso. Eu não queria estar preso e ele também não. Pressenti que o bigodinho não cantava, ele chorava, implorava por liberdade. Então, fui lá, no pé da parede, retirei a gaiola, abri a portinhola e o soltei.
No dia seguinte, ele veio cantar às cinco da manhã no meu quintal. Acho que para agradecer e se despedir.
Hoje crio pássaros com tintas e pincéis.
Carlos Holanda
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
DINHEIRO ACHADO
Dinheiro achado em calçada alta é quase um milagre, mas achar o que foi perdido provavelmente dentro de casa é uma bênção.
Minha irmã jurava e atestava que tinha perdido uma cédula de R$ 50,00 dentro de casa e estava cobrando a gente.
– “Bora gente, procura aí, pra ver se encontra, eu só fui no mercadinho e tenho certeza que recebi o troco certinho!”
- Olha direito, se não está nos bolsos, no carro, numa sacola. Falei.
Já passava das 16 horas. Então, um amigo dela a chama do lado de fora da casa. Foi atendê-lo, e quando terminou de conversar, ficou algum tempo, encostada no carro que estava estacionado na porta, olhava para um lado e outro, acho que pensando onde poderia estar seu rico dinheirinho. Baixou a vista, e entrou sorrindo, gritando – Achei, achei!
A outra perguntou – Estava aonde mermã?
- No chão. Dobradinho. Na beira da calçada.
Olhei pra ela e disse – Esse teu amigo é um azarado. Não teve a sorte de encontrar essa “oncinha” na calçada.
- Graças a Deus! Eu já tinha até me apegado com São Longuinho.
Ironizei - Pois cuida em dar teus pulinhos.
Carlos Holanda
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
O CIRCO
Em Pedro II, uma vez ou outra chegava um circo. Eu morava no Bairro Cruzeiro e lá havia um espaço enorme, com um cruzeiro de madeira e um tanque redondo de cimento. Foi onde armaram o “Gran Circo América”, que de grande mesmo só tinha as lonas. Atrativos, só as dançarinas, os palhaços, o mágico, os trapezistas, os malabaristas e os motoqueiros do globo de ouro.
Bem, o fato é que eu tinha uns 12 anos, e nesse dia “varei” (entrei escondido) e me acomodei na arquibancada, bem na frente do picadeiro, pra ver de perto o espetáculo. Lá para as tantas, o homem da cartola, o famoso apresentador, chama cinco pessoas pra cantar qualquer música e anuncia que o mais aplaudido ganharia um prêmio. Ora, eu só sabia cantar uma música do Luiz Gonzaga (Cigarro de palha); já tinha quatro no palco, e eu levantei a mão e fui. Só euzin aqui era criança entre os cinco, loirinho dos olhos verdes, bonitinho. E pois não é que fui o mais aplaudido com a música do Gonzaga. E adivinha o que era o prêmio? Uma lata de talco Cachmire Bouquet e dois sabonetes. Acho que acharam o loirinho bonitinho, no meio dos adultos.
Se soubessem que eu tinha entrado escondido, jamais eu tomaria banho com esse sabonete.
Escapei fedendo, mas ganhei. E pensar que essas coisas só acontecem em filmes. Rsrsrs
Carlos Holanda
A CAÇADA
Quando eu era um menino assim duns treze anos e morava em minha terra natal, Pedro II, fui passar um final de semana na aroeira, interior onde moravam meus tios. Lá chegando, como ainda era cedo, tomei café com leite mugido e tapioca. Com a pança cheia, pedi ao meu tio a espingarda para caçar ali por perto. Os caroços de chumbo eram guardados em um chifre de boi, daqueles bem lixados. Era uma obra de arte que a gente carregava a tiracolo. A espingarda era uma bate bucha, bem conservada e ele tinha ciúmes dela, mesmo assim, me entregou e disse:
- Tenha cuidado com as cobras!
