segunda-feira, 6 de agosto de 2018
terça-feira, 31 de julho de 2018
Ilustrações com nankin e esferográfica do artista Carlos Holanda
Castro Alves
Vinícios de Moraes
Santos Dumont
Silvio Santos
Luis Inácio Lula da Silva
Clodovil
Fernando Pessoa
José de Alencar
Olavo Bilac
Rui Barbosa4
Machado de Assis
Maurício de Sousa
segunda-feira, 30 de julho de 2018
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Herança Maldita - Parte VIII
Herança Maldita - Parte VIII
Por Carlos Holanda
Por Carlos Holanda
– Boa tarde amigos! – cumprimenta o delegado.
Vejo que a festança aqui irá entrar pela noite.
– Porra Mauro! Você precisava ligar essa
porcaria de sirene? Você sabe que a Júlia anda com os nervos a flor da pele.
– Calma Gerônimo. Você está me vendo fardado?
Isso não é missão oficial. Só o carro que é da polícia. Estou queimando a
gasolina da prefeitura. Nesse momento é o seu amigo quem está aqui.
– Assim é melhor – diz Júlia mais aliviada.
– Então pega uma cadeira e sente-se conosco –
convida Gerônimo.
– Não irei me demorar. Vim parabenizar a
Júlia por estar livre de tudo. Vocês souberam escolher uma boa advogada. A
papelada e o vídeo são bem contundentes. Os federais tomarão conta do caso
daqui para frente.
– Está bem. Vamos comer e beber. Deixar esse
assunto para outra ocasião – diz Gerônimo.
– Claro! Falei para minha mulher da sua inocência
Júlia. Ela ficou muito feliz.
– Obrigada, delegado. Mas como disse o
Gerônimo, vamos encerrar por hoje esse assunto. Deixar para outra oportunidade.
– Está bem.
Gerônimo entra na casa, pega duas cervejas e
entrega uma para o delegado - amigo de longas datas - e outra para o cunhado. O
churrasqueiro improvisado trás carnes para a mesa.
Um sedan prata estaciona ao lado da viatura
policial. É Karina que vem dar o ar da sua graça e abrilhantar a festa.
Gerônimo não se contém, apressa o passo para abrir a porta do carro e mostrar
seu lado cavalheiro.
– Olá doutora. Demorou, hem?
– Tive que passar em casa para deixar a ração
da minha gata.
– Ah, você tem uma gatinha?
– Tenho. E ela é muito fofa. Vejo que o
negócio aqui está animado, não é mesmo?
– Pois é. Graças a você, a Júlia está muito
contente.
– Imagina! Só fiz meu trabalho.
– Vamos entrar para beber alguma coisa.
– Vamos. Você convidou o delegado?
– Não. Ele é meu amigo de infância e resolveu
aparecer.
– Entendi.
– Essa é a doutora Karina, Xavier. Nossa
advogada de defesa.
– Bonita, ela.
– Bonita e competente. Espere só um instante.
– Fica à vontade, amor.
– Oi doutora. Pensei que você nem viesse
mais. Já está quase de noite.
– Tive que passar lá em casa. Mas está tudo
bem, não é?
– Claro. Só tenho a agradecer. Você foi muito
ágil.
– Não gosto de perder tempo. Naquela mesma
noite falei com o juiz e no dia seguinte, quando o Gerônimo me ligou eu já
estava com a documentação pronta. Só levei alguns minutos para redigir o habeas
corpus.
– Doutora Karina, a advogada de grandes
causas.
– Como vai você delegado? Prepare-se para
receber os federais.
– Tranquilo. Pode deixar. Certamente que eles
me deixarão acompanhar o desenrolar dos fatos, mesmo que não seja oficial.
– É. Pode ser. Com licença. Preciso conversar
em particular com Gerônimo e Júlia.
– Tudo bem, doutora.
– Vou ver aqui se tenho condições de pagar os
honorários dela, Mauro – diz Gerônimo e sorri.
– Oh, rapaz! O que é isso? Assim você me
deixa encabulada.
Júlia é mais discreta, suportou todo tipo de
pressão e não perdeu a postura enquanto Gerônimo está mais entusiasmado e
demonstra sentimentos.
– Atenção! Todas as viaturas. Acidente grave
com vítimas fatais na rodovia 346. Dirijam-se para lá, por favor. Na escuta? –
diz o rádio do carro da polícia.
