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quarta-feira, 13 de maio de 2020

Cangaceiros 33


–– Obrigado Senhor, por ajuda-la! – diz a mãe da garota.
–– De nada Senhora! De nada!
–– Vamos querida!
–– Quem era aquele rapaz, irmã?
–– Não sei, não sei, mas ele foi muito gentil e educado comigo! Ai! Meu pé está latejando.
–– Quando a gente chegar lá faço uma compressa. Dá para aguentar?
–– Acho que sim.
–– Achei ele foi muito metido a besta!
–– Ah, não! Estás com ciúmes irmão?
–– Rum, eu não!
–– Deixem essa discussão para lá! Então pé na tábua motorista. Não quero chegar lá de noite.
–– Pois é inevitável! A cidade grande é longe. Se tudo correr bem vamos chegar de madrugada.
–– Pois acelera essa joça aí.
–– Sim Senhora! É bom fechar os vidros. A poeira é grande!
–– Ah, mas está calor demais!
–– Bem, vocês que sabem! A poeira da viagem vai deixar a patroa e a patroinha de cabelos duros.
–– Chico Bala acelera e pronto! A gente não liga para isso agora não. Quando chegarmos à capital a gente banha! – diz a garota.
–– Quem era aquela moça Júnior? - Pergunta Fátima, irmã de Junior.
–– Sei não Fátima.
–– Oxe! Como não sabe? Até parece que vocês já se conheciam?
–– Sei não. Ela disse que o nome dela é Júlia.
–– Pelas roupas de luxo, pelo carro e pelas posses da mulher, só quem tem essas riquezas por essas bandas é o Coronel Messias.
–– Eu não sei. Ela não disse de quem é filha. Só ajudei porque ela caiu.
–– Sei. Mas ela até que é bonita!
–– É muito bonita e delicada! Olhou bem dentro dos meus olhos!
–– Vixe Maria! Meu irmão se apaixonou! Tenha cuidado! Se for a filha do Coronel ele arranca teu couro! Vai mexer com a filha alheia viu?
–– Ela disse que foi para a cidade grande e só volta depois da eleição.
–– O que que tu achou dela?
–– Fátima, vamos parar com essa conversa. Vamos logo falar com o Padre e fazer logo esse convite para a festa de aniversário do pai.
–– Está bom! Está bom! Mas tu ficaste caidinho por ela! Te conheço irmão!
–– É fiquei! Não vou mentir! Ela é muito bonita mesmo.
–– Eu sabia! As rosas também são delicadas, porém, tem espinhos! Mas, quem sou eu para falar, abarca quando ela voltar, isto é, se ela quiser! Há! Há! Há!
–– Rum!

Enquanto isso, na bodega do Arilson, acontece a abertura do evento planejado há um mês. Fatos inusitados podem ocorrer. Zé Pezão e os dois jagunços estão no meio do povo sondando qual o melhor momento para pegar o comerciante.

–– Gaguinho, tu atende aí o povo nas mesas. Chico Preto tu toma de conta da bodega e não vai passar troco errado não. Mariazinha capricha nas comidas. Vou lá para o palco dá duas palavras e chamar o prefeito para fazer o discurso dele.
–– Vai! Arrocha Arilson! – diz Chico Preto!
–– Tá, tá, tá bom, bom patrão! Arre-arre-benta, arrebenta! – frisa Gaguinho.
–– Senhoras e Senhores! Quero antes de tudo agradecer a presença de todos! Chegou o grande dia! Dia de alegrias, de festa, de comemoração junina com comidas típicas e bebidas tradicionais como a garapa de cana e a cachacinha ali na nossa bodega. E tem mais coisa boa aí, as nossas barracas de bolo frito com sucos, cafezinho, milho verde, pamonha e muito mais. Daqui a pouco anuncio as lutas. E para animar o negócio, comunico que o “pau de sebo” já está liberado, com um prêmio gordo numa trouxa amarrada no topo do mastro, e quem conseguir realizar o feito de tirar o prêmio, seja homem, mulher ou criança, eu ainda darei um valor em dinheiro. “A morte do pato” no terreiro também está esperando por vocês e tem outras brincadeiras, além da pega do boi e corridas de cavalos. De noite haverá quadrilhas e arrasta pé com os “Três Nordestinos”, o melhor do forró no Piauí. Agora, nesse momento quero anunciar a presença da pessoa mais importante desse evento, que muito fez e faz pelo nosso município de Olho D’Água e por esse povoado. Sem o apoio dele, nada disso hoje seria realizado. Quero pedir a todos uma salva de palmas para o nosso prefeito, seu secretariado, vereadores e demais autoridades aqui presente.
–– É um babão da porra! – diz um dos jagunços que acompanha Zé pezão.
–– Puxa saco de meia tigela – afirma o outro nos ouvidos de Zé Pezão.
–– É. Pode ser, mas o povo gosta mesmo do prefeito e do Arilson. Tá vendo a quantidade de gente batendo palmas? – pergunta Zé Pezão.