- Certo tio! Volto ao meio dia. Ele acenou com a cabeça e eu fui. Me embrenhei no mato. A folhagem seca não me deixava ser tão silencioso. Depois de muito andar, avistei um jacu. Parei, me apoiei no tronco duma árvore e me aprumei pra mirar. Parecia um caçador de verdade. O silêncio reinou entre nós naquele momento e, não mais que de repente, como dizia o poeta, ouvi um farfalhar no chão. Olhei pro Jacu e ele estava lá, imóvel. E o barulhinho aumentava e se aproximava de mim. Adivinha o que era? Uma aranha gigante, uma tarântula, sei lá. Amarelei. Fiquei com o cu que não cabia um cabelo, e aí não deu outra, foi sebo nas canelas. Cheguei em casa da cor duma flor de algodão, suado, com o coração já pra sair pela boca. Meu tio foi logo indagando:
- O que houve rapaz, não tá nem com uma hora que você saiu? Pra quem disse que só viria ao meio dia. Que diabo tu viu, foi alma? Cadê a espingarda?
- Tio, uma aranha do tamanho dum prato avançou em mim. (Olha o tamanho da mentira). A espingarda ficou por lá. Mas o chifre tá aqui.
- Ô cabra frouxo. Armado e com medo de inseto. Nunca será um caçador de verdade.
Pois não é que ele foi buscar a espingarda e ainda trouxe uma penca de nambus e preás para o almoço.
Carlos Holanda
QUEBREI MEUS OVOS
Quebrei meus ovos
Tem coisa que a gente pensa que só acontece com os outros e outras que a gente só vê naquelas comédias pastelão.
Nós temos o péssimo hábito - ou o bom humor - de rir da miséria alheia. Quer um exemplo? Se alguém tropeça e cai, ou como costumamos dizer por essas bandas, fulano levou uma topada e largou o rabo no chão. Vendo a cena, a gargalhada é geral. E agora, com a alienação do celular, ao invés de sermos solidários, filmamos, fazemos fotos, selfies e postamos nas redes sociais, como se tivéssemos o direito de expor a imagem alheia; nós, literalmente.
Pois bem, aconteceu comigo. Há algum tempo, comprei um par de barbeadores, um isqueiro e uma cartela de ovos num mercadinho perto de casa. Nem pedi sacola. Eles amarram com aquele barbante sintético e dão um laço pra finalizar. Quando saí, escorreguei na calçada, o laço desatou e voo ovo pra todo lugar, pensei até que os pintos já nasceram voando. Tinha mais ovo no chão de que na testa daquele político. Muita gente riu de mim, até eu. Fiquei meio sem jeito, mas voltei e comprei outra cartela de ovos, e dessa vez, tive o cuidado até entrar no carro. Percebi também os olhares me seguindo novamente.
Naquela época ainda não se ouvia falar em rede social por aqui. Se fosse hoje, teria viralizado. É, todo mundo paga mico.
Carlos Holanda
sábado, 11 de janeiro de 2020
CRIATURAS - I - Continuação
Ao amanhecer, o sol timidamente surge por trás das nuvens
e clareia deixando visível os estragos da tempestade. Galhos quebrados e
árvores partidas ao meio pela fúria dos raios. As águas escorreram para o
riacho, mas a terra molhada impossibilita os animais rastejantes de se
locomoverem. Borboletas coloridas saem dos casulos para apreciar a liberdade.
Os pássaros voam e pousam em galhos mais altos, e cantam na copa das árvores.
As flores agora transformam a paisagem em paraíso.
Vinte e
quatro horas se passaram depois daquele tiro de rifle.