– Na escuta.
Aqui é o delegado Mauro. Estou a caminho. Câmbio!
Nesse exato momento Xavier recebe uma ligação
telefônica de sua mãe informando-o que seu pai está passando mal. Ele avisa à
sua noiva, tranquiliza a todos que mais tarde dará notícias e sai da festa.
– Gerônimo, Júlia, doutora Karina, vou ter
que me ausentar da festa. Está tudo muito bom, mas, houve um acidente lá no
entroncamento com vítimas fatais. Tenho que ir lá.
– Que pena! Acidentes acontecem delegado. Boa
sorte!
– Gente, até mais – diz o delegado que sai às
pressas.
Um dos homens entra na sala e diz:
– Patrão, sabe quem veio aqui? O Gamelão.
– Quem diabos é Gamelão, Chico?
– O Bafo de Bode.
– Piorou. Não conheço ninguém com esses nomes
estranhos.
– Ah, é o Zé da onça, não é Senhor Chico?
– É esse mesmo. Olha aí viu? A Dona Júlia o
conhece.
– Quem é esse, Júlia? Eu não me lembro dessa
figura.
– É um caçador beberrão. Passa a maior parte
do tempo encharcado na cachaça. Quando não está bebendo, está no meio do mato
com uma espingarda. Já dei alguma ajuda para ele nas poucas vezes que veio
aqui.
– Chico, e o que ele queria, era ajuda?
– Não Senhor. Ele disse que queria mesmo era
lhe contar uma história, um segredo. Sei lá, parece que já tinha bebido umas.
Disse ele que vem amanhã. Passou mais de uma hora sentado lhe esperando.
– Está bem. Estarei aqui amanhã.
– Olhe, tem muita carne assada. Acho que só
vocês não vão dar conta não.
– Beleza Chico. É já nós iremos lá para fora.
– Tem um abacaxi e umas cebolas que já devem
estar no ponto. Vamos experimentar Doutora Karina.
– Vamos sim.
– Antes de saírem da sala, Gerônimo entra no
quarto e quando volta, trás consigo um envelope amarelo e entrega para Karina.
– Olha aqui Doutora, os outros cinquenta por
cento dos seus honorários como combinamos.
– Obrigada. Você nem precisava ter pressa. Eu
ia lhe dar o número da conta para depositar.
– Eu sei que faria isso. Mas passei no banco
e já saquei o dinheiro.
– Então vou acompanhar a Júlia e tomar uma
taça desse vinho.
– É uma delícia! Vou encher a cara.
– Não se afobe maninha. Sabe Karina? Ela nem
é de beber. Essa é a primeira vez em toda sua vida que prova bebida alcóolica.
– Tudo tem uma primeira vez. Hoje é um dia
especial.
– Doutora, vamos sentar ali fora. Quero lhe
pedir opiniões sobre um assunto. E dessa vez, se for o caso, sou eu quem vai
lhe contratar.
– Opa! Agora foi que me interessei pelas
histórias. Não é coisa complicada não, é?
segunda-feira, 9 de julho de 2018
Herança Maldita - Parte VII
Herança Maldita - Parte VII
Por Carlos Holanda
Por Carlos Holanda
– Sim, claro. Já estive com o juiz. Eu o peguei numa veia boa. Em no
máximo quarenta e cinco minutos levarei um habeas corpus e outros documentos
para a delegacia. Vá para lá também.
– Certo. Estou saindo agora mesmo.
Pouco tempo
depois Karina chega à delegacia.
– Bom dia
delegado! Por favor, solte minha cliente agora. Ela é inocente. Aqui está o
habeas corpus.
– Calma doutora. Que pressa é essa? Ela irá responder por seus crimes.
– Ela não cometeu nenhum crime. Venho agora do tribunal. Veja você mesmo,
essa é a cópia do filme que a inocenta e outra coisa, aí estão os documentos
assinados pelo juiz que retira o caso da sua jurisdição, manda o perito Diego
para casa e encerra aqui toda essa parafernália. O caso agora está em outra
esfera e amanhã mesmo chegarão agentes federais.
Depois de
ver o filme, examinar os documentos e com
cluir que
Karina tem razão, o delegado fecha a cara e manda liberar a moça.