O prefeito com um sorriso largo em meio à multidão, caminha pegando na mão de um e de outro, dando tapinhas nas costas dos eleitores, abraçando até quem não conhece e beija na testa as criancinhas até chegar ao palco de madeira, coberto com lona para abrandar o sol escaldante do sertão.
(...)

Cangaceiros 32


–– Mas como tu vais fazer isso?
–– Deixe comigo. Serei o chefe dessa guerra se é isso que o Coronel quer. Além do mais temos agora uma moeda de troca também.
–– Qual?

–– O gado. Quando os índios vierem, dar-lhe-ei quinze cabeças de gado para saciarem a fome de seus guerreiros. As outras a gente come.
–– Pois muito bem. Serás promovido de capitão a general.
–– O general é mais que capitão?
–– Claro Gerônimo! Claro!
–– Então assim será! Está decidido! Ah, General é com G ou com J?
–– Com G, assim como seu nome.
–– Aboiem o gado homens. Não deixem que eles ganhem o mato. Vamos embora – ordena Gerônimo.

Na fazenda a mãe de Júlia pede que ela se arrume para a viagem à capital.

–– Seu irmão já está de mala pronta lá fora só esperando.
–– Eu sei mãe. Eu sei.
–– Então se aprece. Vou me assear enquanto você se arruma. É já que eu volto.

Júlia vê a carta sobre a escrivaninha endereçada ao governador que a mãe levará e decide abrir e Lê, faz uma cópia num pedaço de papel e guarda. Rapidamente fecha, lacra e deixa no mesmo lugar.
–– Está pronta?
–– Estou!
–– Então vamos! É uma viagem longa.
–– Mãe! Tenho que passar na igreja novamente.
–– Mas filha, você veio de lá agora a pouco.
–– Sim, mas prometi dar uma pequena quantia ao Padre Lauro. Tem uma freira lá na Casa Paroquial que está muito doente. Fiquei penalizada com isso e quero ajudar antes de partir.
–– Está bem! A gente faz uma parada rápida e você entrega sua doação.
–– Sim. Obrigado mãe!

O carro sai da fazenda conduzindo a família e ao chegar na porta da Igreja para e Júlia desce. Apressada, ela entra, mas já não encontra o Padre que saiu mais cedo na companhia de Gerônimo, então ela entrega o bilhete ao Sacristão e recomenda que ele o entregue assim que ele voltar e na saída, tropeça na barra do vestido e cai.

–– Posso ajuda-la senhorita? – indaga Júnior, o filho mais novo de Joaquim da Silva, que por acaso estava passando e fita-a nos olhos por um instante.
–– Claro! Cai de mau jeito. Acho que torci o tornozelo.
–– E porque a pressa?
–– Minha mãe está esperando ali, naquele carro!
–– Apoia-te em mim. Levo-te até lá!
–– Por favor! Obrigada!
–– Não há de que!
–– Que mal te pergunte, vais viajar para onde?
–– Para a capital.
–– E quando voltarás?
–– Depois da eleição!
–– Tanto tempo assim? Posso te ver depois?
–– Não sei.
–– Como não sabes?
–– Vamos logo, minha mãe e meu irmão estão olhando.
–– Está bem. Meu nome é Júnior. Júnior, filho de Joaquim da Silva. Todo mundo conhece meu pai nessa cidade.

–– Meu nome é Júlia. Foi um prazer! Obrigada viu?
–– Disponha Senhorita!
(...)