Ainda muito
cedo nesta manhã, um homem alto, usando um chapéu de maça, trajando calça
jeans, camisa xadrez de mangas longas, cachecol no pescoço, barba por fazer e
de olhos azuis bem arregalados, embrenha-se pela floresta que conhecesse como a
palma da sua mão. Ele carrega um rifle com mira de longo alcance, porém, a arma
é carregada com dardos tranquilizantes. Depois de muito caminhar, para, aguça a
audição, tenta diferenciar os sons e fareja como um lobo o rastro de sangue
deixado pela fera nas folhagens. A mente racional procura o motivo da lógica e
encontra após um quilômetro, o cadáver com a marca das garras da fera do lado
esquerdo do corpo caído, quase engolido pela lama fina arrastada pela
correnteza das águas da chuva. As costelas e o tórax da vítima estão
dilacerados e as pontas das unhas do animal cortou parte do coração como se
fosse uma lâmina de estilete na manteiga. O homem apanha do chão o rifle do
caçador, põe a tiracolo, retira a munição dos bolsos da vítima e deixa para
trás o que ele mais queria: o coração intacto, mesmo que já estivesse morto.
Olhando a linha
do horizonte, onde está a cidade, e até onde a vista alcança não dá para ver a
torre da igreja, o ponto de referência mais alto. Uma cortina de fumaça
provocada pela neblina impede essa visão.
Distante
dali, a porta se abre e David Emanuel entra. A casa aparentemente é uma
residência normal construída no estilo colonial de muito bom gosto, está
alicerçada em uma grande propriedade e em seu interior há no subsolo um porão
com paredes impenetráveis que serve como laboratório científico e é mantido em
sigilo para quem o visitar. Distante da cidade alguns poucos quilômetros a casa
tem um ar de castelo mal assombrado em sua arquitetura. Pouquíssimas pessoas
vão ali, a não ser que tenham um compromisso muito sério com o Dr. David. Na
sala de estar há animais e aves de muitas espécies, empalhados, fixos nas
paredes. Colunas de mármore seguram o teto de onde desce um castiçal folheada a
prata. No piso de cerâmica antiga bem lustrada uma pele de urso marrom decora a
lateral do grande sofá de couro e para completar, uma mesa de madeira de um
metro por setenta centímetros com duas gavetas exibe algumas garrafas de licor,
vinho e uísque.
David
Emanuel coloca o chapéu no cabide, pendura o rifle com dardos numa espécie de
estante que ele mesmo fez e onde há outras armas de sua coleção, entre elas
espadas e adagas. Depois desce até o porão e guarda o rifle e as munições que
trouxe da floresta. Volta para a sala de estar, serve uma dose de sua bebida
preferida, degusta, acende um charuto ao tempo que retira o cachecol e o coloca
nos ombros do sofá e com a taça na mão esquerda, senta-se numa poltrona e
põe-se a pensar por um longo tempo.
(...)
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
Criaturas
Criaturas
Um tiro de
rifle ecoa na floresta densa. Os pássaros assustados com o barulho voam para
longe. Botas de couro indicam que, pelo tamanho das pegadas do indivíduo, é um
homem grande que caminha para apanhar sua presa – um veado - a aproximadamente
cinquenta metros de onde ele estava.
Há lugares desconhecidos em
que não se deve caçar, mesmo assim, o ser humano tem o péssimo hábito de não
respeitar limites, de invadir até mesmo a privacidade da natureza. Pouco tempo
depois de colocar o animal sobre os ombros, o homem rasga o silêncio e solta um
grito doloroso de horror e em seguida ouve-se o baque do corpo que tomba sem
vida.
O celular
toca três vezes no bolso do caçador e desliga. Não há ninguém para atender...
A noite
chega e com ela a névoa encobre a paisagem florestal. A escuridão é total. Em
algum ponto distante se percebe os olhos amarelos da coruja cinza, que agasalha
seus filhotes sob as asas no oco do tronco da árvore. Os sapos saltitam de um
lado para outro, por instinto eles sabem que logo irá chover. Animais
silvestres de pequeno porte também correm à procura de locas, esconderijos que
os protejam. Até as cobras e outros répteis tem medo de enxurradas. E sem mais
nem menos, o céu desaba com raios, trovões e chuva torrencial. Além dos
trovões, uivos horripilantes que provavelmente não seja natural desse habitat.
A noite e a
natureza guardam seus mistérios.