– Pronto, Júlia, você está livre de uma vez por todas. Seja feliz – diz o
delegado
– Eu já estava cansada desse negócio de esteja presa, esteja solta.
Parabéns doutora Karina, pela sua eficiência.
– Obrigada.
Gerônimo
chega atrasado e pergunta
– O que eu perdi aqui? Foi tudo muito rápido. Tudo bem delegado?
– Tudo. Depois falo contigo.
– Vamos embora irmão. Estou livre.
– Que beleza! Vamos. Doutora Karina, você vem com a gente?
– Ainda não. Vou só oficializar as coisas aqui. Mais tarde irei a sua
casa. E já podem comemorar, viu?
– Não. Vamos esperar por você – responde Gerônimo.
– Está bem. Passo por lá a tarde.
Já do lado
de fora da delegacia, Júlia muito satisfeita com os resultados do processo,
elogia Karina.
– Eu não disse Gerônimo, que a mulher tem
bagagem?
– Eu observo isso o tempo todo.
– Safado! Só leva para o lado da maldade.
– Estou falando sério.
– Eu vou lhe dizer uma coisa, passe em
qualquer lugar desses aí e compre um bom vinho. Hoje vou beber uma garrafa
sozinha.
– Mas você nem bebe.
– Tenho vinte e cinco anos e nunca bebi
álcool em minha vida, mas hoje é especial.
– Você é quem manda. Eu vou tomar cerveja.
– E para Karina, vai levar o que?
– Nem sei o que ela bebe ou se bebe alguma
coisa.
– Então leve champanhe e dá uma de romântico
– Está certa.
Darei umas flores também com a desculpa de que é por conta dessa
vitória.
– Bem pensado. Mas ela não tem namorado?
– Tem nada. Foi algo que perguntei assim que
a conheci.
– Então irmão, investe que tem futuro.
Em casa, Gerônimo propõe fazer um churrasco e
chama os dois homens que trabalham para ele para participarem. Um acende o
fogo, o outro prepara os espetos.
– Vamos assar uma carninha, eu trouxe uma
picanha, calabresas e frango.
– Sim. Até que enfim irei dormir com a
consciência mais tranquila.
– A Karina deve estar chegando por aqui.
– Não fique tão ansioso. Tudo acontece no
tempo certo, até o amor. Posso ligar para o Xavier?
– Claro. Eu fui rude com ele. Deixei seu
namorado assustado. Vamos celebrar sua vitória e falar nos preparativos do seu
casamento.
Júlia entra na casa, pega o celular e faz a
ligação convidando o namorado para lhes dar a boa noticia e comemorar.
– Vem logo, amor, a carne já está chiando no
fogo e a cerveja está bem geladinha. Júlia volta para o lado de fora da casa.
– Falei com ele. Está vindo. Sim, Gerônimo, por falar nisso, o que você
pretende fazer, além da cerimônia?
– Bem, eu pensei em trazer o Padre para cá.
Ficará lindo um casamento nesse cenário. A gente monta um altar rústico, aluga
mesas, cadeiras e providencia os serviços de buffet. Não queremos que nada dê
errado.
– Que maravilha Gerônimo. Você é um irmão
maravilhoso.
– A gente aproveita e manda celebrar uma
missa para nossos pais.
– Claro que o Padre já iria citar os nomes
deles.
– Não basta. Quero a missa antes do evento.
Preparar as almas de nossos convidados.
– Bem pensado. Será lindo. Já estou
imaginando tudo.
– Quero ver minha irmã feliz. Ver meu
sobrinho nascer saudável. O alicerce da família é o amor, a compreensão e o
respeito.
– É verdade. Como você sabe que será um
menino?
– Não sei. Torço para que seja homem.
– Torça para que seja o que Deus quiser.
Vindo com saúde já fico feliz.
– Sabe Gerônimo, eu pensei em pedir
indenização por danos morais. O que você acha?
– A Karina está vindo para cá. Ela deve te
dar um parecer jurídico melhor que eu.
– Sim, mas eu quero ouvir a sua opinião.
– Eu acho que, como a situação foi revertida,
a polícia e até o prefeito lhe devem satisfação. Não seria nada mal eles se
retratarem em público. Aliás, você deveria convocar a imprensa, rádio, jornal e
TV e cobrar satisfação. Além de levantar ainda mais sua autoestima, alcançaria
o povo que ainda tem dúvidas e acredita que você é uma assassina.