Cangaceiros 31


–– Esse gado é para ele vender?
–– Não sei Senhor!
–– É para o abate?
–– Não sei Senhor!
–– Vocês não sabem de nada mesmo, não é?
–– Não Senhor.
–– Pois eu sei. Essas cabeças de gado são para pagar a recompensa que ele oferece pela minha cabeça.
–– Não Senhor. É para alimentar o povo da fazenda.
–– Ora mais rapaz! Agorinha vocês não sabiam de nada.
–– É o que a gente acha! Somos só vaqueiros contratados para levar o gado para a fazenda.
–– E essas armas?
–– É para nossa segurança no caso de roubo.
–– Pois vocês vão ter que ir embora sem o gado.
–– Moço, não faça isso! Eles vão nos matar se chegarmos sem as cabeças de gado!
–– Vocês são cinco e para não chegar com as mãos abanando, vão levar cinco bois. Contem a história para o Coronel que Gerônimo confiscou o que ele oferece como recompensa por mim.
–– Mas Senhor...
–– Vão agora ou vocês ficarão sem o mel e sem cabaça. Ninguém faz as coisas sem saber de nada.
–– Por que o Capitão não fica logo com tudo e a gente sangra eles e deixa aí para os urubus? – indaga Cancão.
–– Cancão, se é comida para alimentar o bando de jagunços ele terá que dar outro jeito. Se for para pagar a recompensa, está dado o recado que ele não está mexendo com cabra frouxo.
–– Deus me perdoe, mas suprimento para o inimigo só o fortalecerá. Gerônimo está certo – diz o Padre.
–– Agora vão que minha paciência está ficando bem pouquinha – afirma Gerônimo apontando com a velha parabela já engatilhada.
–– Vamos! Vamos! – ordena o vaqueiro chefe.
–– Padre, quero fazer um pedido.
–– Fale homem de Deus!
–– Padre é o seguinte: se vamos ter um enfrentamento com esse Coronel que é tão poderoso, vamos precisar de armas. O Senhor pode solicitar ao prefeito o apoio do governador.
–– Gerônimo, o prefeito não tem recursos para isso. O governador não manda soldados e armas porque o prefeito é de outro partido. E é mais fácil ele mandar para o Coronel que é da oposição.
–– Então temos que dar outro jeito.
–– É uma batalha desigual e pelo ritmo da carruagem a do Coronel está na frente.
–– Então temos que pensar um passo na frente dele.
–– Como podemos fazer isso?
–– Padre eu sou amigo do chefe de uma tribo indígena além das montanhas do acampamento. Acredito que eles podem nos dar uma força.
–– O que índios com lanças, arcos e flechas podem fazer diante do poder de fogo do Coronel?
–– Eu estou matutando aqui no quengo umas ideias mirabolantes.
–– Sabe Padre, o Cacique é meu amigo, me deve favores. Há muitos anos, salvei o filho dele da morte. Bandidos o pegaram e iam mata-lo, e, foi aí que eu e meus amigos os impedimos. Não deixamos nenhum vivo e devolvemos o indiozinho para a tribo.
–– E o que tu pretendes fazer?
–– Eles poderão ser muito úteis se seguirem meu plano. Vou mandar uma mensagem para o chefe da aldeia. Vamos atacar o bem mais precioso do Coronel. Acabar com a fonte de recursos dele.
–– Como tu vais fazer isso?
–– Não se preocupe. E de quebra, ainda vamos salvar os escravos que, livres no meio da confusão serão nossos aliados.
–– Só um milagre para fazer dar certo!
–– Padre o Senhor tem fé em Deus?
–– Filho eu rezo, mas quem faz o milagre é Deus!
–– Então confie em mim e pode rezar que dará certo. Essa cidade irá pegar fogo, ou parte dela.
(...)

domingo, 26 de abril de 2020

Cangaceiros 1


Joaquim da Silva, nordestino das brenhas do Piauí, é um homem forte, alto, de pele queimada pelo sol e mãos calejadas da labuta no cabo da enxada; caboclo de palavra, trabalhador, de personalidade forte, desses que só anda com a peixeira na cintura e é capaz de lavar a alma com sangue caso seja ofendido, pois não leva desaforo para casa. Mesmo que não esteja aboiando, carrega sempre o chapéu de couro no quengo, mas quando vai campear o gado usa o gibão e as calças de couro como se fosse uma farda para proteção contra espinhos e galhos.

Joaquim da Silva casou-se muito cedo com Maria dos Anjos, de papel passado no cartório e na igreja, e desse matrimônio nasceram sete filhos, seis homens e a penúltima é uma menina. Os dois filhos homens, os mais velhos, também se casaram com mulheres das redondezas, o outro, amancebou-se com uma moça de vida livre; os três casais moram mais distantes. Os outros quatro filhos, mais moços, residem sob o mesmo teto dos pais.