Continua
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
O Corvo Contra-ataca - II
O Corvo Contra-ataca – 2 –
continuação
–– Prefeito! É uma honra recebê-lo!
– cumprimenta Jônatas sorridente.
–– A honra é minha! Você com
certeza ajudará nossa administração criando muitos empregos para essa
população!
–– Claro! Claro! O Senhor é
um homem de visão política que sabe calar seus adversários!
–– Diga-me, quantos empregos
diretos seu grupo empresarial vai gerar em pouco tempo! – indaga curioso o
prefeito.
–– Bom, pelo menos 500, com
terraplanagem, pesquisas, construção e mão de obra especializada. Depois, na
continuação, mais mil na construção civil. Mas vamos depender muito do Senhor.
–– E em que posso ajudar
nesse empreendimento tão grandioso?
–– Comece desapropriando
essa pobreza que está atrasada com IPTU e colaborando com nossos advogados
quando forem procurar a prefeitura para resolver os casos provenientes dessas
ações. Ou seja, basta colaborar com tudo e fechar os olhos para o que vamos
fazer! Construa um conjunto habitacional para esse povo. Coloco minha
construtora a sua disposição, ganho a licitação e fica tudo bem. É assim que
uma mão lava a outra. Entendeu?
–– Mas Jônatas, esse povo são
meus eleitores! Esse é o povo que vota em mim!
–– Prefeito, preste atenção,
nós somos o futuro dessa cidade, desse estado, dessa nação e sem os ricos você
não se elege a nada. Nem a fiscal de quarteirão!
–– O povo é quem decide! O
povo é soberano!
–– Porra nenhuma, prefeito!
Quem decide o poder são os poderosos!
–– Jônatas, você desrespeita
a soberania, a democracia!
–– Prefeito, não há nada que
o dinheiro não compre! Há?
–– Bem, eu quero ser
deputado e depois governador, ou senador. Isso está em seus planos?
–– Vamos começar com um
apartamento na cobertura! Escolha em qual torre você quer, por favor! Não
precisa me dar um nome agora para passar a escritura. Depois, você facilita
tudo, e eu banco sua campanha num caixa 2. Concorda?
–– Preciso abrir uma conta
fora do país urgente!
–– Pois faça isso e diga-me
quanto custa cada vereador para que eu possa depositar o dinheiro!
–– Você não entende de
política! Preciso primeiro do apoio de deputados! De uma base sólida! Fazer
conchavos e isso não é sua especialidade!
–– Não! Não é! Sou
capitalista! Pois diga seu preço!
–– Preciso de uma semana ou
pouco mais de quinze dias para formar uma bancada de cima para baixo e não o
contrário.
–– Você tem dez dias! E será
um excelente governador!
–– Começou a falar minha
língua!
–– Não sou poliglota, mas
falo alguns idiomas! Dez dias prefeito! Dez dias! Faça acontecer!
–– Quero lojas no shopping e
participação no Cassino Riviera. Passo a lista depois! Fechado?
–– Fechado! Mas sem
participação no Cassino!
–– Por quê?
–– Por que primeiro quero ver
sua boa vontade no investimento!
–– Ok! No que depender de mim,
liberarei o que for necessário! Alvarás e documentos pertinentes!
–– Excelente! Fique à
vontade para um drink!
–– Claro! Obrigado!
–– Prefeito, se o senhor não
se importar, irei atender ao governador que está ali com a comitiva de
deputados!
–– Fique à vontade Jônatas!
Eu já estou de saída!
–– Não! Não! Fique mais um
pouco! Você é importante e tenho muita estima pelo senhor!
–– Está bem! – o prefeito
vira-se para um assessor e diz – esse é o homem mais maquiavélico que eu conheço,
te abraça como uma serpente, te beija e diz que te ama. Mas te suga até a
última gota.
(...)