– Pois é isso que irei fazer. Pensarei amanhã
sobre esses argumentos. Ah, mas não irei deixar isso passar em branco de jeito
nenhum.
– Faça isso e não se arrependerá – afirma
Gerônimo sentado numa cadeira no alpendre da casa.
– Patrão, a picanha já está no ponto – diz o
homem mostrando o espeto de carne.
– Vou já comer um pedaço.
– Olha! É bom colocar um abacaxi e essas
cebolas pra assar – diz Júlia com uma bandeja na mão.
– Sim, claro. É uma delícia. Eu mesmo farei
isso.
Uma hora depois Xavier chega, desacelera a
moto e estaciona. Agora já está mais tranquilo por saber de sua aceitação por
parte do irmão da noiva. Gerônimo amistoso, dá as boas vindas ao cunhado que o
cumprimenta e retribui como se já fosse há muito tempo da família. Em seguida,
dirige-se à noiva e a beija carinhosamente.
O que não era de se esperar é que, lá
distante uma viatura da polícia seja avistada e com a sirene ligada. O carro
vem e estaciona bem próximo da churrasqueira.
– Eu não acredito que esse cretino venha aqui
novamente com essa porra de sirene ligada – diz Júlia constrangida.
Herança Maldita - Parte VI
Herança Maldita - Parte VI
Por Carlos Holanda
Por Carlos Holanda
– Tem muita coisa acontecendo nesse momento.
Eu precisaria de tempo para conversar em particular com minha irmã.
– Sem problemas. Ficaremos aqui durante uma
semana. Quero ver outros lugares estratégicos.
Júlia gentilmente oferece um suco de laranjas
para refrescar.
– Bom, tenho um monte de coisas para fazer.
Me desculpe.
– Claro. Nós já estamos de saída. Tome meu
cartão. Escrevi no verso o telefone do hotel, caso vocês decidam conversar mais
tarde. Ok?
– Certo. Entraremos em contato.
– Obrigado pela atenção – agradece o
português.
– Foi um prazer Senhor Manoel. Foi um prazer
Senhora Dalva.
– O prazer foi nosso.
– Júlia, irei à cidade agora mesmo contratar
seu advogado de defesa antes que seja tarde.
– Ótimo. Temos que resolver essa situação.
Estou ficando psicologicamente perturbada com tanta pressão.
– Eu acredito. Já estou é com pena de você.
Por outro lado, te acho uma mulher de fibra para tolerar tanta coisa.
– Até eu me acho forte, mas é só aparência.
Já houve noites que passeei em claro, chorando. Só não quis te dizer.
– Vamos resolver isso de uma vez por todas.
Se você é realmente inocente, temos que provar.
– Ah, e você também não acredita em mim?
– Claro que acredito irmãzinha linda, senão
eu mesmo já teria pedido para te prenderem. Tenho que ir. Estamos perdendo
tempo. Tchau!
– Tchau!
Três horas depois Gerônimo volta para casa
com uma moça loira, de olhos verdes e corpo escultural.
– Doutora Karina essa é a Júlia, minha irmã.
– Prazer Júlia. Seu irmão é mesmo insistente.
No escritório há outros profissionais, mas ele cismou que mulher é que entende
mulher.
– Vamos entrar. Aceita um café, um suco? -
Pergunta Gerônimo.
– Água. Esse clima quente nos dá sede.
– Júlia, essa é a melhor advogada
criminalista da cidade. Deixo vocês à vontade. Vou ver o trabalho dos homens
ali e volto já.
Karina sorri com o elogio.
– Está bem – diz Júlia.
– Então, quero lhe ouvir desde o início. Desde
antes de seu irmão chegar. Como aconteceu e até onde você sabe das coisas.
Certo?
– Ele deve ter antecipado alguma coisa para
você.
– É. Ele falou da viagem dele. Quando chegou
aqui e já encontrou o barco andando. Mas, o que eu quero mesmo é uma
retrospectiva dos fatos.
– Tudo bem. É o seguinte...
Júlia conta tudo que sabe para Karina e se
diz inocente. Gerônimo volta para a sala, senta-se e observa atentamente a
conversa.