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
O Corvo Contra-ataca -1
O Corvo Contra-ataca – 1 –
continuação
–– Senhoras e senhores! Tenho
a honra e a satisfação de apresentar-lhes o mais arrojado e o maior
empreendimento imobiliário do mercado. Todos vocês que pretendem ter retorno
econômico e financeiro em médio e longo prazo estão diante do futuro. Aqui não
há concorrência e nenhuma moeda ou título superará os ativos investidos. Dominaremos
metade da cidade e posteriormente seremos absolutos. Mas para isso acontecer
com sucesso, é preciso que comprem os luxuosíssimos apartamentos ainda na
planta para podermos dar continuidade ao projeto. Garanto em nome de meu grupo empresarial que
não haverá prejuízos para ninguém. Então, após assistirem ao filme em 3D produzido
pela equipe da nossa agência de marketing e publicidade, mostrarei a maquete
para livre escolha das unidades que satisfaçam seus anseios, enquanto será
servido o coquetel. E para finalizar, quero deixar claro que, haverá já, já a
abertura para aquisição dos lotes de ações do shopping. Para o nosso “Cassino
Riviera”, a escolha de sócios será feita de acordo com os investimentos de cada
um no Shopping e nos apartamentos. Sejam muito bem vindos! E obrigado pela atenção! Sintam-se em casa e
fiquem à vontade para conversar com nossa consultoria financeira! – finaliza Jônatas que é aplaudido de pé.
Enquanto os convidados
empresários e políticos observam atentamente o filme publicitário exibido no
telão, Dorival, dono de uma indústria de alimentos, aproxima-se calmamente de
Jônatas e toca em seu ombro falando em voz baixa.
–– Jônatas, meu caro amigo,
para onde irão tantos pobres que moram nessa favela?
–– Dorival, meu caro amigo,
para o buraco de onde vieram! Quem não tem poder aquisitivo, não poderá sequer
chegar perto de tamanho empreendimento! Luxo é para os ricos!
–– Você é muito corajoso! É destemido!
Porém, toda ação tem reação!
–– Você não aprova nosso
projeto? Está comigo ou contra mim?
–– Não se trata de estar de
um lado ou de outro! Estou alertando-o para uma possível revolta! Ah, eu estou
do lado dos lucros!
–– Então trate de fazer suas
aquisições em apartamentos e ações. O meu investimento é de cinquenta por
cento. Eu poderia bancar esse sonho futurista sozinho e ainda me sobraria
dinheiro em várias contas!
–– Eu sei disso! E
parabenizo-o!
–– Então, meu amigo, não
perca tempo me aconselhando! Vá ver os folder’s, as plantas. Fale com nossos
consultores e escolha logo seu investimento antes que acabe!
–– Farei isso! Desejo sucesso
para nós e faço um brinde!
–– Um brinde! Amigo!
–– Israel Santana é um dos
homes mais ricos do eixo Rio-São Paulo - dono de um conglomerado de empresas -
e veio prestigiar o amigo por tão grande empreendimento.
–– Jônatas! Como você está?
–– Estou bem! Cheguei a
pensar que você não viria!
–– Tive alguns contratempos!
Mas aqui estou! Pretendo comprar uma torre inteira! Quero espaços de lojas no
shopping e fazer parte do seu seleto grupo no “Cassino Riviera”!
–– Assim é que se fala! Você
perdeu a apresentação do vídeo em 3D! – diz Jônatas.
–– Perdi nada! Sua
assessoria é eficiente! Recebi por e-mail juntamente com o convite e é por isso
que estou confiante e empolgado!
–– Venha! Vou lhe levar
pessoalmente aos meus consultores de vendas para fecharmos esse negócio! –
Jônatas fala empolgado ao amigo empreendedor.
–– Vamos!
–– Você ficará na cidade
hoje?
–– Não posso! Vim
exclusivamente para esse evento e voltarei logo mais à noite!
–– Eu entendo! Somos
realmente muito ocupados! Bem, são doze torres de trinta andares a princípio,
com espaço para mais doze. Um apartamento por andar. Veja aí qual lhe convém!
–– Certo! Vamos ver!
–– Israel! Responda-me! Você
continua solteiro ou já se casou?