– Doutora Karina, tem uma coisa que ainda não
mostrei para ninguém e quero que veja.
– E o que é?
– Espere só um instante – Gerônimo vai ao
quarto dele, trás o notebook, põe sobre a mesa de centro, abre e mostra o vídeo
que copiou do celular.
– Meu Deus! Isso é fantástico! E é favorável
à Júlia.
– Exatamente. Foi isso que pensei.
– Como você conseguiu registrar isso?
– Não fui eu. Foi uma das vítimas. Eu
encontrei o aparelho no local do crime e fiz essa cópia.
– Faça outra cópia para mim e me dê o
aparelho com o original. Mostrarei para o juiz e ele dirá o que fazer. Mas
acredito que muito provavelmente esses crimes já não serão mais de
responsabilidade do município ou do estado. É um caso para ser investigado
pelos federais.
– E você não me mostrou antes Gerônimo. Por
quê?
– Calma. Eu estava esperando o momento certo
para mostrar à pessoa certa.
– Fez bem. Acho que esse filme inocenta você,
Júlia. Mas vamos trabalhar com mais embasamento. Preciso ter argumentos fortes,
afinal, esse é um caso sobrenatural. Eu estou surpresa.
– Doutora, você acha que isso é suficiente
para me inocentar?
– Por hora, é o que temos de concreto. As
imagens falam por si e isso é muito forte, mas o vídeo tem que ser periciado
para vermos a veracidade. Ninguém mais deve saber. Vamos manter sigilo por enquanto.
Tecnicamente o vídeo te livra de tudo. Juridicamente irá depender do
entendimento do juiz.
– Ok. Então vou servir o almoço. Já passa das
14:00 horas.
– Bem, pelo visto essa é a primeira vez que
almoço com uma advogada tão bonita - diz Gerônimo.
– Obrigada.
– Você é Bonita, inteligente e sensata.
– Epa! Parou, parou. Não me envolvo com clientes.
– Não sou seu cliente. É a minha irmã quem está te contratando.
– Vamos mudar o rumo dessa conversa, por
favor. Você também agora está envolvido, pois violou a cena do crime sem
autorização policial.
– Ah, espera aí. Não me coloque nesse meio.
– E como irei justificar o filme para o juiz? Ou você quer que eu diga que
eu fui lá e encontrei?
– Não, não. Está bem. Diga que eu fui lá então. Afinal, tudo aconteceu em
minha propriedade e já faz algum tempo.
Júlia serve
o almoço e logo depois Gerônimo dirige-se para a cidade com Karina. Em dois
dias ela promete uma nova visita com o resultado do Juiz.
E em casa o
papo rola mais descontraído
– Pega leve Gerônimo. Não vai atrapalhar as coisas. Pensa que não vi como
você olhava para ela.
– Júlia, a mulher é uma deusa.
– Sim, ela é muito bonita e tem bagagem.
– E como tem bagagem.
– Gerônimo, eu estou falando de inteligência.
– E você acha que estou falando de que?
– Te conheço irmão. Deixe terminar o processo e você investe na sua
brincadeira.
– Não é brincadeira, minha querida. Nossos olhares se cruzaram lá no
escritório. Ela me encarou por alguns segundos.
– Está bem. Vai cuidar da vida lá fora.
– Estou indo.
O tempo não
espera por ninguém. A noite chega e vai embora. De manhã, antes que Júlia e
Gerônimo comecem suas atividades, a sirene de uma viatura soa na porta. O
delegado e dois policiais trazem um mandado de prisão e levam Júlia para a
cadeia. Gerônimo ainda tenta conversar e impedir, mas os laudos do perito
apontam Júlia como a única culpada dos assassinatos em série.
Gerônimo
liga para a doutora Karina e conta o ocorrido.
– Doutora, o delegado e os policiais acabaram de prender minha irmã. Dá
para você agilizar a sua parte, por favor?
quarta-feira, 27 de junho de 2018
Herança Maldita - Parte V
Herança Maldita - Parte IV
Por Carlos Holanda
Por Carlos Holanda
– Meu nome é Diego Veras. Sou o perito do
estado e fui chamado aqui para esclarecer os fatos.
– Oi, Júlia. Como você está? – indaga Mauro.
– Estou bem. Tranquila.
– O Gerônimo não está em casa? Não vi a
camionete dele.
– Não. Ele foi comprar umas coisas na cidade.
Vamos entrar Senhores.
– Júlia, você está no olho dessa investigação.
Tudo aponta para você – diz o perito.
– Tudo o que especificamente Senhor Diego?
– Bem, vou direto ao ponto. O Mauro me contou
em detalhes tudo que aconteceu aqui. Todos os crimes. E nós, com autorização da
promotoria, desenterramos os corpos no cemitério e encontrei um artefato de
prata. Gostaria de saber se você reconhece essa medalhinha? - E a entrega nas
mãos da moça.
– Senhor, essa medalha estava sumida já faz
um bom tempo. Acho que havia perdido por aí.
– Entendo. Posso dar uma olhada nas suas
coisas por aqui?
– Claro que pode. Não tenho nada a esconder e
uma medalha como essa não serve como prova de nada.
– Essa foto aqui, do porta-retratos, é você
com seus pais?
– Sim. Não é uma foto recente. Mas somos nós,
antes de eles serem assassinados.
– Vou precisar dela para ampliar e ver esse
colarzinho que usa no pescoço. Parece-me
que confere com o que encontramos no cemitério. Ou seja, essa aí.
– Pode levar, desde que a traga de volta.
– Quero dar uma olhada em outros cômodos da
casa.
– Diga-me uma coisa, Senhor Diego, o Senhor
tem um mandado?
– Não. Eu não trouxe um, mas poderia desde já
prendê-la como suspeita.
– Baseado em que? Numa medalha que o Senhor
encontrou no cemitério? O Senhor já verificou se tem impressão digital minha
nela? Ou ela serve como arma do crime para me culpar?
– Júlia, eu sinto muito pelo que está
acontecendo aqui, mas o Diego só está fazendo o trabalho dele – diz o delegado.
– Ah, então o trabalho dele é incriminar
pessoas inocentes, Mauro? Digo delegado.
– Minha jovem, sou um profissional com mais
de trinta anos de carreira e não aceito essas ofensas. Quem está sendo
investigada aqui é você.
– Ah, então irei servir como bode expiatório
para livrar a pele da polícia? É, porque se eu for presa sem provas suficientes
que me condene, livrarei vocês perante a sociedade e tudo volta ao normal
enquanto o verdadeiro assassino continuará solto.
– Não é bem assim que funciona o sistema.
– Pois expliquem como funciona essa droga de
sistema.
– Nós já terminamos por hoje. Faltam os
outros corpos para serem vistos. Assim que terminar voltarei aqui – diz o
perito.
– Tudo bem. Estarei às ordens. Não esqueça de
trazer um mandado. Ah, da próxima vez como você diz, falará com meu advogado.
Cansei de dizer que sou inocente nessa história.
– Não saia desse município tão cedo enquanto
não terminarmos essa investigação. Ainda vamos ver os corpos de seus pais.
– Senhores eu moro aqui e não tenho nada a
temer. Acho um desrespeito com os mortos, ter que desenterra-los, mas, faz
parte do seu trabalho e tenho que concordar com isso.
– Passar bem senhorita Júlia - diz o perito.
– Até mais Júlia. Gostaria que seu irmão
estivesse aqui, mas...
– Não se preocupe Mauro. Sou bem crescida e
dona das minhas ventas. Até mais ver.
Quando Gerônimo volta, já anoitecendo, Júlia
conta-lhe tudo, tim, tim por tim tim. Ele concorda que é hora de contratar um
advogado e afirma que de manhã fará
isso.
No dia seguinte, manhã de sol, um carro de
luxo para na porta e um casal de estrangeiros sai e bate na porta dos irmãos. O
casal soube das histórias que aconteceram ali através da imprensa enquanto
estavam no hotel. Ele é escritor. Ela
arquiteta e está grávida de sete meses. Ele além de escrever, é um investidor e
quer construir uma pousada naquela região, por se tratar de um entroncamento
com estradas que ligam outros estados.
Ele escreve exatamente sobre terror e quer
transformar seu livro em um roteiro de filme e numa revista em quadrinhos e
acha tudo isso fantástico, uma história baseada em fatos. Quer propor comprar a
propriedade.
– Bom dia!
– Bom dia – Gerônimo é quem recebe.
– Meu nome é Manoel e o dela, da minha esposa
é Dalva. Sou português e ela é brasileira.