–– Quem precisa casar quando
pode ter um harém?
–– Um homem tem que ter uma
mulher para ter uma família descente e herdeiros.
–– Olha quem fala! Herdeiros
brigam para obter o que não trabalharam e chegam a se matar por isso! Não quero
causar a morte de pessoa e tampouco de meus filhos!
–– Isso é desculpa de homem
mulherengo! Chegará o dia em que se apaixonará perdidamente e se casará!
–– Se essa for a vontade de
Deus! Quero ter filhos justos!
–– Israel Deus não deu ao
homem a escolha do destino!
–– Talvez meu destino seja
outro! Vamos ao que realmente interessa! Por favor!
–– Sim! É claro! Deixe-me
lhe apresentar aos diretores financeiros do grupo! Eles são os melhores!
Após as apresentações e
cumprimentos, os negócios são fechados e o dinheiro das compras é transferido
online.
–– Isaura! A grande herdeira
da família mais rica do centro-oeste do Brasil, dona das maiores fazenda de
gado e exportadora de carne para várias partes do mundo! Quanta honra! – diz Jônatas,
cumprimentando a senhora de olhos claros, de cabelos grisalhos bem vestida. O perfume francês exala quase
hipnotizando quem a rodeia, chamando para si a atenção.
–– É um prazer revê-lo,
Jônatas! Vejo que tirou seu sonho do papel!
–– Sim! E quero muito que
você faça parte dessa realidade futurista!
–– Claro! É para isso que
estamos aqui! Para investir em negócios sólidos e bem planejados!
–– Muito bem! Vamos ver o
que mais lhe interessa!
–– Estou encantada com todo
esse projeto! Farei minha escolha!
–– Logo mais à noite teremos
um jantar no salão nobre de nosso hotel e, como atração, um grande pianista
internacional. Espero que você esteja
lá!
–– Com prazer! Agora vamos
aos negócios!
–– Calma! Você não deixou
nenhum filho chorando!
–– Claro que não! Meu filho
mais novo já está formado em direito!
–– Que bom! Mais um advogado
em seu grupo!
–– É. Ele é uma dádiva!
–– No jantar sortearei algo
interessante para nossos cem convidados! É surpresa! Isaura dê-me licença,
preciso falar com uma pessoa em particular! É o prefeito! Fique à vontade!
–– Pois não! Eu estou bem!
Obrigada!
(...)
Carlos Holanda
O Corvo Contra-ataca
O Corvo
contra-ataca - 1
Jônatas é um milionário excêntrico. É investidor com visão
futurística e ele decidiu mostrar aos seus associados e empreendedores um
projeto audacioso: comprar um bairro inteiro da periferia para construir o
maior shopping vertical da cidade. Mas não é só isso. Ele pretende transformar
a área de favela em um bairro nobre. Em seus planos, a ideia inicial é erguer
blocos de apartamentos de luxo simultaneamente. Para que tudo dê certo,
primeiramente é preciso convencer os moradores a venderem suas casas humildes a
preço de banana.
Jônatas contratou os melhores engenheiros e arquitetos que o
dinheiro pode pagar. Também tem uma banca de advogados para tentar convencer as
famílias a se retirarem amigavelmente, vendendo assim seus imóveis.
Nesse momento, Jônatas apresenta o projeto em 3D e em cima de
uma grande mesa de mármore branco, na sala de reuniões, há uma maquete enorme
onde se vê o condomínio de luxo e ao lado o shopping que será construído. É um
projeto audacioso, com lojas de departamentos das grandes redes de varejo,
parque temático, área de shows e eventos, praças de alimentação, estacionamento
vertical e como âncora, um grande cassino na cobertura. Mas antes, ele terá que
conseguir o terreno.
A população carente de ações sociais e do poder público não
vê o empreendimento com bons olhos. Vê sim, como uma ameaça. Ali estão
enraizadas histórias de seus ancestrais, de filhos e netos.
(...)
Carlos Holanda
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