– É um prazer! Em que posso ajuda-los? Estão
perdidos?
– Não. Não Senhor...
– Gerônimo é meu nome. Senhor Manoel, por
favor, vamos entrar.
– Obrigado – gesticula para que a esposa
entre primeiro.
– Aquela é Julia, minha irmã – aponta para a
moça que está sentada no sofá.
– Olá, tudo bem?
– Tudo - Júlia levanta-se e vem ao encontro
do casal – Que barriga linda! Está de quantos meses?
– Sete. Sete meses.
– Ah, é? Eu também estou grávida de quatro
meses.
– Que maravilha! – diz Dalva admirada pela
coincidência.
– Bem, Senhor Manoel, o que os trás a essas
bandas?
– Vou lhe dizer. Eu sou escritor, mas também
faço investimentos imobiliários.
– Entendo.
– Eu vi reportagens na TV sobre os
acontecimentos aqui.
– Olha Senhor Manoel, desculpe-me a
franqueza, mas não queremos falar sobre isso. Estamos exausto desse assunto.
Meus pais também foram assassinados.
– Como eu disse, antes de ser escritor eu já
fazia negócios no ramo imobiliário.
– Não estou entendendo aonde o Senhor quer
chegar.
– Ele quer dizer que está interessado em sua
propriedade – completa a mulher.
– Isso. Estou impressionado com esse lugar. É
ideal para o que me proponho nesse momento. Gostaria de saber se vocês tem
interesse em vender.
– Não havíamos pensado nisso. Até estamos
fazendo algumas reformas, cercando o que está em aberto. E não. Não está a
venda.
– Pense bem. Sem ofensas, mas não há nada que
o dinheiro não compre. Posso lhe fazer uma bela proposta. Diga-me quanto vale.
Farei uma oferta irrecusável.
– Sinceramente? Vocês nos pegaram de surpresa.
Eu jamais iria imaginar que alguém se interessasse por este lugar. Até porque meus
pais foram enterrados aqui e no momento o local está mal falado.
– Não para mim. Eu acho ótimo como está sendo
falado. Desculpe-me o mau jeito. Quero dizer que seria prazeroso escrever sobre
fatos. De qualquer forma aceite nossas condolência, nossos pêsames.
domingo, 24 de junho de 2018
Herança Maldita - Parte IV
Herança Maldita - Parte IV
Por Carlos Holanda
Por Carlos Holanda
– Já que você está grávida de quatro meses,
amanhã mesmo falarei com os pais dele e marcaremos o casamento para daqui a um
mês.
– Tenha calma.
– Ora tenha calma. Você quer deixar a barriga
crescer mais ou quer casar com um bebê de colo? Fica linda na igreja com um
bebê nos braços. E do jeito que o povo daqui gosta de fofoca, não irão falar
bem de jeito nenhum.
– Eu não...
– Não o que? Não estava preparada? Pois fique
sabendo que tenho dinheiro para bancar essa cerimônia no civil e no religioso.
– Então se é assim, casaremos.
– E vou lhe dizer mais uma coisa, ele vai ter
que vir morar aqui. Quero ver esse boy pegar no cabo duma enxada, tirar leite
da vaca, alimentar os porcos, as galinhas e cuidar de você e do bebê.
– É assim que vai ser?
– É. Você pode não ter pai nem mãe, mas eu
estou aqui para lhe proteger e esse filho da puta vai ter que assumir que é
homem. E já chega de papo por hoje. Vou dar as instruções para os homens
começarem a trabalhar. Bote água no feijão para mais duas bocas. Vou pegar as
coisas que trouxe do mercado.
– Está bem.
O dia termina, e a boquinha da noite,
Gerônimo chama a irmã e pede desculpas pelas ofensas e grosserias. Foi um
momento de surpresas, mas o susto passou. Promete que dali para frente a
tratará como antes, com amor, afeição e carinho. Júlia não guarda rancor e logo
estão na paz planejando o futuro.
De manhã cedo, Gerônimo ordena que os homens contratados
retirem todas as placas da entrada que amedrontam o povo e as substitua por
outras com o nome da propriedade e outras para dar as boas vindas. Também manda
roçar o mato para retirar o ar fúnebre e deixar um acostamento. E enquanto eles
trabalham nessa empreitada, o moço vai à cidade acertar com os pais de Xavier a
data do casamento.
Na Delegacia o perito recebe a ordem do
promotor providenciada pelo delegado para desenterrar os corpos das vítimas no
cemitério e dá continuidade junto com legistas e policiais.
A imprensa pede autorização para acompanhar o
desenrolar dos fatos e é concedida pelo delegado.
O perito examina cada esqueleto
minuciosamente e encontra a metade de um cordão fino de prata e uma medalha
encravada entre os dedos de uma das ossadas. Esse era um corpo masculino e
talvez tenha tido um contato bem próximo com o agressor. É o que ele supõe.
Foram examinados três cadáveres e ele decide deixar para o outro dia seu
trabalho. Volta para delegacia e sugere ao delegado que muito provavelmente
cada jovem tinha um aparelho de celular. Foram encontrados quatro. Indaga onde
estão os outros dois uma vez que nos que foram encontrados não havia nada
relacionado aos crimes. Então, ele decide fazer uma visita à casa de Júlia para
investigar como a medalha e parte do colar foi parar no cemitério. Sugere ao
delegado que outros policiais voltem ao local do crime para tentar encontrar os
outros celulares e usa o termo escarafunchar o local. Pede também para ver
todos os pertences das vítimas; bolsas, mochilas, barracas, calçados e roupas que
foram apreendidas no dia do evento na floresta e tudo mais que possa servir
como possíveis provas ou pistas de alguma coisa que incrimine o suspeito.
Ainda nessa manhã, Gerônimo tranca-se no
quarto, liga o notebook sobre a cama, põe o cabo USB conectado com o celular
que encontrou na cena do crime e transfere todos os arquivos para observar na
tela maior. Vê fotos que não tem nada a ver com o que aconteceu e encontra a
pasta de vídeos. Essa é a parte que lhe interessa. Assiste pacientemente um por
um dos existentes no celular, e até que enfim, no último, o mais recente, é
sobre o ocorrido no bosque. Nas cenas tremidas, instantes antes de o agressor
atacar ele vê a filmagem como se o jovem estivesse registrando o local para
postar depois nas redes sociais, cenas essas que mostram o acampamento com três
barracas já montadas, uma vez que eram três casais; e prossegue vendo as
árvores e tudo mais ao redor, mas a cena mais chocante está por vir, que é
exatamente o close de cipós que se locomovem como se fossem acionados por
controle remoto. É incrível – pensa ele. E continua a assistir. Os cipós
parecem cobras vivas na areia quente, mas o jovem não se dá conta de que essas
raízes esverdeadas estão indo em sua direção e laçam seus pés, enroscam-se em
seu corpo, asfixiando-o e finalmente o arrastam para longe de seus amigos. O
aparelho ainda está em sua mão direita e ele consegue mesmo sem poder falar ou
gritar para avisar os amigos, filmar um vulto feminino, encapuzado, macabro.
Era como se os cipós nascessem das mãos desse vulto que o enforcara. Nesse momento
o celular cai e fica fora de área.
Gerônimo gela a espinha, fica em estado de
choque e com medo dessa descoberta. Como pode ser uma aberração desse tipo
matar tanta gente em um lugar deserto e nunca ter-se ouvido falar nada a
respeito?
– indaga-se o rapaz, que continua curioso e apreensivo com esse
mistério logo em sua propriedade. Bom, pelo menos ele constata que o monstro é uma
fêmea. E em pouco tempo ele deduz que os jovens não tiveram chances. Foram
pegos de surpresa um por um.
Júlia avisa que o almoço está na mesa e diz
para chamar os homens.
– Gerônimo, faz mais de duas horas que você
está trancafiado nesse quarto. Vem almoçar e chama seus funcionários.
– Já estou indo. Faça-me o favor, chame-os.
– Certo.
À tarde, Diego, o perito, acompanhado do
delegado e mais dois investigadores da polícia fazem uma visita a Júlia, que no
momento está sozinha na casa. Os homens contratados estão no campo, colocando
estacas que servirão para as cercas e Gerônimo havia saído; foi comprar arame
farpado no comércio da cidade. Júlia ouve o barulho dos carros e vai para
porta.
– Boa tarde minha jovem. Presumo que você
seja a Júlia – diz o perito.
– Sim, sou eu. E o Senhor quem é?
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